63% dos estudantes da UFSC sofreram discriminação alguma vez na vida

05/10/2012 17:06

Estudo desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) indica que 63,4% dos estudantes pesquisados na instituição já passaram por uma ou mais experiências discriminatórias ao longo da vida. Foram analisadas situações dentro e fora do ambiente universitário. Os relatos foram mais frequentes com estudantes dos cursos de História, Pedagogia e Psicologia. A discriminação foi mais relatada por indivíduos de faixa etária mais elevada, do sexo feminino, de pior posição socioeconômica, autodeclarados amarelos, pretos e pardos e ingressantes na instituição pelo sistema de ações afirmativas. Participaram 1.023 estudantes de 12 cursos, com idade entre 16-52 anos.

Os resultados são da pesquisa de iniciação científica “Experiências discriminatórias de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina: Quem, onde e por quê?”, conduzida pela estudante de graduação em Psicologia, Luíza Maria da Rocha Zunino. O trabalho contou com a orientação do professor João Luiz Bastos, do Departamento de Saúde Pública da UFSC, além da colaboração de Fernando Mendes Massignam, professor do mesmo departamento, e Isabela Zeni Coelho, mestranda do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da UFSC. A pesquisa apresenta os resultados da aplicação de um questionário que contém 18 perguntas sobre o contato com diferentes situações de tratamento discriminatório. A aplicação se deu nos meses de março e maio deste ano nos cursos de Ciências Contábeis, Direito, Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Química, Engenharia Sanitária e Ambiental, História, Pedagogia, Psicologia, Odontologia, Medicina e Sistemas de Informação, escolhidos por sorteio. A amostragem levou em conta turmas da primeira fase, de fase intermediária e formandos da última fase, para que fossem abrangidos todos os períodos dos cursos investigados.

Dos respondentes, 63,4% relataram ter sofrido discriminação em pelo menos um dos 18 itens relacionados. Índice alto, que pode ser comparado ao de aborígenes na Austrália (60%), segundo a autora do projeto Luíza Zunino. Os cursos de História e Pedagogia apresentaram frequência de discriminação de 80%, Psicologia aparece em terceiro com 77%. Dos cursos listados, o único que apresentou índice abaixo dos 50% foi o de Engenharia Mecânica, com 47,8%. Para Luíza, os resultados devem ser interpretados com cuidado. Os cursos que encabeçam a lista têm um caráter de formação para um olhar crítico sobre o mundo, os alunos podem, então, estar mais atentos a problemas sociais do país, relatando, assim, mais discriminação do que seus colegas de áreas exata, econômica e jurídica. Outra hipótese poderia ser o menor prestígio social destes cursos, especialmente de História e Pedagogia, considerados cursos populares. Estudantes em posições socioeconômicas mais baixas geralmente relatam maior frequência de discriminação.

O tipo de discriminação mais apontado no questionário foi o que trata da rotulação com palavras ou termos pejorativos, seguido pelo que aborda a exclusão por parte de um grupo de colegas da escola ou da universidade. Também tiveram índices altos o item que se refere ao tratamento inferior em lojas e restaurantes; e a ser tratado como pouco inteligente ou incapaz de realizar alguma atividade na escola ou na universidade. De forma geral, os motivos mais frequentemente citados para experiências discriminatórias foram “idade”, “forma de se vestir”, “comportamento ou hábito”, “classe social”, “possuir determinados valores”, “ser homem ou mulher”, “cor ou raça”, entre outros. Segundo Luíza, esses dados merecem atenção porque a Universidade deveria ser um lugar de debate e inclusão e o que se percebe é uma reprodução do ambiente externo. “Talvez começar a estudar discriminação nesse espaço pode ser um passo importante para entender esse processo na sociedade“, diz.

Um dos próximos passos da pesquisa será escrever um capítulo do livro produzido pelo programa de ações afirmativas da UFSC. A discriminação é relacionada à consequências negativas em saúde, como uso de cigarro e álcool, sofrimento psíquico e doenças cardiovasculares, bem como o baixo desempenho escolar e em outras atividades.

Patrícia Cim / Estagiária de Jornalismo da Agecom / UFSC

Tags: CCSPós-Graduação em Saúde ColetivaUFSC