UFSC na mídia: Reitora da UFSC, Roselane Neckel, fala sobre a universidade e futuro da educação

14/04/2015 20:49

Para a atual reitora da UFSC, Roselane Neckel, o futuro da educação no país depende de pelo menos duas ações prioritárias: a valorização salarial dos professores e a inclusão da ética e do caráter na formação dos alunos. Neste contexto, as universidades têm um papel importante: como medida capaz de reduzir a desigualdade e equilibrar as possibilidades. Para a reitora, enquanto o Brasil não consegue garantir os mesmos direitos para todos, precisa pelo menos aumentar o acesso a eles.

Que avanço a senhora aponta nos últimos anos a frente da UFSC?

O mais importante de tudo foi a reorganização administrativa da UFSC, que passa pela transparência dos processos que envolvem licitações, compras e projetos realizados com empresas e com o setor público. Com isso criamos a Secretaria de Aperfeiçoamento  Institucional, que tem como missão avaliar todos os processos administrativos dentro da UFSC, tanto de licitações quanto a descentralização de recursos, para checar se todos estão sendo cumpridos, conforme determina a lei. Isso é gestão, o aprimoramento dos objetos de controle e a organização administrativa. Porque a UFSC  é inegavelmente reconhecida pela produção acadêmica, temos 584 grupos de pesquisas, 450 convênios com mais de 50 países, 8.000 projetos de extensão e formamos 32.500 alunos. O que estava faltando era essa reorganização para chegar objetivamente ao resultado.

Recentemente, a senhora anunciou medidas para aumentar a segurança no campus na Capital. Há a garantia de rondas policiais e de ações concretas para diminuir o número de ocorrências na universidade?

Ações estão sendo feitas. Fechamos os portões para diminuir a circulação à noite e contratamos 102 porteiros para liberar os vigias que estavam dentro dos prédios. Com isso, aumentamos as rondas no campus. Também melhoraremos a iluminação e estamos pedindo para os alunos registrarem Boletins de Ocorrências quando sofrerem delitos, para comprovarmos a necessidade de mais segurança, já que a polícia não tem os mesmos números de ocorrências que nós temos. Agora em relação às rondas policiais, a Polícia Militar sempre foi muito clara e correta: não tem como garantir segurança exclusiva para a UFSC, já que atende 12 bairros e todos os empreendimentos desta região também teriam esse direito. Não há efetivo para isso.

Como está a situação da UFSC em relação aos repasses atrasados do governo federal para os programas? As bolsas de pesquisas e o Ciências Sem Fronteiras estão em dia?

Não há atrasos, porque as políticas de bolsas são prioridades. Sabemos que todos os anos a aprovação do orçamento da União demora até abril, então nos programamos dentro do orçamento do ano anterior para cumprir todos os compromissos. Nós nos organizamos desde o ano passado de forma planejada.

 A senhora espera corte nos recursos federais este ano?

Assim como é um ano de ajustes na economia do país, será um ano de ajustes também nos órgãos públicos. O governo garantiu que não haverá cortes na educação, mas temos que fazer a nossa parte, que é economizar. Ainda não sabemos se haverá um contingenciamento maior, se o nosso orçamento virá menor, mas, mesmo assim, tomaremos medidas internas de gestão. Vamos cumprir o conjunto de investimentos já programados e planejar o próximo ano.  A perspectiva do governo é essa: cumprir os compromissos já assumidos e a partir de 2016 e 2017, fazer novos investimentos.

 Dentro deste contexto de ajustes e economia, a senhora concorda que é necessário reduzir o número de Ministérios?

Se um estudo técnico apontar para isso. É preciso uma exposição de motivos, apontar um diagnóstico, uma proposta profunda. A redução dos ministérios vai reduzir o número de cargos também? Vai dar possibilidade de o governo cumprir com todas as obrigações? Se sim, concordo. Mas o debate tem que ser maior, porque uma análise superficial vai gerar uma política pública superficial e não vai resolver o problema.

 O governo lançou como lema do novo mandato Brasil, Pátria Educadora.  Quais medidas a senhora considera fundamentais para que o lema não fique apenas no discurso?

Há uma necessidade de repensar a educação na perspectiva da formação da ética e do caráter, porque Pátria Educadora não é só escola, é em todos os níveis, é uma responsabilidade compartilhada. Em uma sociedade capitalista, consumista, em que os pais estão trabalhando para sustentar os filhos, quem vai ensinar as crianças de que “fazer mal a outro homem ou outra mulher é irracional”? Quem está educando nossos jovens quando todo mundo está ocupado? Este é desafio que deve passar pela mudança na grade curricular de ensino e em todo o sistema educacional do país. O governo já está pensando nisso.

 Qual o papel das universidades neste contexto?

Assumir também essa responsabilidade. Nós recebemos jovens do ensino fundamental e médio e nós temos que educá-los. Cada vez mais nós temos que discutir a formação de pessoas nas universidades, principalmente na questão de caráter, de formação de valores éticos, repeito à diversidade cultural, repeito ao outro. Nós não estamos fazendo isso na grade curricular, mas em programas dentro da universidade, como a distribuição de cartilhas aos calouros contra a violência, às práticas sexistas, racistas, xenofóbicas, todo tipo de  preconceito e violência psicológica e não psicológica nos trotes universitários. É o primeiro passo. O segundo é criar um grupo de apoio psicosocial, que acolhe o estudante e debate temas como estes.

 A política de cotas é um passo para essa formação?

Certamente, porque se nós não constituirmos políticas públicas que façam com que haja um tratamento diferenciado para quem é diferente, nós não estaremos dando oportunidades. O que a educação é na vida de uma criança com oito anos de idade no ensino fundamental? Ela dá esperança de que lá na frente ela terá oportunidades, mesmo em situação desigual. Eu fui professora do ensino fundamental, aos 18 anos, como bolsista da Prefeitura de Florianópolis, em uma escola no Ribeirão da Ilha. E foi essa experiência que definiu muito do que eu penso sobre educação hoje. Era uma sala dividida por estantes com 30 alunos da quinta série e ninguém sabia ler. Eram crianças carentes, do Pedregal. E eu era obrigada a dar aula sobre a história da Europa. Eles nem sabiam se localizar, que estavam em um bairro, dentro de uma cidade, que é capital de um estado brasileiro. Aí eu me uni com a professora de português para, primeiro, ensinar a ler. Mudamos tudo. Quando eles se localizaram e aprenderam a ler, eles já começaram a sonhar com o que queriam ser. Um queria ser astronauta, outro cientista….Olha a perspectiva de futuro! Olha o que a educação faz! Dar acesso é dar esperança. É dar perspectiva. Investir no ensino médio público é importantíssimo, mas enquanto não se tem níveis educacionais iguais no país, é preciso investir em políticas públicas de inclusão, porque se isso não acontecer, o acesso às universidades será se de alguns, restringindo um direito que é de todos. As cotas representam o equilíbrio de possibilidades.

Onde o Brasil peca em educação?

Temos muitos desafios, o principal a valorização salarial e de formação dos professores. Se houve erros e questões devidamente não enfrentadas, não é de hoje, vem de uma longa história. É preciso valorizar a carreira do professor.

Sobre Roselane Neckel

É professora do Departamento de História e atua, também, como professora do Programa de Pós-Graduação em História da UFSC.

Tem licenciatura em História pela UFSC (1988), mestrado (1993) e doutorado (2004) em História, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Foi vice-diretora (2004) e diretora (desde 2008) do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC. Foi coorganizadora, com Alita Diana C. Küchler, do livro UFSC 50 Anos: Trajetórias e Desafios, publicado em 2010.

Keli Magri/ Florianópolis

Fonte: http://m.ndonline.com.br/florianopolis/noticias/247923-reitora-da-ufsc-roselane-neckel-fala-sobre-a-universidade-e-futuro-da-educacao.html ( publicado em 13/4/2015

 

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