Racismo, manifestação e violência são destaques na revista da EdUFSC

06/05/2014 13:38

Em entrevista exclusiva ao escritor Dennis Radünz, publicada na edição nº 7 da revista Subtrópicos, o jornalista Uelinton Farias Alves denuncia “a grossa margem de racismo a que Cruz e Sousa está legado até hoje”. Autor da biografia Cruz e Sousa: Dante negro do Brasil, o autor sublinha que a invisibilidade do poeta de Desterro se dá pelo processo político-social brasileiro. “A sociedade o exclui como exclui todo negro brasileiro”, sentencia. Subtrópicos é a revista cultural da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC), que tem entre os seus títulos o livro Exeus, de autoria de Dennis Radünz.

Além da entrevista, este número da revista apresenta artigos de professores e intelectuais locais, do país e do exterior. O carioca João Gabriel Almeida analisa as “jornadas de junho”, lançando uma questão intrigante: “Cabe agora, também, pensar em como disputar a juventude que foi para as ruas e que está sendo cativada pelo fascismo”. Músico e morador de Florianópolis, o argentino Alberto Andrés Heller contribui com o texto sobre “O mito do autoconhecimento através da arte”.

Segundo ele, autor de John Cage e a poética do silêncio, “não devemos confundir expressão com autoexpressão, pois o que se expressa na arte supera em muito os limites do individual: o artista e a ‘sua’ criação são atravessados pelo mundo, pela história, pela cultura, pela energia, pelo espaço, pelo tempo.”.  Heller entende que “a técnica nunca confere o poder e o domínio sobre a obra”.

Nas páginas centrais a tradicional entrevista cede lugar para um artigo póstumo do jornalista e dramaturgo argentino Roberto Arlt e um texto correlato da tradutora e doutora em Literatura pela UFSC Eleonora Frenkel. Autor de Os sete loucos, Arlt analisou “Os vagabundos de Facio Hebequer”, pintor que “reproduziu o vagabundo em todos os seus gestos, posturas e misérias”. Arlt concluiu que nos cinco mil esboços Hebequer demonstrou “bem claramente” que estima os vagabundos e que eles “constituem o filão virgem da sua arte”. Eleonora Frenkel, que defendeu tese sobre as crônicas de Roberto Arlt e as gravuras de Francisco Goya, lembra que o jornalista “foca o intolerável e performa o real com tanto exagero que suas encenações realistas chegam ao absurdo”. Arlt, sintetiza, era um “escritor apegado à realidade social”.

O presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), Nildo Ouriques, volta às páginas de Subtrópicos para divulgar a recém-lançada coleção Pátria Grande, com a finalidade de publicar “autores indispensáveis para a formação em Ciências sociais”. Iniciativa inédita no Brasil, “já selecionou os primeiros 80 tomos, dos quais 40 estão em processo de tradução”. O objetivo, sustenta o economista, é “pensar com cabeça própria o passado, o presente e o futuro da América Latina”.

Pátria Grande, promete Nildo Ouriques, apresentará “autores indispensáveis para a sólida formação do sociólogo, filósofo, do antropólogo e do cientista político interessados no conhecimento da realidade latino-americana”. Nildo, que contribuiu também no primeiro número de Subtrópicos, assina o artigo “A descolonização do saber”.

Outro destaque da revista é o artigo do historiador Paulo Pinheiro Machado reconstituindo o ataque sangrento das Forças de Segurança ao Campus da UFSC no dia 25 de março deste ano. “Enfim, a ação policial absolutamente ineficaz contra o tráfico de drogas e a verdadeira criminalidade trouxe mais insegurança e precipitou uma crise interna dentro da Universidade”. O diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC (CFH) e autor de Lideranças do Contestado (Ed. Unicamp) pensa que “este episódio deve servir para nos unir em defesa da instituição, como momento de reafirmação de nossa autonomia para o exercício do espaço de liberdade que o estudo, a reflexão, a argumentação,  elementos fundamentais de uma Casa dedicada ao saber, prevaleça acima de tudo”.

Em ano de Copa do Mundo no Brasil, o doutor em Teoria Literária André Cechinel aborda a arbitragem no futebol e, eleições à vista, Upiara Boschi, da Editoria de Política do Diário Catarinense, revela os bastidores do “folhetim” que escreveu sobre a origem da “civilidade familiar (Konder e Ramos) que moldou a história do poder em SC”.

Publicada mensalmente nas versões eletrônica e impressa, a revista divulga ainda três títulos da EdUFSC: o recém-lançado Iraque: dos Primórdios à Procura de um Destino, de Bernardo de Azevedo Brito; a nona edição de Estatística Aplicada às Ciências Sociais (Série Didática), de Pedro Alberto Barbetta; e do clássico Pensar em Não Ver: Escritos sobre as Artes do Visível (1979-2004), de Jacques Derrida, organizado por Ginette Michaud, Joana Masó e Javier Bassas. As resenhas sobre os livros podem ser acessadas no endereço da Agecom  (agecom.ufsc.br).

Para aliviar os leitores, Subtrópicos oferece uma bela imagem na contracapa. A edição fica marcada, no entanto, com “O invisível criador”, matéria que expõe o preconceito e o racismo contra o “único poeta do mundo a criar uma escola literária: o Simbolismo”.

Mais informações com a EdUFSC: www.editora.ufsc.br / (48) 3721-9408

Diretor executivo – Fábio Lopes:  / (48) 9933-8887

Moacir Loth/Jornalista da Agecom/UFSC

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