Professor da UFSC assessora projeto sobre políticas públicas para o esporte

01/10/2012 12:54

Audiência pública da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul discutiu alternativas para o futebol do interior

O Vitral Latino-Americano de Educação Física, Esportes e Saúde transpõe as fronteiras da Universidade Federal de Santa Catarina, atuando em uma lógica crítica na área de Educação Física, campo predominantemente dominado por uma lógica de mercado e de uso do corpo humano como mercadoria de trocas financeiras e de obtenção de lucro. Paulo Capela, professor do curso de Educação Física da UFSC e pesquisador do Vitral Latino-Americano, assessora o projeto “Jogo Aberto” na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O trabalho faz parte das atividades do Grupo de Estudos em Cultura Popular e de Movimento (Gecupom), um dos projetos do Vitral Latino-Americano, vinculado ao Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA/UFSC). Ancorado no pensamento crítico-reflexivo, o Gecupom, criado em 2005, atua especialmente em relação ao futebol, esporte ao qual dirige sua principal interlocução teórica e intervenção concreta.

Capela explica que o trabalho pretende contribuir com a elaboração de políticas públicas para o esporte e lazer no Rio Grande do Sul, uma experiência que pode servir de inspiração para outros Estados brasileiros.  A proposta que ele orienta é uma das proposições levadas adiante no Legislativo gaúcho pelo deputado Alexandre Lindenmeyer (PT), autor do Projeto de Lei 52/2012, em tramitação desde março.  O PL propõe instituir uma nova política estadual de fomento à reestruturação dos clubes gaúchos de futebol profissional, reavaliando critérios e qualificando estruturas administrativas. Entre outros aspectos, são previstas ações que estimulem a autoestima das comunidades, através da recuperação da história dos clubes e dos municípios e promoção da inserção social através do esporte.

Jogo aberto surgiu a partir de audiências públicas sobre o futebol do interior do Rio Grande do Sul. Os debates reuniram representantes dos clubes, atletas, árbitros e representantes da Federação Gaúcha de Futebol, imprensa esportiva e governo do Estado, além de várias entidades ligadas ao futebol amador e profissional. O projeto propõe reestruturar os times no Rio Grande do Sul, que abandonaram a lógica do clube associativo para assumir a de clube empresa.  Hoje são cerca de 40 clubes de futebol no Estado gaúcho, alguns deles desativados. O que se pretende, explica Capela, é reconstruir o ambiente esportivo com oferta de salários decentes e pagos em dia; contratação de  bons e atualizados profissionais; atendimento médico de qualidade e alimentação saudável e adequada para os atletas.

Para a implantação de uma política permanente prevê-se que Jogo Aberto conte com um plano estadual (elementos de informação, diagnóstico e estabelecimento de objetivos), um sistema estadual (agentes institucionais incumbidos de cumprir os objetivos) e um fundo estadual (instrumento financeiro para reunir recursos). As verbas poderão vir da administração direta ou indireta, de concursos de prognósticos, de programas de educação fiscal, do televisionamento de jogos ou de publicidade e propaganda de estatais vinculadas a programas de inclusão social.

O projeto inclui a criação, manutenção e ampliação de atividades esportivas para crianças e adolescentes, permitindo a formação de atletas a partir de outra visão social sobre a atividade desportiva. O resgate histórico-cultural deve ser viabilizado através da implantação de núcleos de cultura popular, esporte e lazer, com atividades para crianças, adolescentes, adultos e a chamada terceira idade.

Futebol como política pública

A expectativa dos envolvidos com a proposta é de que a aprovação ocorra em tempo breve na Câmara dos Deputados, já que foi amplamente debatida e ofereceria condições para alavancar o futebol e comunidades envolvidas. O autor do projeto acredita, como declarou à imprensa, que “o futebol tem potencialidade para ser um condutor de ações sociais que recuperem comunidades, devolvendo-lhes o orgulho de torcerem para seu  próprio time  e fazendo os investimentos girarem na própria região”.

Já o professor da UFSC considera este seu trabalho de assessoria científica ao projeto gaúcho como a resposta de um filho para sua terra de origem, pois Capela nasceu na cidade de Rio Grande, onde foi professor universitário, jogador de futebol do time da cidade e depois preparador físico, no final dos anos 70 e início dos 80. Ele enfatiza que é preciso qualificar proposições quanto ao tema do esporte e lazer, tendo em conta inclusive a necessidade de debater profundamente os esportes no cenário da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, megaeventos que geram euforia sem, na maioria das vezes, a necessária contrapartida crítica sobre seu impacto e  consequências para o Brasil.

É por isso mesmo que o Instituto de Estudos Latino-Americanos, do qual Capela é o atual presidente, está organizando o seminário internacional Jornadas Bolivarianas, que vai discutir “Megaeventos esportivos e seus impactos na América Latina”. Trata-se da nona edição deste evento que anualmente traz à UFSC respeitados pensadores para debater, em perspectiva latino-americana e mundial, temas ignorados ou debatidos insuficientemente nas universidades.

Capela enfatiza que as ações já articuladas na cidade de Rio Grande e o que está previsto no projeto Jogo Aberto rompe o continuísmo político, abrindo espaço para uma nova visão do esporte, resultante de um ciclo de trabalho que já se aproxima de uma década.  “Temos uma análise de que nos últimos 30 anos houve uma deterioração de todas as funções do futebol no interior do Rio Grande do Sul, tanto no que refere às questões técnicas como às administrativas, gerenciais, de saúde e de direitos dos atletas. A nossa proposta considera a prática do futebol como uma política pública. A ideia é de atuar como polo irradiador da cultura esportiva de transformação social, concretizando algo novo, que poderia servir de paradigma para outras experiências.”

O professor explica que o autor do projeto de lei é um advogado trabalhista que se envolveu com o futebol depois de ter sido conselheiro do Esporte Clube Rio Grande, primeiro clube de futebol do Brasil. “Em 2005 comecei a assessorar o clube, para questões de preparação física, em 2006 a assessoria foi ampliada também para a questão técnico-tática e para orientar uma mudança de paradigma na administração do futebol, o que aconteceu em 2007. Foi quando Alexandre assumiu a presidência do clube.”

Foi principalmente por conta de sua atuação nesse campo, avalia Capela, que Alexandre Lindenmeyer acabou sendo eleito vereador em Rio Grande e depois deputado estadual, o primeiro do chamado campo da esquerda oriundo daquela cidade gaúcha. Um dos eixos principais de seu mandato passou a ser esporte e lazer, e Jogo Aberto é resultante de tal opção. Inicialmente este eixo parlamentar foi também assessorado por Nilso Ouriques, professor da Unoesc/SC e autor do livro “A Miséria do Esporte: reflexões sobre as políticas públicas em Santa Catarina”, e, sucessivamente, por Luiz Parise, professor com larga experiência no campo esportivo.

Esporte na ótica dos trabalhadores

De 2005 a 2007 o ambiente do Esporte Clube Rio Grande foi sendo preparado para uma mudança de modelo, o que consistia em modernizar, profissionalizar e devolver ao controle público o clube de futebol. Entre outras ações atuou-se para que o futebol fosse praticado na ótica dos trabalhadores, buscando-se também a recuperação da história do Esporte Clube Rio Grande. Além disso, foi constituída uma comissão técnico-científica e criado um departamento de saúde, para garantir aos atletas condições dignas para realizarem seu trabalho profissional.

Para que os trabalhadores da cidade voltassem a assistir presencialmente jogo de futebol, uma das iniciativas foi pesquisar o salário médio regional, a fim de se estabelecer um valor de ingresso compatível com a renda das famílias. Com base nos resultados do estudo, fixou-se em cinco reais o valor do ingresso, com isenção para as mulheres e cobrança de preço reduzido, de dois reais, para menores de 12 anos, com a apresentação de carteirinha, estratégia usada para “fidelizar” o futuro torcedor. “Assim, com dez reais a família toda poderia ir ao jogo. Isso foi colocado em prática e, em 2007, o time chegou a ficar entre os oito clubes que disputariam o acesso à primeira divisão. Foi escolhido naquele ano como o futebol mais bonito da segunda divisão”, comenta o professor.

Para Capela, se o esporte for operado na lógica dos trabalhadores, consegue interessar as pessoas relativamente a uma série de temas para os quais não se mobilizam com facilidade. “O que venho pregando há 26 anos é que é preciso dar um trato pedagógico ao ensino do esporte, com uma visão libertadora biocêntrica, a qual recupera o projeto histórico de uma América Latina livre e as teses educacionais de Paulo Freire.” Esta visão biocêntrica, que considera a vida como centro de tudo, tem como inspiração teses de Humberto Maturana e Rolando Toro. Os dois estudiosos chilenos preconizam a necessidade de buscar novas pautas internas para viver, para que o cuidado e a afetividade possam ser vividos e não apenas esperados.

É nessa visão biocêntrica, esclarece Capela, que se inspira a concepção do lazer criativo: um tempo de fruição da vida que pode potencializar humanidades, entre elas, esclarecimentos quanto ao tema da política. “Minha perspectiva educacional prevê a transformação didática no ensino dos esportes, o que é diferente de se adaptar o que já existe, sem uma mudança de verdade.”

A proposta que Capela defende para o futebol se dá a partir do oferecimento de cinco dimensões educacionais: futebol para jovens e crianças (escolinhas de aprendizagem, escolinhas de base); futebol nas escolas (para esclarecer, fortalecer e emancipar); futebol para adultos não atletas; futebol feminino (totalmente diferente do masculino); futebol para grupos especiais e, finalmente, futebol profissional. “O intuito é de romper com a ótica do desporto do rendimento máximo obrigatório e propor a lógica do lazer criativo. Queremos mostrar como é possível através de uma experiência esportiva gerar vida e recuperar relações sociais, além de promover esclarecimento sobre a realidade profissional e política.”

Foi trabalhando a partir desta perspectiva que, no Esporte Clube Rio Grande, a escolinha de base passou de 60 para 540 crianças incluídas. “E ainda houve uma qualificação do futebol profissional, que conseguiu ganhar praticamente todas as disputas,” observa o professor.

É este pensamento que nutre a iniciativa do projeto Jogo Aberto, em tramitação na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.  O projeto de lei está fundamentado no conceito biocêntrico de jogo como possibilidade de humanização e de prazer, a partir de uma concepção que Capela chama de rendimento necessário dialógico comparado. “Dentro desta perspectiva, imprimimos no jogo a ótica do cuidar da vida, do cuidado com o companheiro, para que ele não sofra em consequência do jogo. Através de elaborações teóricas pertinentes pensamos em como construir o que pretendemos alcançar em um contexto cultural adverso de empréstimo, o qual não nos pertence, mas no qual atuamos.”

Raquel Moysés / Jornalista do IELA / UFSC

 

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