Projetos na UFSC valorizam conhecimento e cultura africana e afrodescendente

29/11/2018 10:24

De mãos dadas e olhos fechados, os participantes formam um círculo. Suas vozes ganham volume ao cantarem juntos os versos “se eu disser que eu sou mais um, cuidado não tropeçar / Se eu disser que eu sou teatro é pra cantar Axé e Euá”. O termo “teatro” foi improvisado por Toni Edson Costa Santos, ministrante da oficina Breve Passagem por Jogos de Escuta: Teatro de Rua e o Encontro com a Tradição Mandinga. O círculo estava organizado para que os integrantes pudessem exercitar a concentração e a percepção sensorial por meio de um jogo. A regra fundamental era passar adiante um aperto de mão – ao mesmo tempo, os participantes deveriam acompanhar a letra da música.

Esses aspectos foram desenvolvidos na oficina realizada nos dias 8 e 9 de agosto, na sala 210 do Bloco D do Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina (CCE/UFSC). O professor de Encenação e Teatro de Rua da Escola Técnica da Universidade Federal de Alagoas (ETA/UFAL), Toni Edson, foi convidado para ministrar essa e outras oficinas e palestras na terceira edição da Formação do Fórum Permanente de Estudos sobre as Artes Negras da Cena, História e Cultura Africana e Afro-Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina (FANCA/UFSC). Junto ao Coletivo Kurima: estudantes negros e negras da UFSC, ao Kurima Bantu Mulheres e ao Projeto 10 Anos do Curso de Artes Cênicas da UFSC, o FANCA promoveu uma ampla programação entre os dias 7 e 10 de novembro. O evento teve como temática central Diálogos com Tradições Orais de Matriz Africana.

Roberta Lira, uma das fundadoras do Coletivo Kurima e do Coletivo Kurima Bantu Mulheres, explica que as ações se dão por conta da ausência da epistemologia africana e afrodescendente na Universidade. “Temos promovido eventos e locais negros, para que a gente possa se ver nesse espaço e ser menos violentado por um espaço que não tem os conhecimentos que nós e que as outras pessoas precisam ter também.”

Conhecer as raízes

“Tem um ditado burkinabe que diz que se você sabe de onde você veio, você consegue chegar a outro lugar. Se você não sabe de onde você veio, é melhor você voltar, é melhor você se reanalisar”, coloca Toni Edson. Por esse motivo, ele trabalha com temáticas relacionadas ao conhecimento da ancestralidade, por meio da revalorização da tradição oral. Contador de histórias há 13 anos, acredita que o Brasil tem uma potência oral muito grande que não é tão estimada. Se a tradição oral fosse mais reconhecida, Toni supõe que haveria um fortalecimento da identidade nacional brasileira.

O grande desafio da revalorização é recuperar a força da palavra. “Com essa questão da competição com os celulares e várias mídias, as pessoas param para escutar muito pouco”. Assim, procurando retomar a força da palavra, o professor trabalhou com teatro de rua e alguns exercícios aliados à cultura mandinga e à contação de histórias. A cultura mandinga é o conjunto de hábitos, tradições e conhecimentos de um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental, os mandingas, que ocupam países como Costa do Marfim, Senegal e Burkina Faso. Conhecer essa cultura é, segundo Toni, “um aprendizado que leva toda uma vida”. Estudando sobre famílias de tradição djeli (pessoas comprometidas a preservar e transmitir conhecimentos de seu povo), destaca um contador de histórias da África Ocidental que guardava acontecimentos de quase 40 gerações anteriores à dele. Toni estudou essa tradição para tentar aplicá-la às rodas de história em Maceió, no estado de Alagoas.

A propagação da epistemologia africana e afrodescendente é um dos objetivos do FANCA. “É um projeto que nasce de uma demanda dos estudantes, vem da discussão sobre a Lei 10.639 que torna obrigatória a inserção de conteúdos da história africana e afro-brasileira nas instituições de ensino”, diz a coordenadora do curso de Artes Cênicas da UFSC, Débora Zamarioli. Para ampliar o acesso a essa epistemologia, a coordenadora conta que uma das propostas é a inserção de uma disciplina obrigatória de artes negras da cena e relações étnico-raciais no curso.

Para Laura Alves, estudante da segunda fase do curso de Artes Cênicas da UFSC, enquanto a implementação da disciplina obrigatória não acontece, o FANCA trata de temáticas pouco discutidas no espaço universitário.  “O tema do FANCA é justamente sobre algo que a gente não vê tanto, então é uma oportunidade importante para a gente conhecer as artes de matriz africana, o que vai enriquecer bastante a nossa formação”.

Mais informações sobre as atividades e os projetos podem ser conferidas na página do Facebook do curso de Artes Cênicas ou na página do Coletivo Kurima.

Maria Clara Flores / Estagiária de Jornalismo da Agecom / UFSC

Fotos: Henrique Almeida / Agecom / UFSC