Estudante foi vítima de estilhaços de bomba durante confronto com polícia

26/03/2014 22:05

A estudante de Jornalismo Luara Wandelli Loth, de 20 anos, foi uma das vítimas mais graves no ataque da polícia aos estudantes, professores e técnico-administrativos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na terça-feira, 25 de março. O conflito teve início a partir da ação da Polícia Federal que, com alegação de combater o tráfico de drogas, envolveu o uso da polícia militar e tropa de choque, culminou na prisão de cinco pessoas e na apreensão de uma pequena quantidade de maconha.

Junto com cerca de 200 pessoas, Luara estava no bosque do Centro de Filosofia e Ciências Humanas para protestar contra a ação policial. Assim que as negociações começaram a fugir do controle, começou o ataque com pedras, paus, balas de borracha, gás de pimenta e bombas de gás lacrimogênio vencidas há mais de um ano, que se descobriu depois nos restos encontrados.

Uma bomba de efeito moral explodiu ao lado do seu pé. Os estilhaços perfuraram sua calça e fizeram cortes profundos. Luara levou quatro pontos na perna direita e muitos outros cortes na parte inferior da perna. No meio da tentativa de repouso, ela concedeu esta entrevista, onde conta como se envolveu no episódio e o que espera daqui para frente.

Como foi que aconteceu?

Luara Wandelli Loth – Eu estava saindo do curso de inglês, na rua na frente do Centro de Ciências da Educação (CED) e ia para o centro apresentar uma peça de teatro. Foi quando me contaram que havia muitas pessoas no bosque do CFH, pois estudantes estavam sendo presos por policiais à paisana e que a PM estava no bosque, o que é uma ação que vai contra a autonomia da UFSC. Claro que a gente se solidariza com isso. Meu objetivo era ficar pouco tempo e ajudar a negociar uma saída coletiva. Fiquei por lá cerca de 1h30min, e a negociação não ia para frente. Eu sabia que a choque (Tropa de Choque da PM) estava por ali, mas não sabia que ela ia atacar tão rápido. Começamos a dar as mãos em torno do carro do Departamento de Segurança da UFSC, na parte de trás do carro. Em seguida começou a vir o gás. Depois eles levaram os quatro meninos, que foram detidos sob acusação de desacato à autoridade. A multidão começou a correr e se dispersou. Agachei para me proteger do gás, junto com outro rapaz. Não tinha nada para me proteger. Me levantei e vi que a maioria das pessoas tinham corrido do local. Vinham tiros de todas as direções, as pessoas estavam sendo espancadas, mesmo já caídas. Depois, a bomba estourou bem ao lado do meu sapato. Na hora senti o estilhaços atingirem a minha perna e vi sangue saindo pelo furo da calça.

Você sentiu dor na hora?

LWL – Não, na hora não senti dor, só vi que estava sangrando e a calça estava rasgada. Fiquei em dúvida se corria ou ficava parada. Mas vi que a polícia estava batendo em qualquer um, até em pessoas machucadas e caídas, então resolvi que mesmo ferida eu tinha que sair dali. Naquela hora, parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Me passou pela cabeça até que alguém poderia morrer.

Como você foi socorrida?

LWL – Encontrei um amigo de infância que, junto com outros meninos, me carregaram no colo até a frente do Restaurante Universitário (RU). Em seguida, começou a chegar ali um monte de pessoas feridas e assustadas, chorando muito. Meu amigo pegou o carro e me levou para o Hospital Universitário, mas lá não fui atendida, pois, segundo a recepcionista, eles não podem atender feridos sem a presença do cirurgião, nem olharam meu ferimento. Havia outra estudante na frente do HU procurando uma amiga que, segundo ela, teria ferido o aparelho auditivo. Fui então para a Unimed Trindade, onde fui atendida. Levei quatro pontos na perna direita. Na mesma noite, fui à delegacia fazer o boletim de ocorrência. Encontrei cerca de 18 pessoas fazendo o BO. A única com estilhaço de bomba era eu. A maioria era por hematoma, por ter levado um tiro de borracha muito perto. Hoje de manhã fui ao Instituto Geral de Perícia fazer o exame de corpo de delito.

Foto tirada durante o primeiro atendimento médico a Luara. Foto: Raquel Wandelli

Como você esta se sentindo? Está precisando tomar medicamento?

LWL – Estou sentindo um pouco de dor. Hoje voltei para a Unimed, pois eles não haviam receitado medicamento. Estou tomando antiinflamatório e antibiótico, pois a médica acredita que a ferida pode infeccionar. Tive que tomar vacina antitetânica e tenho atestado para quatro dias.

Como você avalia essa ação dos estudantes, dos policiais e da própria administração da UFSC?

LWL – Não tivemos outra escolha a não ser resistir. Eu não me via virando as costas, sabendo que meus amigos e companheiros estavam apanhando da tropa de choque. Quanto à polícia, foi uma ação errada desde o princípio. Começaram a vir policiais de todo o tipo e eles não estavam ali para negociar, era uma chantagem, pois nos ameaçavam com a possibilidade do confronto desigual com o Choque da PM. Percebemos que não era algo que podia ser resolvido em outro momento, pois isso era abrir um precedente, um caminho para que a presença da polícia se torne uma coisa normal dentro do Campus. Minha avaliação é que esta ação é uma tentativa para que a PM esteja aqui para reprimir os estudantes. O CFH não foi escolhido à toa. É o centro onde se articulam vários movimentos sociais, como o contrário ao Plano Diretor, as manifestações pela redução das tarifas de ônibus. E agora tem a Copa chegando e se esperam muitas manifestações por parte da comunidade universitária. O CFH é o local que resistiu às empresas-júnior e que resiste às políticas conservadoras dentro da universidade. Os estudantes estão envolvidos nessas lutas. Então, a PM no campus é um jeito de coibir nossa liberdade. Na minha opinião, a ação não tinha a ver com tráfico de droga. Foi mais uma intimidação. Outro ponto a ser debatido é o documento da reitoria que estabelece a parceria com a PM. Sou favorável e solidária à ocupação da reitoria e acredito que a gestão e os diretores não podem abrir brechas para a PM ou permitir este tipo de ação arbitrária, pois isso é de algum modo escancarar a porta.

O que você espera que todo esse ocorrido possa trazer para a universidade e para a sociedade?

LWL – Acho que a gente tem que tentar recolocar a pauta de segurança e drogas de forma mais ampla. A UFSC não é uma bolha, que pode ignorar a violência que é tão constante em nossa sociedade. A UFSC compartilha dos mesmos problemas da sociedade externa a ela. Neste debate temos que reafirmar por que a polícia não pode estar dentro do campus. Ela criminaliza os movimentos sociais e não está preparada para lidar com esta questão, seja aqui na universidade ou no resto das cidade, principalmente na periferia, onde, não raramente, pessoas são mortas.

Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC

Tags: Bosque do CFHCFHPolícia federalSegurançaUFSCviolência