‘A festa da jaguatirica’ recupera 45 anos de música e cultura dos kamaiurá

31/10/2013 15:53

As músicas gravadas, em 1969, pelo antropólogo Rafael José de Menezes Bastos estão sendo reaprendidas  hoje pelas crianças da aldeia dos kamaiurá, no Alto Xingu, Mato Grosso. Obra pioneira e divisor de águas na etnomusicologia, o   pesquisador escreveu o clássico  A festa da jaguatirica – Uma partitura crítico-interpretativa. Reunindo, em 526 páginas, 45 anos de pesquisas, a obra inaugura a recém-criada Coleção Brasil Plural da  Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (EdUFSC). Exibindo capa primorosa e moderno projeto gráfico, A festa da jaguatirica apresenta fotos, ilustrações e a descrição integral de um ritual musical ameríndio.

Brinda igualmente os leitores com um CD de sons colhidos e eternizados pelo antropólogo, chamado carinhosamente de avô pelos jovens da aldeia. Rafael tem uma explicação para tanto respeito e prestígio junto à comunidade indígena: “É muito simples. Basta não roubá-la, não traí-la; aliar-se a ela. Depende, com certeza, da seriedade e do comprometimento do estudioso, e de seu afeto.” A coleção abre espaço para divulgação da produção científica do Instituto Nacional de Pesquisa Brasil Plural (INCT), contando com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, CNPq, Capes, UFSC, UFAM e das Fundações de Amparo à Pesquisa de Santa Catarina e do Amazonas (Fapesc e Fapeam).

Durante bate-papo sobre as pesquisas, o antropólogo denunciou os retrocessos nos direitos dos índios no Brasil. Os avanços nas pesquisas antropológicas, segundo ele, conflitam com a realidade. “Estamos diante de verdadeiros campos de concentração, onde a vida não vale nada”, indignou-se, perdendo um pouco do seu bom humor. O renomado antropólogo Anthony Seeger, da Universidade da Califórnia (EUA), acredita que o estudo será um aliado vital dos futuros pesquisadores, entre os quais, “certamente estarão jovens kamaiurá em busca de entender e salvaguardar suas tradições”. Rafael José de Menezes Bastos é autor, pela EdUFSC, do livro A musicológica kamayurá  – Para uma antropologia da comunicação no Alto Xingu. Resultado da dissertação de mestrado na UnB, em 1976, a segunda edição saiu, em 1999, pela EdUFSC, sendo seu conteúdo incorporado à Festa da jaguatirica. “A obra serve aos índios, aos seus pesquisadores e aos bárbaros”, conclui.

Segue  entrevista com o etnomusicólogo que permite compreender melhor a obra e a pesquisa sobre os kaiumurá e o Alto Xingu:

ML – O livro A festa da jaguatirica: Uma partitura crítico-interpretativa reúne mais de quatro décadas de pesquisas sobre a música dos Kamayurá e do Alto Xingu. Não se tem notícia de outro trabalho dessa envergadura no Brasil. Fale um pouco do processo, da importância e do conteúdo da obra?

RJMB – O livro é uma das primeiras descrições integrais de um ritual musical ameríndio, conforme aponta o autor de seu Prólogo, o Prof. Anthony Seeger. Sua envergadura, pois, extravasa os limites brasileiros e o coloca no contexto das três Américas. Convivo com os índios Kamaiurá desde 1969, aprendendo com eles sua música, sua filosofia e suas demais formas de pensar, sentir e fazer. O livro estuda o ritual de longa duração do Javari (11 dias e noites), mostrando como sua música está em sua base e como ele é constituído a partir de pequenas unidades (canções e vinhetas), elaboradas através de uma fina dialética de repetições e diferenciações em sequências e sequências de sequências dessas unidades, executadas continuamente durante dez ou mais dias. O Javari é um longo poema cantado do mesmo tope que a Ilíada e a Odisséia. Se o livro tem alguma importância ela está em dois planos: o dos índios, seus intelectuais e seus aliados, e o dos estudantes de antropologia, música e campos congêneres.

ML – O que é ser etnomusicólogo/antropólogo no Brasil? Ele tem o devido reconhecimento da Academia e da sociedade?

RJMB – Acho que temos, sim. É claro que a maioria de nós não é, nem deseja ser, celebridade.

ML – O fato de ser músico ajudou na realização do desafio abraçado? (“A generosidade da antropologia me devolveu à música”).

RJMB – Com certeza que ajudou muito.

ML – O seu esforço é considerado heroico. As novas tecnologias facilitam pesquisas similares? O que muda? (Um CD acompanha o livro).

RJMB – As novas tecnologias facilitam, sim, pesquisas como a minha. Os equipamentos são muito mais leves e ágeis do que eram há 30 anos, podendo sem esforço ser transportados para as áreas indígenas e usados ali, de dia e de noite, dias seguidos. Mas nenhuma tecnologia substitui o gosto de seguir os índios cantando, tocando e dançando durante 10-15 dias e noites, continuamente.

ML – O que os leitores podem aprender com a leitura e a socialização do conteúdo de A festa da jaguatirica?

RJMB – Aprender como a música e a cultura Kamaiurá, xinguana e ameríndia em geral têm a dimensão, a profundidade e a significação das grandes culturas-fontes da humanidade.

ML – O que significa, para o pesquisador, inaugurar a Coleção Brasil Plural da EdUFSC?

RJMB – Significa uma tarefa de  responsabilidade e dificuldade – o IBP é um instituto de pesquisa de grande relevância e a Edufsc, uma editora muito importante.

ML – A obra, na sua opinião, reforça as políticas públicas de inclusão social?

RJMB – Profundamente , porque devolve aos índios um trabalho feito entre eles durante anos a fio e contribui para mostrar aos não-índios como os índios têm uma cultura tão encantadora e profunda.

ML – Quem é Rafael José de Menezes Bastos (breve perfil)?

RJMB – Sou Professor de Antropologia na UFSC, onde coordeno o MUSA, “Núcleo de Estudos, Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e Caribe”. Sou Pesquisador do CNPq. Escrevi “A Musicológica Kamayurá: Para uma Antropologia da Comunicação no Alto Xingu”, de 1978 (2a.edição da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina em 1999) e “A Festa da Jaguatirica: Uma Partitura Crítico-Interpretativa“, de 2013 (Edufsc). Organizei dois outros livros e publiquei cerca de 100 artigos, incluindo capítulos de livros. Tenho três livros em preparação. Convivo com os índios Kamayurá desde 1969, colaborando com eles em vários projetos, inclusive no de cantar para eles, especialmente para os jovens, o repertório do ritual do Javari.

Moacir Loth / Jornalista da Agecom / UFSC
moacir.loth@ufsc.br 

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