Resistência é fator primordial para a manutenção dos museus no Brasil

27/09/2018 10:27

Não por acaso resistência foi a palavra de ordem na abertura do ciclo de debates “Museu em Curso”, promovido pelo Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE) e pelo curso de Graduação em Museologia da UFSC, e realizada no Auditório do Centro Socioeconômico (CSE). Se já batizava o nome da edição do evento, “Museus e Resistência”, ganhou mais força após o incêndio no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro deste ano.

Diretora do MArquE e professora do curso de Museologia, Luciana Cardoso destacou que realizar este evento, em momento como a atual, é simbólico. Na semana seguinte ao incêndio no Rio de Janeiro, o MarquE lançou carta aberta e suspendeu a visitação.  “É uma prova de que nós resistimos, que a Universidade resiste e a museologia resiste. A consolidação deste projeto se dá porque vocês (referindo-se aos estudantes presentes), resistem. O movimento de vocês é o combustível da nossa luta”.

O chefe de gabinete da Reitoria da UFSC, Áureo Mafra de Moraes, representou o reitor Ubaldo Balthazar no evento e lembrou que a instituição tem acompanhado a situação que afeta os museus em todo o país, em especial o MArquE. “Não falta disponibilidade para ouvir, mas temos dificuldades, inclusive financeiras, para resolver tudo”. Ele saudou os movimentos que a equipe do MArquE realizou ao longo dos últimos anos para buscar formas de financiamentos. “Nós temos sofrido restrições de ordem orçamentária, política e administrativa; então, cada evento deve ser um foco de resistência: não podemos nos reduzir a Universidade a uma instância burocrática”.

A professora de Museologia Renata Padilha, da Coordenadoria Especial de Museologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), ressaltou a mobilização muito forte contra o sucateamento da educação e da cultura. “Resistir é a palavra de ordem museal e este evento consagra isto”.

Abertura

A palestrante Marília Xavier Cury apresentou o processo colaborativo considerando o protagonismo indígena que desenvolve no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).  Antes, ela também lembrou a situação do Museu Nacional, ao homenagear o esforço dos colegas que trabalham lá. “Com 200 anos de história indígena e 40 mil objetos queimados, caberia ao Museu Nacional reinventar a relação entre etnologia e os indígenas”.

Uma das formas desta recriação é o trabalho que desenvolve no MAE-USP desde 2010, com a requalificação das coleções dos povos Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena. Para isto ocorrer, ela conta que foram desenvolvidos metodologias de trabalho com a participação direta dos indígenas, que visitaram o MAE-USP. “Quando a gente fala em descolonizar o processo, não é só trabalhar com eles, mas entender seu protagonismo”, afirma Marília. “Eles querem falar por si, criar a sua própria narrativa”, finaliza.

Caetano Machado / Jornalista na Agecom / UFSC

*Fotos: Ítalo Padilha / Agecom / UFSC