Grupo de Estudos Nelson Mandela debate ações afirmativas e afroempreendedorismo

06/12/2018 08:31

kim Isac fala sobre afroempreendedorismo. Foto: Alan Christian/Agecom/UFSC

“A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”, defendia Nelson Mandela, líder da luta contra o apartheid. Cinco anos após sua morte, esse e outros de seus ideais continuam sendo difundidos em diferentes lugares, inclusive na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), através do Grupo de Estudos Nelson Mandela (GEN Mandela), criado por estudantes negros do curso de Direito. Em comemoração ao Mês da Consciência Negra, ocorrido em novembro, o grupo promoveu na quarta-feira, dia 28 de novembro, as palestras ‘Políticas de Ações Afirmativas’ e ‘Afroempreendedorismo’, no auditório do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ).

A atividade iniciou às 19h, com a presença de Emiko Liz Pessoa Ferreira, professora de Direito da Faculdade Anhanguera (São José/SC) que, através do tema “Políticas de Ações Afirmativas”, apresentou dados sobre os primeiros 8 anos das cotas para negros nas universidades, reunidos durante sua dissertação de mestrado. Emiko iniciou sua fala explicando a origem das políticas de ações afirmativas no Brasil. “As ações afirmativas chegaram ao Brasil como condenação da ONU, pelo crime do nosso país contra a humanidade, por conta da escravidão, da mesma forma como a Alemanha foi condenada por conta do holocausto. A diferença é que a Alemanha é um país rico e teve dinheiro para indenizar as vítimas. Já o Brasil, que não tinha recursos para fazer o mesmo, criou essas ações como forma de indenização”. Mas as políticas de ações afirmativas vão muito além das cotas raciais, conforme aponta a palestrante. Elas também incluem o reconhecimento profissional; a Lei que obriga o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas; a representação em cargos do poder (que está longe de ser significativa); e a reparação, onde estão inseridas as cotas.

Em seguida Emiko explicou os objetivos de sua pesquisa, como entender a desigualdade na escolarização da população negra, estudar as ações afirmativas na graduação e pós-graduação e avaliar a trajetória dos cotistas negros na pós-graduação. O estudo começou com um questionário online, no qual pessoas de todo o Brasil poderiam participar. O formulário contou com 182 respostas e 12 dessas pessoas (todas das pós-graduação) foram convidadas para entrevistas, a fim de entender o perfil dos negros que se formaram pelo sistema de cotas. Dentre os formados, estavam profissionais das ciências biológicas, da saúde, de humanas e de exatas. Dos 12 entrevistados, 66% se formaram em universidades públicas e 41% contaram com algum tipo de bolsa auxílio durante o período de formação. A pesquisadora também trouxe depoimentos dos entrevistados, que destacaram a importância dessas políticas no ensino superior e revelaram casos de racismo, sofridos dentro de sala de aula.  Por fim, foi apontado que muitos utilizaram as bolsas da pós-graduação como forma de sustento, diante das dificuldades que encontraram para ingressar no mercado de trabalho após a graduação. Quanto aos programas de pós-graduação em universidades públicas, foram encontradas políticas de cotas em apenas quatro seleções, através de dados coletados em 2017.

A segunda parte do evento foi ministrado por Kim Isac, conselheiro da Rede Brasil Afroempreendedor de Santa Catarina (ReAfro/SC), sobre o tema “Afroempreendedorismo”. Ex-avaliador do Ministério da Cultura e ex-diretor do Museu de Arte de Santa Catarina, Kim iniciou a fala trazendo relatos sobre suas experiências profissionais, envolvendo casos de racismo. “Quando eu entrei como diretor do Museu, em 2015, demorei para ser reconhecido. Tinha gente lá fazendo aposta de que eu não durava 15 dias no cargo”. Em seguida revelou as dificuldades de ser um empreendedor negro no estado. “Santa Catarina é terrível para o negro, pois há uma grande barreira, todos os depoimentos são os mesmos, especialmente aqui na Região Sul. Precisamos tentar dez vezes mais, seja em alternativas de negócio, linhas, etc. Nós temos pedidos de empréstimo três vezes mais negados”, revela.  Ainda segundo Kim, 51% dos empreendedores no Brasil são negros, mas ele logo trata de explicar esse número. “Quase metade deles emprega apenas um funcionário, tendo negócios que não são tão lucrativos”.

Próximo do encerramento, a apresentação de Kim também instigou o público presente a participar. Alguns ouvintes trouxeram depoimentos sobre os obstáculos de ter um próprio negócio em um país em que o preconceito está enraizado na cultura, especialmente quando se é mulher negra. “Em uma instituição de ensino que trabalhei, já tive aluna minha solicitando cancelamento da disciplina pelo fato de eu ser a professora, dizendo que eu não tinha nada para ensinar a ela”, relata Emiko, enquanto acompanhava a apresentação de Kim.

O GEN Mandela surgiu em 2015 e sua atuação é baseada nos princípios de irmandade, fraternidade e empoderamento, com o objetivo de fortalecer e inserir estudantes e profissionais negros em suas respectivas áreas. Amanda Gonzatti, caloura da graduação de Direito da UFSC, foi responsável por mediar as palestras e conta sua recente trajetória dentro da iniciativa. “Eu sempre tive vontade de fazer algo pelo movimento negro e principalmente pelas mulheres. Então quando meu colega de curso, Rafael Zulu, ficou sabendo do meu interesse, me convidou para participar do grupo”.  Amanda também revela que o objetivo é fazer um trabalho que vá além dos limites da universidade: “Queremos sair da UFSC e trabalhar em nível estadual, de maneira a ocupar espaços e lugares de fala e fazer projetos com todos os africanos aqui presentes, não só os afro-brasileiros, a fim de integrar também os estrangeiros negros para que eles se sintam bem recebidos”.

Alan Christian/Estagiário de Jornalismo na Agecom/UFSC