Pesquisadores do HU e UFSC investigam circuitos cerebrais envolvidos na sensação de medo e doenças psiquiátricas

21/11/2018 09:14

Um estudo inédito, desenvolvido por professores pesquisadores que atuam no Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago, vinculado à rede Ebserh, e no Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina, abriu as portas da ciência para entender os mecanismos sinápticos envolvidos com a manifestação de medo. Os resultados permitem compreender sintomas relacionados a doenças mentais que envolvem estes mecanismos, como estresse pós-traumático, depressão, síndrome do pânico e ansiedade.

A pesquisa, coordenada pelo professor e médico neurofisiologista clínico especializado em cirurgia de epilepsia Roger Walz, recebeu neste ano o prêmio Paulo Niemayer de Estudos em Cirurgia de Epilepsia, conferido no Congresso da Liga Brasileira de Epilepsia, e representa um marco na história da ciência catarinense, já que esta foi a primeira vez que uma equipe do Estado recebeu esta premiação. Além disso, a pesquisa completa foi publicada em uma das mais importantes revistas da área de psiquiatria a Molecular Psychiatry do grupo Nature.

Roger Walz explicou que o estudo foi feito em pacientes que sofriam de epilepsia de lobo temporal intratável com medicamentos e foram submetidos a neurocirurgia. Como o procedimento consiste na remoção de tecidos cerebrais, foi possível estudar este material retirado, o que levou a equipe a entender melhor como o cérebro humano funciona ao desencadear a “sensação de medo”, que é um dos sintomas narrados por 15% dos pacientes logo no início da crise epiléptica originada na região temporal, internamente no crânio logo à frente da orelha.

O professor explicou que, quando uma pessoa tem uma crise epiléptica, na fase inicial, ela pode perceber sintomas e reações comandadas pelo cérebro, como a contratura muscular em algumas partes do corpo, sensações visuais, entre outras. Estas sensações ocorrem pela ativação elétrica anormal de áreas do cérebro durante a crise epiléptica e que estão envolvidas funções específicas.

Uma parte destes pacientes relata que vive uma experiência intensa de medo, que dura entre 10 e 15 segundos, e em seguida perde a consciência. A sensação descrita pelo paciente é semelhante à que sentimos quando tomamos um susto, e ocorre pela ativação de regiões do cérebro que compõe o chamado “circuito de defesa”.

Como o tecido anormal que causa a crise contém estruturas conectadas aos circuitos de defesa que detectam o medo, a cirurgia permite estas sejam estudadas através de técnicas de neuroquímica. Os estudos da equipe catarinense apontaram que a parte do tecido cerebral retirada dos pacientes com epilepsia de lobo temporal e que tinham experiência repetitiva de medo apresentava modificações neuroquímicas nas sinapses que não foram vistas nos pacientes que tinham epilepsia de lobo temporal, mas não apresentavam os sintomas de medo durante a crise.

Com isso, foi aberto o caminho para estudar esta experiência em cérebros de humanos analisando diretamente o tecido cerebral. Esta possibilidade traz a perspectiva de se poder estudar estas modificações neuroquímicas e sua associação com outras manifestações psiquiátricas dos pacientes. “Esta é a etapa que estamos realizando agora”, diz Roger Walz.

Para se ter uma ideia do alcance desta pesquisa, até então só era possível realizar estudos com a técnica utilizada de fosforilação de proteínas no tecido cerebral envolvido na produção da sensação de medo em animais, pois é preciso retirar estudar amostras de tecido cerebral imediatamente após a retirada da amostra (menos de 30 segundos após a coleta), o que não é possível tecnicamente através de estudos de fosforilação de proteínas sinápticas em cérebros de cadáveres devido às várias horas até que se consiga retirar amostras para estudo de doadores que faleceram.

“No caso da epilepsia, estruturas do cérebro relacionadas com a manifestação do medo serão retiradas. Então, pela primeira vez se pode estudar em humanos, tecido de regiões envolvidas com a manifestação de medo, através de técnicas bastante sensíveis e específicas”, resumiu o professor.
O estudo, intitulado “Níveis da subunidade GluA1 na amígdala e seu estado de fosforilação na serina 845 no hipocampo anterior são biomarcadores de medo ictal mas não de ansiedade” foi realizado por uma equipe multidisciplinar, incluindo o neurocirurgião Marcelo Linhares, professor do Departamento de Cirurgia do Hospital Universitário, a professora Kátia Lin, chefe do serviço de Neurologia do HU, o professor Rodrigo Leal (Departamento de Bioquímica, Centro de Ciências Biológicas), sob a coordenação do professor Roger Walz, além de alunos de cursos de pós-graduação em ciências médicas e neurociências da UFSC.

O Professor Rodrigo Leal, do CCB, especializado nas técnicas de neuroquímica utilizadas no projeto, salienta que este foi o primeiro estudo publicado na literatura científica mundial avaliando o estado fosforilação de proteínas sinápticas específicas em estruturas do “circuito de defesa e sobrevivência” e relacionando-as à sensação de medo em seres humanos.

Roger Walz acrescenta que foram dez anos de trabalho desde a seleção dos pacientes, implantação do centro de cirurgia de epilepsia e realização das cirurgias até a publicação dos resultados, e que as dificuldades só foram superadas graças ao forte engajamento da equipe multidisciplinar composta de neurologistas, neurofisiologistas, neurocirurgião, psiquiatra, neuropsicóloga e equipe de enfermagem envolvida no atendimento de alta complexidade dos pacientes da rede SUS, em parceria com pesquisadores da área de neuroquímica básica. Ao longo deste período também foram formados vários médicos especialistas, mestres, doutores, engajados em outros projetos vinculados à neurociência.

Além de promover a melhora significativa e imediata da qualidade de vida dos pacientes através da cirurgia de epilepsia, as pesquisas auxiliam na compreensão de mecanismos de neuroplasticidade envolvidos com as reações de estresse e medo, intimamente ligadas a várias doenças psiquiátricas muito prevalentes e incapacitantes como o estresse pós-traumático, síndrome do pânico, transtornos de ansiedade e depressão.

O projeto foi financiado pela FAPESC/CNPq através dos editais para Projetos de Pesquisa para o SUS (PPSUS) e Programa de Núcleos de Excelência (PRONEX) e os resultados foram publicados no mês de junho deste ano na revista Molecular Psychiatry do grupo Nature.

De 2008 a 2015, as equipes do Hospital Celso Ramos e do Hospital Universitário da UFSC realizaram 94 cirurgias em pacientes com epilepsia de refratária ao tratamento farmacológico, sendo 38 no HU e 56 no Celso Ramos. Segundo Roger Walz, os pacientes candidatos para a cirurgia são aqueles que não controlam as crises epilépticas com tratamentos medicamentosos.

Os pacientes apresentavam em média oito crises epilépticas por mês, e a cirurgia resultou em um controle total das crises em 75% deles. Outros 15% apresentam uma redução significativa das crises, passando a apresentar no máximo duas crises epilépticas por ano, e em 10% o procedimento não é efetivo. O risco de óbito é inferior a 1 para cada 800 cirurgias e complicações irreversíveis podem ocorrer em menos de 1% dos casos. Na série acompanhada pela equipe não houve óbitos ou sequelas significativas, e o grupo como um todo refere uma melhora significativa da qualidade de vida medida através de questionários validados cientificamente conforme outro artigo publicado pela equipe na revista Epilepsia, da “International Leage Agaist Epilepsy (ILAE).

Segundo Roger Walz, estima-se que 1% da população sofra de algum tipo de epilepsia, o que resulta em cerca de 60 mil indivíduos em Santa Catarina. Destes, em torno 12 mil a 18 mil não conseguem controle adequado das crises epilépticas com tratamento através de medicamentos, sendo candidatos a avaliar a possibilidade de realizar a cirurgia. O estudo analisou o material retirado de 31 pacientes e garantiu novas perspectivas para entender não somente os casos de epilepsia, mas o tratamento de doenças psiquiátricas comuns a grande parte da população.