A Pessoa com Deficiência no foco do debate: inclusão no mercado de trabalho

15/06/2018 14:17

Vou te convidar a fazer um exercício. Largue tudo que está fazendo e observe as pessoas que estão ao seu redor. Como elas são? Morenas, ruivas, altas, baixas, pardas, negras, indígenas, jovens, idosas, com alguma deficiência ou necessidade? Algo mais? Observe e reflita: quantas dessas pessoas que frequentam a mesma sala de aula que você, o mesmo ambiente de trabalho, o círculo familiar possuem alguma deficiência?

Segundo o censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 45 milhões de Pessoas com Deficiência (PCDs). Ou seja, quase 24% da população é composta por alguém que possui algum tipo de deficiência. Mas onde estão essas pessoas? Para José Roberto Leal, presidente da Associação Florianopolitana de Deficientes Físicos (Aflodef), a falta de ações integradas de políticas públicas são fatores que obrigam os deficientes a “serem presidiários dentro de suas casas”.

José, mais conhecido como Zezinho, e o analista de Diversidade e Inclusão na empresa Resultados Digitais Vinicius Schmidt, participaram no dia 13 de junho da segunda rodada do projeto ‘Gestão da Diversidade’, atividade desenvolvida pelos estudantes da 5ª fase do curso de Administração da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Zezinho e Vinicius abordaram a ‘Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho’ e deram os seus depoimentos de superação e mostram que, por meio do trabalho, o PCD pode ter acesso à inclusão e à inserção social de fato. Com a supervisão da professora Helena Kuerten de Salles, a atividade visa debater em eventos abertos ou seminários internos três assuntos neste semestre: Gênero nas organizações, Deficiência Física e Raça. “São temas muitas vezes invisíveis, mas que fazem parte dos desafios dos futuros administradores. É preciso lidar com a diversidade para desconstruir barreiras e naturalizar a presença dos deficientes físicos, por exemplo”.

Aos 11 meses Zezinho teve paralisia infantil. Esse acontecimento que encerrou o movimento das pernas não foi limitador para que a sua família o colocasse sobre muletas e o ajudasse a ser inserido no mundo. “Meus pais foram importantes na minha inclusão. Por meio deles comecei a trabalhar como marceneiro em casa e no box onde hoje fica o Mercado Público, junto aos ofícios do meu pai. Fui ambulante, estudante, jornaleiro, dono de banca de revista e, a convite do governador, trabalhei no Banco do Estado de Santa Catarina (BESC) por anos, essa foi a minha alegria, a minha integração com a sociedade”, relata ele.

Aos 66 anos e pai de três filhos, Zezinho diz que pelo trabalho foi incluído e integrado à sociedade. Porém, faz um apelo aos estudantes para que ajude à causa porque muita coisa ainda precisa ser feita. “Onde estão os PCDs? Eles estão chegando onde querem chegar? Temos aqui um corpo universitário com formação para ajudar e abraçar essa causa. É preciso combater o preconceito, preparar escolas e as empresas para nos receber, porque nos moldes atuais a nossa ‘fatia’ é jogada para um canto”.

Vinicius, 28 anos, deficiência física congênita, jornalista pela UFSC e estudante de Psicologia também pela UFSC, abordou em sua fala justamente esse assunto: como fazer a inclusão e a integração do PCD. “Existem soluções, mas é preciso compreender o PCD como uma mão-de-obra qualificada, com formação e que pode somar à empresa. A lei não deveria ser imposta, mas sim algo visto como um benefício. Mudando o contexto eu posso melhorar o trabalho e dando condições plenas de trabalho ao PCD, ele vai render”.

Resgatemos a proposta inicial. É a mudança de olhar de cada um de nós que fará com que os mecanismos de inclusão e inserção sejam melhorados. Colocar-se no local de outro é um exercício interessante, mesmo porque, cada um de nós tem a sua deficiência. “Aqui não tem coitadinho, tem vontade de fazer algo e ser feliz. Não nos olhem de maneira diferente porque usamos isso aqui (pegando na cadeira de rodas). Vocês também usam, por exemplo, óculos. Todos nós temos as nossas dificuldades, mas não é porque temos dificuldade de locomoção que não temos que ser reconhecidos como gente”.

A inclusão beneficia todos, agrega valor às empresas, engaja os trabalhadores, melhora as relações e integra o PCD. “É preciso receber o PCD em um contexto que envolve ela mesma e você”, orienta Vinicius.

A deficiência é limitadora a partir da sociedade e, ao tirar essas barreiras, o potencial do PCD pode ser ilimitado. Patrick Alencastro Pinheiro, secretário de Graduação de Enfermagem (CCS/UFSC), é servidor da UFSC desde 2017. Altamente qualificado, trabalhou como vendedor e, durante anos, em uma empresa bancária. Aos 17 anos precisou optar em amputar a mão esquerda em decorrência de um câncer raro. “Após a operação, ao retornar à escola, as pessoas começaram a conversar comigo para saber o que tinha acontecido. Como eu era muito tímido, essas abordagens fizeram com que eu desenvolvesse a interação com as pessoas por meio da fala. A minha deficiência física fez com que o meu desenvolvimento fosse pessoal e profissional; descobri que a minha maior habilidade era falar com as pessoas”.

O ingresso de Patrick na UFSC se deu por meio de vagas destinadas à Pessoa Com Deficiência e foram necessárias adequações simples para que o seu trabalho fosse desenvolvido da melhor forma. “Solicitei uma cadeira com suporte para os braços e um aparelho telefônico do tipo headset. No meu primeiro dia de trabalho tudo já estava ajustado”, comenta.

Patrick é uma exceção à regra. No Brasil, boa parte das vagas de trabalho reservas aos PCDs está localizada na base da pirâmide organizacional. “A qualificação dos trabalhadores com deficiência física não é observada como uma vantagem para a empresa, ou seja, como uma real fonte de lucro. É preciso reverter essa condição”, explica Vinicius.

A inclusão e a inserção nas organizações

No projeto da empresa em que Vinicius atua, existem quatro frentes para contratar um PCD, são elas: 1. Acessibilidade (ação constante, estar aberta à acessibilidade); 2. Recrutamento e Seleção (perfis adequados e experiência); 3. Treinamento (curso preparatório para toda a empresa, atividades comportamentais, equipes que receberão as pessoas com deficiência, quebrar estranhamentos, construir ambiente); 4. Acompanhamento (nos seis primeiros meses de trabalho, conversar com a pessoa para entender a acessibilidade, a inserção, a satisfação, o futuro dela na empresa, incentivar a fala).

Abordando o projeto de Diversidade e Inclusão na empresa e que trabalha, Vinicius revela o passo a passo das ações tidas como assertivas para eles. “O primeiro ponto é trazer uma pessoa com deficiência para falar disso, pois existe a experiência e entendemos como a deficiência dialoga com o mundo. Segundo, ter um caminho para a inclusão. A ação RD Sum agrega/inclui e, além da lei de cotas, dá acesso facilitado para quem já está capacitado para o mercado de trabalho”.

Os passos do projeto:

  • VALOR: Toda a empresa precisa assumir e defender esse valor, se trata de uma ação da empresa. O ambiente muda por meio de acessibilidade e adaptações;
  • PROJETO: É preciso planejamento, trabalho, metas, dados para implantar a ação;
  • TOP DOWN: Envolver a alta liderança, pois todos devem estar engajados para o projeto andar.

O assunto será tratado pela Divisão de Serviço Social (DiSS) e a Psicologia Organizacional da UFSC no dia 5 de julho, quinta-feira,  às 15h, na sala Lantana, no Centro de Cultura e Eventos, durante a Roda de Conversa ‘A questão da deficiência e os servidores da UFSC: desafios e possibilidades no ambiente de trabalho.

As inscrições ocorrem até o dia 20 de junho e podem ser feitas no formulário online.

Mais informações pelo telefone (48) 3721-4270.

Nicole Trevisol/Jornalista da Agecom/UFSC

Fotos: Jair Quint/Agecom/UFSC

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