‘Em momento de ameaças à cultura, vencer em Cannes é significativo ao cinema brasileiro’

31/05/2019 18:05

Cartaz do filme A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Com previsão de lançamento em novembro, A vida invisível de Eurídice Gusmão é o primeiro filme brasileiro a vencer a premiação principal da mostra “Um certo olhar” (Un certain regard), principal festival paralelo de cinema de Cannes, voltado a filmes com linguagem experimental. A premiação ocorreu na última sexta-feira, 24 de maio, e conta com Nina Kopko, formada em Cinema na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), como diretora assistente.

Com elenco de reconhecimento internacional – com nomes como Fernanda Montenegro, Carol Duarte, Júlia Stockler, Gregório Duvier e Nikolas Antunes – a obra é uma adaptação do livro homônimo de Martha Batalha e narra a história de duas irmãs cariocas que, nos anos 1950, veem seus sonhos fenecerem ante a estrutura patriarcal da sociedade da época.

“É um filme com uma estrutura bem clássica, com início, meio e fim e conta a história de Eurídice, uma mulher impossibilitada de viver seus sonhos, de ser quem gostaria ser para além do papel de mãe, esposa e dona de casa. Guida, a outra protagonista, é uma mãe solo, abandonada pela família – e o Brasil ainda é um dos países com o maior número de crianças sem o pai na certidão de nascimento. Ainda que tenhamos avanços notáveis na independência das mulheres, a maior parcela de nós segue destituída de seus desejos e aspirações, pela cultura patriarcal e pelo capitalismo. O filme pode remeter às vidas das nossas avós, das nossas mães, mas não deixa de ser um retrato atual sobre a invisibilidade da maior parte das mulheres desse país”, afirma Nina.

‘Premiação em Cannes é reconhecimento à alta qualidade do cinema brasileiro’

A primeira conquista para o cinema brasileiro na principal mostra paralela do Festival de Cannes, onde concorrem ao prêmio principal 18 filmes, é de importância ímpar. Segundo Nina, “ganhar esse prêmio é um reconhecimento muito importante, não só para a carreira do filme, mas para o cinema nacional. Somados a essa nossa conquista, o prêmio do júri ao [filme] “Bacurau” [vencedor do prêmio do júri, em Cannes, no dia 29], e a presença de uma diretora estreante na Quinzena dos Realizadores (Alice Furtado, diretora de “Sem Seu Sangue”), traz um holofote para a produção de cinema no país, que é prolífera, consistente e inventiva. Nesse momento de sequentes ameaças à cultura do país, jogar essa luz ao nosso cinema dentro do maior festival de cinema do mundo é muito significativo e relevante”.

Cena do filme premiado. Foto: Bruno Machado

A diretora assistente da produção destaca a alta qualidade do cinema nacional, com uma produção contemporânea vasta, diversa e inventiva e ainda dá relevo aos impactos que a conquista podem gerar quando houver o lançamento do filme: “ganhar o louro do prêmio de Cannes impacta muito na procura do filme, no número de países que o buscam para exibi-lo. O mercado de cinema de arte é bastante consistente e este prêmio coloca o filme no centro das atenções desse cenário. Mas, além disso, A Vida […] é um filme bastante narrativo, é um melodrama tropical, como gostamos de defini-lo. Tem a história contada numa estrutura bem clássica e que emociona. Eu acredito bastante no potencial dele dentro das salas de cinema comerciais, tanto aqui quanto fora, e também nos serviços de streaming”.

Os recentes reconhecimentos coroam o prolífico e diverso cinema brasileiro contemporâneo, mesmo em momento de incertezas para a produção cultural por essas terras. Nina Kopko, sem fugir às dificuldades sentidas, aponta ao quão incrível é fazer cinema no país: “A produção contemporânea é enorme, diversa, inventiva e de alta qualidade. Fazemos filmes para os mais diversos públicos, entretemos, experimentamos linguagens, gêneros, refletimos a sociedade em que vivemos para os próprios brasileiros e para o mundo. Somos hoje uma indústria com um número maior de trabalhadores do que o turismo, por exemplo. Com as grandes empresas de streaming estabelecendo-se no Brasil, também abrimos mais portas de produções a serem realizadas aqui. Ainda assim, mesmo com essa produção consistente e mundialmente reconhecida, mesmo com essa indústria de larga movimentação econômica, nós estamos ameaçados. Mas fazer cinema no Brasil é incrível e eu espero que continue assim. Há procura, há mercado, há excelentes profissionais e grandes histórias sendo contadas”.

Adaptação de A vida invisível de Eurídice Gusmão ao cinema

Cena do filme A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Foto Bruno Machado

Antes mesmo de seu lançamento, em 2016, o livro de Martha Batalha começou a ser adaptado para o cinema. Em 2015, Nina era coordenadora de desenvolvimento de projetos em uma produtora brasileira de cinema, quando recebeu o texto de Martha em mãos: “Eu recebi o livro ainda antes dele ser lançado comercialmente. Li em dois dias. Fiquei fascinada pela trama e pelas personagens. Sugeri ao produtor Rodrigo Teixeira a aquisição dos direitos de adaptação. Conversamos sobre transformar a história num melodrama, apresentar ao Karim Aïnouz e chamar o roteirista Murilo Hauser. Depois saí da produtora, pois queria me aventurar em novas experiências e áreas, mas quando o roteiro começou a engrenar fui convidada pelo diretor do filme, o Karim, e pelo produtor para fazer parte do time de desenvolvimento. Comecei a estudar processos de direção de atores e o Karim me chamou para fazer a preparação de elenco com ele e ser diretora assistente. Acompanhei então o processo desde a primeira ideia de adaptação até o último corte da montagem”.

“Como diretora assistente, uma função pouco usual no cinema brasileiro, eu ainda acompanhei todo o processo de desenvolvimento do projeto, todas as versões do roteiro, fiz diversas pesquisas para o filme, e depois segui da pré até a pós-produção. Acompanhei e compartilhei com Karim a maior parte das decisões artísticas do filme. Tive um foco especial no trabalho com o elenco, fiz junto do Karim todos os testes e depois a preparação dos atores e personagens”, completa Nina.

O prazer de contar histórias

Com trabalhos em diversas áreas da produção de filmes, Nina reside em São Paulo desde a conclusão de sua graduação. Na maior cidade da América Latina, ela direciona sua carreira para trabalhar como diretora e registra a importância de sua formação na primeira turma do curso de Cinema UFSC para sua atuação profissional: “Eu já fazia teatro na adolescência em minha cidade, Porto União (SC), e cheguei a cursar um semestre de Matemática na Universidade Estadual do Paraná. Quando chegou a época do vestibular, eu estava perdida sobre o que fazer. Minhas escolhas iam das Artes Cênicas à Oceanografia. Eu amava ver filmes, sempre fui fascinada pela ideia de contar histórias, mas fazer cinema era algo distante. Até que vi a notícia que abriria o curso da UFSC. E foi assim que ingressei na primeira turma do curso e só ali a paixão se concretizou. O curso da UFSC, na época, era mais voltado ao roteiro, crítica e análise fílmica, pois como era um curso recém-nascido não tínhamos equipamentos e professores para um curso mais técnico. Porém, para mim, essa foi a melhor formação possível. Não deixávamos de fazer nossos curtas por conta, e ganhamos assim uma bagagem muito específica de teoria e de roteiro. É um diferencial até hoje essa formação na minha carreira”.

Nina Kopko e Karim Aïnouz. Foto: divulgação

Apaixonada por contar histórias, Nina sintetiza sua trajetória desde a conclusão da graduação até os próximos passos: “Quando eu me formei vim para São Paulo, sem nenhuma garantia de trabalho. Escrevi para a Cristina Amaral, montadora que sou fã e que tinha conhecido durante uma Semana de Cinema da UFSC, e ela me contratou como assistente. De lá, fui de trabalho a trabalho experimentando novas áreas, aprendendo muito em cada processo. Tive a sorte de trabalhar com realizadores que admiro muito e bastante generosos, foram como uma segunda formação para mim, como Cristina Amaral, Andrea Tonacci, Marco Dutra, René Guerra e Karim Aïnouz”.

“Nunca quis me especializar em uma área, sempre embarquei nos trabalhos pelo projeto e não pela função — o que também é parte da contingência: quanto mais versátil eu posso ser, maior a garantia de ter trabalhos e pagar o aluguel. Trabalhei bastante tempo como montadora e assistente de direção, e hoje sou roteirista, preparadora de elenco, diretora assistente, tutora de projetos e me preparo agora para dirigir meus primeiros projetos. No momento, tenho dois projetos de longas e estou querendo rodar um curta esse ano. Não há romantismo: é bastante suor, poucas horas de lazer e um baita equilibrismo viver exclusivamente dos trabalhos com cinema e televisão. Mas, sem dúvidas, é também prazeroso demais poder viver para contar histórias”, resume a futura diretora.

Nina aproveita para dar dicas aos estudantes e aos interessados em se graduar em Cinema: “Para quem não tem nenhum contato com a área eu sugiro muito que busquem ingressar numa graduação. Claro que você pode aprender cinema na prática e de forma autodidata, mas estar dentro de um curso superior vai te poupar muitos anos, sistematizar o conhecimento que terá acesso. E, além disso, a experiência de troca e de realizações de curtas com uma turma de Cinema é dos processos mais ricos na formação de quase todo mundo com quem trabalho. Para quem já está no curso: vejam o máximo de filmes que puderem, pelo menos um por dia. Quando sua vida profissional começar vai faltar tempo para isso, e ter referências é das coisas mais importantes em qualquer área ou projeto. E também não vivam sob as sombras da autocrítica, aproveitem o tempo na Universidade para experimentar, filmem o máximo que puderem, do jeito que der, usem as restrições de produção como dispositivos criativos”.

Assista abaixo ao trailer do filme:

 

Gabriel Martins/Agecom/UFSC

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