Editor do The Intercept Brasil fala sobre jornalismo investigativo em palestra na UFSC

05/07/2019 17:56

Leandro Demori, editor do site The Intercept Brasil, palestra na UFSC

“Jornalismo serve pra uma coisa muito simples: falar a verdade, falar o quê os poderosos querem esconder. Doa a quem doer”. Para um público majoritariamente de estudantes de Jornalismo, o editor executivo do site The Intercept Brasil, Leandro Demori, respondeu às perguntas por mais de duas horas, durante a manhã desta sexta-feira, 5 de julho, sobre o exercício do jornalismo no Brasil e sua experiência na área. Com o tema “A cobertura da Vaza-Jato e suas consequências”, a atividade – que compõe a programação dos 40 anos do curso de Jornalismo da UFSC – reuniu cerca de 350 pessoas, segundo a organização. Com o Auditório da Reitoria cheio, quem não conseguiu entrar, pôde acompanhar o debate por um telão instalado no hall. De jovens universitários a senhores de cabeleiras brancas, a variedade do público do evento, aberto à comunidade, foi compatível à polêmica em torno do tema tratado por Demori: a série de reportagens investigativas do The Intercept Brasil (TIB) acerca da Operação Lava-Jato.

A “Vaza-Jato” analisa um enorme banco de dados recebido pela equipe do TIB em que constam conversas do atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, com os procuradores do Ministério Público durante o andamento da operação. Na época, o juiz de primeira instância do Paraná era o responsável pelos principais casos da Lava-Jato em Curitiba, como o suposto envolvimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um esquema de desvio de dinheiro. Segundo as reportagens, o ex-juiz, além de realizar o julgamento, participava ativamente da elaboração de estratégias para acusação do ex-presidente.

A Operação Lava-Jato tem sido, desde 2014, uma das maiores investigações contra a corrupção no Brasil. Com base na apuração de transações financeiras e delações premiadas de envolvidos nos casos, a Lava-Jato investigou e prendeu uma série de personagens importantes entre empresários, ex-executivos e membros da elite política, incluindo o ex-presidente. A operação se tornou um símbolo da luta contra a corrupção, com uma extensa cobertura midiática, focada em influentes agentes políticos. 

Para a mídia tradicional, como menciona Demori, a cobertura se tornou um produto conveniente dentro da crise econômica do jornalismo. As redações precárias e a forte atuação do Ministério Público Federal (MPF) criou um sistema de “notícia grátis”, afirma o jornalista. “A Lava-Jato dá notícia toda semana, uma audiência colossal por tratar de grandes personagens públicos”, e assim os veículos não precisavam “gastar dinheiro com investigação, mandar repórteres para os lugares, ouvir um monte de fontes, levantar documentação, gastar dinheiro com viagens e cartórios”.

Debate com o público

Público presente no auditório e no hall da Reitoria

Desde o dia 9 de junho, o site do TIB publica as reportagens “explosivas” sobre os diálogos entre Sérgio Moro e os procuradores da Lava-Jato, que inflaram o debate público sobre os métodos éticos e jurídicos que conduziram a operação. Como esperado de um público de jornalistas, muitas perguntas foram pontuais acerca da obtenção e autenticidade do material, assim como a identidade da fonte, parcerias com outros veículos e outros pontos centrais da apuração jornalística. Resumimos os principais deles e as respostas de Demori nos tópicos a seguir.

Sobre o anonimato da fonte: como uma prática dentro do jornalismo, manter a fonte anônima é um direito dela e um dever do jornalista. A política editorial do TIB é a de usar, o máximo possível, a fonte em on, ou seja, de maneira declarada. Quando isso não puder acontecer, o jornalista que assina a matéria precisa explicar os motivos, como perseguição política, por exemplo. 

Sobre a autenticidade do material: vários testes de checabilidade foram feitos pela equipe do TIB, bem como dos parceiros que têm acesso ao material e estão apurando em conjunto. Foram cruzadas conversas privadas entre jornalistas e procuradores, analisando o diálogo nos celulares pessoais dos jornalistas e a conversa no arquivo do TIB. As datas, os erros gramaticais e os fatos coincidiram em todas as vezes. 

Sobre as publicações em outros veículos: Demori explica que a decisão em compartilhar e trabalhar com outros veículos surgiu, principalmente, do desejo de atingir um maior número de pessoas e diversificar o público. A participação de outros veículos permite, também, que o banco de dados seja analisado por diversos olhares, inclusive por jornalistas já familiarizados com o tema. “Frases que não significam muito pra gente (do TIB), pode significar alguma coisa muito maior para alguém que já cobre Lava-Jato há um tempo”. Compartilhar também funciona como uma forma de autenticação das informações obtidas, com a apuração de outros veículos. Sobre as matérias produzidas, Demori informa que os veículos têm total acesso aos documentos, mas as reportagens precisam ser co-produzidas por algum dos jornalistas do TIB.

Sobre publicar sem “ouvir o outro lado”: a principal preocupação da equipe foi de sofrer censura prévia. Como há precedentes no Brasil em casos como esse e é mais comum do que se pensa, os jornalistas decidiram correr o risco das críticas e publicar três reportagens. “A gente não podia permitir que o interesse público fosse solapado pelo interesse privado dessas pessoas”.  

Sobre publicar aos poucos: não há tempo de investigação para cobrir todo o material enquanto possíveis irregularidades possam estar sendo cometidas e pessoas estão presas sem um julgamento imparcial. A função como jornalista é divulgar o mais breve possível e com responsabilidade. “Nosso jornalismo precisa ter impacto público, é pra isso que a gente faz. Não estamos ali pra contar historinha”. 

Sobre os impactos esperados com a Vaza-Jato: a expectativa com o trabalho de investigação é que, à luz dessas novas informações, os métodos de trabalho da Operação Lava-Jato sejam revistos e possíveis injustiças sejam corrigidas. É também uma maneira das próximas operações aprenderem com as falhas e não cometerem ilegalidades.  

Ao ser questionado sobre o recente episódio em que foi grampeado enquanto participava do 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em São Paulo, Demori foi categórico ao afirmar que não dará legitimidade para algo que não existe. “Uma conversa absolutamente banal, no meio de (um trabalho de) edição, de uma reportagem que nem tinha sido publicada.” O jornalista paranaense que gravou a conversa de parte da equipe do TIB afirma que “a gravação comprova que os diálogos sobre Moro e a Lava-Jato foram adulterados”. Outra questão levantada foi sobre as possíveis tentativas de censura contra a redação do TIB. Demori respondeu alertando o público, que era composto majoritariamente de pessoas envolvidas com o jornalismo: “a gente não pode deixar isso acontecer com o The Intercept agora. Quem tem site de direita, esquerda, não interessa. O governo vai mudar, outros ventos vão soprar, e se a gente permitir isso agora, daqui a quatro, cinco ou seis anos isso vai bater na porta de vocês que tão aqui assistindo. Isso é um problema de todos nós”.

Sobre dar entrevistas a diversos veículos de mídia e palestrar em espaços como a universidade, Leandro acha importante para que as narrativas acusatórias, como a do próprio ministro Sérgio Moro que diz que o TIB é “associado a hackers criminosos”, não ganhem força. “Eu gosto de falar para estudante mais do que pra qualquer outra plateia. Só 10% dos jovens confiam muito na imprensa e eu acho isso péssimo, quero que o acordo seja refeito e ele começa onde tem gente interessada em jornalismo”, contou para a Agecom, no final do evento.

Erick Souza e Karina Ferreira/Estagiários de Jornalismo/Agecom/UFSC

Fotos: Jair Quint/Agecom/UFSC

 

 

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