UFSC debate desafios e estratégias para a internacionalização

29/08/2018 12:48

Workshop organizado em parceria com a Capes e Comissão Fulbright debateu internacionalização na UFSC na última sexta-feira, 24 de agosto. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

O especialista da Comissão para o Intercâmbio Educacional entre os Estados Unidos e Brasil (Fulbright), James Butterfield, esteve na UFSC nos dias 22, 23 e 24 de agosto para conhecer as estratégias de internacionalização e apresentar os resultados de suas observações à comunidade universitária. Em formato participativo, a reunião da última sexta-feira, dia 24, foi palco para que Butterfield pudesse fazer sugestões e apontamentos de estratégias que poderão favorecer a UFSC em seu processo de inserção internacional.

Butterfield é professor do departamento de Ciência Política da Western Michigan University e veio à Universidade a convite da Comissão Fulbright e da Capes. Nas últimas semanas, o professor, que é especialista na área de internacionalização, visitou instituições em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e em Londrina e Curitiba, no Paraná. O que observou, ressalta, foi que muitas instituições têm uma visão estreita do que significa internacionalização.

“A maioria pensa na mobilidade estudantil e de professores e não em internacionalização de uma forma abrangente. A UFSC é uma das poucas instituições que têm essa visão. Internacionalizar significa estimular a colaboração entre docentes de diferentes países, oferecer cursos de graduação e pós-graduação em língua estrangeira, além de pensar também nos alunos que não vão viajar. Como incluir esses alunos para que eles também tenham acesso a uma educação internacionalizada, que reflita o mundo atual?”, questionou.

Docentes e Técnicos-administrativos em Educação debatem internacionalização em workshop na UFSC. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

O especialista elogiou o Programa Institucional de Internacionalização (PRINT) da UFSC, recentemente aprovado pela Capes. “Esta é a primeira instituição que eu visitei, dentre 17 ou 18 universidades brasileiras, que tem um plano que fala sobre internacionalização de forma abrangente, o que é algo muito positivo. O plano de vocês é um bom começo, mas falta pensar estrategicamente”, alertou. “Instituições acadêmicas são muito conservadoras, difíceis de mudar, e os professores são os mais resistentes. Então sejam realistas, façam um plano que não é perfeito, mas bom o suficiente”, recomendou.

Estavam presentes na reunião aberta na última sexta-feira a pró-reitora de Pós-Graduação, Cristiane Derani, o professor Paulo Emílio Lovato, responsável por organizar a visita de Butterfield, já que é membro do Grupo Assessor da Diretoria de Relações Internacionais da Capes, além de coordenadores e professores de programas de pós-graduação da UFSC. 

A pró-reitora de Pós-Graduação, em reunião com o colegiado da Administração Central da UFSC ressaltou a importância da visita do especialista. “Ele atestou o que já sabíamos, que a UFSC é uma das universidades mais internacionalizadas do país”, salientou. A aprovação do PRINT da UFSC é significativa: dentre 44 instituições que se inscreveram, apenas 25 foram selecionadas. Com a aprovação, Derani salienta, a UFSC ganha “um foco para o desenvolvimento das pesquisas, que é a inserção e manutenção da UFSC no ambiente internacional”.

Desafios e Possibilidades

James Butterfield é professor do departamento de Ciência Política da Western Michigan University e veio à Universidade a convite da Comissão Fulbright e da Capes. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

James Butterfield iniciou a reunião da última sexta-feira perguntando aos presentes qual era a principal dificuldade encontrada pelas instituições de ensino frente à internacionalização. Dentre as questões, foram levantados temas como a mudança de cultura institucional, planejamento estratégico, auxílio a professores e pesquisadores, como lidar com barreiras de idiomas, atrair pesquisadores internacionais, entre outros.

“Um dos grandes desafios é gerar interesse entre os docentes pela internacionalização. Sobre isso eu recomendo que você conversem entre vocês. Quem tem contatos, e já tem atuação internacional, ajude os professores que não têm a começar”, ressaltou. Nesse sentido, Butterfield sugeriu que cada programa ou departamento tenha algum tipo de incentivo para que os docentes invistam na internacionalização.

“Conversem entre vocês, criem fóruns onde vocês poderão falar, de forma coletiva, sobre a internacionalização da Universidade e o que cada um está desenvolvendo”, salientou. O professor norte-americano falou da experiência de sua universidade no processo de internacionalização e destacou ações simples e com baixo custo, que podem fomentar uma cultura internacional. “Na nossa experiência, estimulamos que os alunos formem grupos, associações, que os ajudem a se interessar em outras culturas. Como um pesquisador internacional isso não parece ser prioridade, mas como instituição, sim, faz a diferença”, destacou. “Seus alunos gostam de ouvir música pop da Coréia, pois que criem um clube, e eles vão se interessar pela Coréia, em estudar lá, conhecer essa cultura”, exemplificou.

A falta de recursos financeiros também foi abordada. Butterfield contou da experiência norte-americana de escassez de recursos públicos para o ensino superior e disse “não deixe que a frustração com a falta de recursos paralise suas ações, não pense em programas que beneficiam poucas pessoas, pensem em mudanças que gerem máximo impacto com recursos mínimos”. Um exemplo de atividade que não é dispendiosa e ajuda consideravelmente no processo de internacionalização é oferecer disciplinas para ajudar estudantes a escrever bons artigos científicos em inglês. “Muitos alunos da pós-graduação tem bom nível de proficiência em inglês, mas não é o suficiente para escrever bons artigos científicos. Disponibilizem esses cursos. Não é caro montar um curso presencial e a distância, e os alunos vão se interessar e vão participar”, afirmou.

O especialista da Comissão Fulbright também falou sobre as parcerias internacionais. Segundo ele, não é ruim que haja muitas parcerias entre professores instituições internacionais, mas o ideal é que essas colaborações sejam institucionalizadas. E ressaltou: parcerias inativas ou dormentes devem ser evitadas. “As boas parcerias são as transacionais e transformacionais. Transacionais são as mais comuns, porém têm escopo limitado, apenas com alguns projetos de pesquisa em conjunto. As melhores parcerias são as transformacionais, baseadas em objetivos estratégicos em comum, recursos combinados, criando uma uma plataforma institucional de longo prazo, para trabalho colaborativo e subprodutos em potencial. Fomentem esse tipo de relacionamento, pois são esses que poderão transformar seu departamento”.

Confira abaixo outras dicas de Butterfield para fomentar a cultura de internacionalização:

  • Ajude seus colegas que não são internacionalizados. Os motivos que levam pesquisadores a não buscar a internacionalização são dois: não sabem como, ou estão ocupados demais, falta tempo. Compartilhe sua história sobre como você conseguiu parcerias internacionais. Conte aos colegas e aos estudantes que às vezes é tão simples quanto enviar um e-mail para um pesquisador que você tem interesse. Estudantes de pós-graduação já devem estar fazendo isso. Avise um pesquisador que você se interessa pelo que ele estuda, tente marcar um encontro em algum evento evento acadêmico;
  • Quando for participar de algum evento acadêmico, lembre-se que apresentar sua pesquisa muitas vezes não é tão importante quanto os contatos que você pode fazer na hora do café;
  • Quando for participar de alguma conferência internacional, pergunte à Secretaria de Relações Internacionais (Sinter) se a UFSC tem alguma parceria naquele país, ou naquela região e vá visitar essa universidade, fazer contatos;
  • Receba bem um pesquisador internacional que vem visitar a sua instituição. Prepare guias para essas pessoas, seja um bom anfitrião;
  • Procure saber o que seus colegas estão desenvolvendo. Não saber o que acontece no próprio departamento ou na instituição é um problema comum no mundo inteiro. Quebre esse hábito;
  • Crie a cultura de internacionalização falando sempre sobre isso. Seja repetitivo, divulgue seus bons resultados. Fale com os estudantes de graduação e pós-graduação sobre os motivos que eles devem buscar uma educação internacional e como fazer isso acontecer;
  • Organize um comitê permanente do plano de internacionalização e promova encontros frequentes. Busque envolver outros setores da Universidade em um processo consultivo e colaborativo;
  • Planeje, pense em onde quer estar daqui a três ou cinco anos em seu processo de internacionalização, lembre-se que pode ser que você não esteja mais aqui para ver os resultados das mudanças que está implementando hoje. Mesmo assim, trabalhe no seu plano.

Atualmente, segundo informações da Sinter, a Universidade oferece 54 disciplinas em inglês, sendo 51 em nível de pós-graduação e três na graduação. Ampliar os números das disciplinas em língua estrangeira também na graduação é outro diferencial que a UFSC deve buscar para fortalecer sua internacionalização, ressaltou Butterfield.

“No nosso plano de internacionalização demos pouca ênfase para a graduação, mas vamos direcionar nossas atividades e essas contribuições do professor Butterfield nos farão pensar melhor sobre como estabelecer prioridades para a pós-graduação e como fazer isso repercutir na graduação”, pontuou o professor Lovato, organizador do evento.

 

 

Mais informações:
Documentos sobre internacionalização – site de Jim Butterfield

 

Mayra Cajueiro Warren / Jornalista da Agecom / UFSC

 

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