Círculo de Leitura recebe quinta-feira o escritor Júlio de Queiroz

24/04/2012 10:36

Círculo de Leitura na UFSC traz Júlio de QueirozO escritor Júlio de Queiroz é o convidado da edição de abril do Círculo de Leitura de Florianópolis. Ele falará de suas leituras prediletas, de outros autores e da própria obra a partir das 18h de quinta-feira, dia 26, na sala Harry Laus da Biblioteca Universitária da UFSC. “De mala pronta”, “Fractais”, “Encontro de abismos”, “Baú de mascate”, “Os convidados à trama”, “Informes a Narciso”, “Gritos do amanhecer” e “Morrer para principiantes e repetentes: ensaios” estão entre os livros do escritor, que nasceu na cidade de Alegre, no Espírito Santo, em 1926.

Com formação em filosofia, seus estudos foram realizados no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Munique e Londres. Em 1949, com menos de 23 anos, resolveu dedicar-se à vida monástica. Também trabalhou em funções públicas, junto à presidência da República, na prefeitura do Distrito Federal e no Ministério da Fazenda. Em Santa Catarina, atuou como elaborador de textos do governador Colombo Machado Salles. Ocupa a cadeira número 10 da Academia Catarinense de Letras.

O CÍRCULO

O Círculo de Leitura é um projeto que permite ao convidado e aos presentes discutirem informalmente sobre os livros que estejam lendo, as leituras do passado e as influências de outros autores sobre o seu trabalho. Escritores e jornalistas como Salim Miguel, Oldemar Olsen Jr., Fábio Brüggemann, Inês Mafra, Mário Pereira, Maicon Tenfen, Cleber Teixeira, Dennis Radünz, Rubens da Cunha, Renato Tapado, Raimundo Caruso, Nei Duclós, Marco Vasques, Zahidé Muzart, João Carlos Mosimann, Mário Prata, Rogério Pereira, Celso Martins, Rosana Bond, Silveira de Souza e Tabajara Ruas foram alguns dos participantes das etapas anteriores do projeto.

ENTREVISTA COM O ESCRITOR

Como foram suas primeiras experiências em relação à leitura? Que lembranças guarda da infância e da adolescência relativas ao contato com os livros e o conhecimento?

Júlio de Queiroz – Quando, há cerca de 25 anos, meu pai, advogado, faleceu no Rio de Janeiro, seu escritório foi desmontado por minha irmã. Entre os pertences pessoais dele, ela encontrou uma latinha de medicamentos que continha dois alfabetos de letras de jornais, coladas em papelão de caixa de sapatos e a anotação “Com essas letras ensinei meu filho Julio a ler. Março de 1929.” Eu tinha, então, três anos de idade. Filho de uma família de classe pobre, meus primeiros livros, além dos de leitura escolar, foram os então conhecidos almanaques de produtos farmacêuticos. Além de lê-los, eu os colecionava e me pavoneava entre conhecidos repetindo as anedotas e as curiosidades das quais esses almanaques eram muito ricos. Com pouco mais de três anos, meus pais e nós, seus três filhos, mudamo-nos do Espírito Santos para o Rio de Janeiro. Meu pai passou a frequentar o curso de Direito à noite. Mas, todos os fins de semana, tirava do armário dos livros um deles, o de contos, que nos lia em voz alta, fazendo entonação e teatralizando o lido. O título do livro era “Histórias de nossa terra”, da professora Júlia Lopes de Almeida. A lembrança me é viva até hoje e foi assim que passei a amar a leitura e nosso Brasil.

Que livros e autores mais o atraíram nessa fase? Pode citar as leituras mais marcantes desse período em que tudo são revelações, surpresas na vida de um leitor?

Júlio – Durante minha escolarização primária, tínhamos diariamente aulas de leitura e interpretação do lido. No 3º. ano primário, o livro era “Cazuza”, as aventuras de um menino e de sua turma. Toda semana, havia a aula de redação e, duas vezes por ano, não se escapava do relato escrito intitulado “Minhas férias”. Continuei gostando das aulas de português e detestando as de “matemática”. Custei a entender por que fazer contas com letras quando já se tinha os números. Foi também nessa época que recebi, como presente de aniversário, um livro de aventuras chamado “O último dos moicanos”. Gamei adoidado e acabei por tomar uns tapas por ter estragado um espanador para fazer um cocar de índio.

Numa entrevista, você disse que, quando estudante, foi vítima de um sistema educacional equivocado. Como superou esse problema e em que medida a leitura o auxiliou nesse processo?

Júlio – Todo meu curso primário foi feito em escolas públicas. Para me preparar para o exame de admissão ao ginásio, fui matriculado numa escola particular. Feitas as provas e aprovado, fui estudar no Colégio Pedro II, público, de alto gabarito didático e gratuito. Ao contrário da escola particular, havia milhares de alunos, cuja especialidade era “dar trote” nos novatos durante os recreios e sair em turmas para brigar com alunos de outras escolas. Nunca fui de brigas corporais. Passei a comer a merenda que levava de casa dentro das privadas e delas só saindo quando a campainha avisava que o segundo turno ia começar. Não faltava colega que me prometesse que de outra vez eu não escaparia.

Foi quando um colega me convidou para acompanhá-lo até uma biblioteca pública para adolescentes. Fomos. Não era longe do colégio. Quando, a exemplo do colega, quis levar um livro, fui advertido que para isso eu tinha que ter uma ficha de inscrição preenchida por meu pai. Mas para ler ali, na sala da biblioteca, não precisava disso. No dia seguinte, voltei à biblioteca. Deu certo. Li durante a tarde toda. E daí para a frente, diariamente, chegava à biblioteca na hora em que deveria estar entrando no colégio e nela ficava até à hora de deixar o Pedro II. Lia de tudo, desde romances para mocinhas, os de M. Delly, até todos os de aventuras da coleção “Terramarear” da Livraria do Globo, de Porto Alegre. No fim do ano, tomei pau, sem direito a repetir o ano escolar. Depois desse desastre familiar e escolar é que conheci o Colégio São Bento, o Mosteiro e suas magníficas bibliotecas, seu silêncio, sua disciplina severa, mas amável. Nem precisava me esconder nas privadas durante os recreios nem temer alunos briguentos. Conheci, entre os professores, religiosos e leigos, pessoas magníficas, que me nortearam nos estudos e nas leituras.

Quais foram seus autores prediletos? E que livros (entre tantos) foram essenciais?

Júlio – Cedo comecei a estudar a língua alemã, a língua materna de muitos dos professores e monges. Quando fui começar o filosofado com os padres jesuítas do Seminário de São Leopoldo (RS), vários deles eram alemães. De lá, estudei Filosofia na PUC-RS, em Porto Alegre. Mais alemães. Concluído o curso da PUC, recebi uma bolsa de pesquisa da Fundação Alexander Von Humboldt para estudar os místicos da Alemanha Medieval. Foi na PUC-RS que comecei a conviver com a riquíssima cultura literária alemã e, com atrevimento, com a inglesa. Só que ao mesmo tempo fiquei fascinado com a força do gauchismo, sua brasilianidade, que se firmava literariamente no panorama brasileiro. Conheci, até pessoalmente, Erico Verissimo, Mário Quintana, além de outros que trabalhavam como tradutores para a Livraria do Globo, intermediados por Maurício Rosenblatt, posteriormente organizador da Feira do Livro de Porto Alegre. Também convivi com Herbert Karo, que se permitia conversar comigo e me apresentou a Thomas Mann, do qual ele foi um magnífico tradutor. Minha estada em Porto Alegre deu-me as vacinas que impediram que ficasse um boboca ignorante das riquezas de meu povo. Na Alemanha, minhas fontes constantes foram Goethe, Shakespeare e Rainer Maria Rilke, aos quais sou fiel até a “hora de nossa morte”. Foi, entretanto, nessa época que conheci o imenso talento de Federico Garcia Lorca, seu trágico destino que os esbirros da ignorância e do machismo podaram tão antes de tudo que ele poderia nos ter dado de beleza.

O que está lendo no momento e de que forma seleciona suas leituras, diante de tantas possibilidades e da avalanche de edições de livros no Brasil?

Júlio – Ao voltar para o Brasil, em 1958, fui para as obras da futura capital do Brasil, trabalhar com a Novacap, a empresa que estava supervisionando a construção da nova capital do Brasil, onde fiquei até 1968. Nesse período percorri o estado de Goiás e mergulhei nas raízes da brasilidade central e na mineira, com sua rica tradição literária. Ler apura o faro literário e humano. Estou relendo os catarinenses, mais uma vez me deliciando com a “Bulha d’arroio”, de Tito Carvalho.

Num tempo de tantos apelos (na mídia, na internet), como vê a relação dos jovens de hoje com os livros e a leitura?

Júlio – Há muito tempo, num encontro com alunos de um cursinho pré-vestibular no qual eu acompanhava o poeta Alcides Buss, nos perguntaram como é que víamos o empobrecimento literário atual. Tomando a palavra, Alcides de uma resposta magistral. Achava ele que uma certa pobreza cultural generalizada servia de adubo para, de repente, surgir um bom poeta. Fiquei fascinado com a sabedoria ensinada. Dessa palestra, entre aqueles alunos que pareciam tão alheios, ou quando muito preocupados em ser aprovados, frequentar um curso de carreiras bem remuneradas e tchau, mesmo, um deles me procurou para conversar. Conversamos. É ele hoje um respeitável intelectual, com suas crônicas semanais publicadas no jornal Diário Catarinense.

Também um outro, garotão, que estava descobrindo os meandros do erotismo, é hoje um jovem poeta de grande qualidade intelectual, verbal e vencedor em vários concursos de poemas. É preciso que a gente se dê conta de que em nenhuma época da história humana toda sua população foi dedicada às artes ou à intelectualidade. O fato de ser assim hoje não é uma exceção aviltante, e sim a regra.

Com a possibilidade de acessar a leitura por meio de outros suportes, estaria o livro, de alguma forma ameaçado?

Júlio – O que importa é a mensagem e não o mensageiro. É muito possível que algum saudosista da Mesopotâmia, há uns cinco mil anos, tenha lamentado a decadência da escrita cuneiforme diante de tantos desenhos nos hieróglifos egípcios. E que estes também tivessem olhado com descaso para a decadência da escrita semita. Certamente algum ateniense conservador deve ter considerado o alfabeto romano muito grosseiro. E posso imaginar o ar contristado de um monge diante das primeiras experiências da impressão em papel. Nasci numa cidadezinha do estado do Espírito Santo. Nas férias escolares da minha infância,quando as finanças domésticas o permitiam, minha mãe viajava conosco, seus filhos, para a casa de meus avós. Na hora de voltar para o Rio de Janeiro, várias famílias entregavam à minha mãe cartas para seus familiares também vivendo na capital. De trem, a viagem entre as duas cidades durava 20 horas. Mas, mesmo assim, elas ainda eram entregues muito antes do que se dependessem do correio postal. Hoje sento-me diante do computador e mando uma mensagem instantânea para meus amigos em vários países. O livro vai se adaptar aos novos tempos e seus meios de comunicação.

Há um texto em que você lamenta a pouca importância da poesia na vida das pessoas, menor do que a do conto e do romance, por exemplo. Como é para um poeta lidar com essa constatação?

Júlio – Não creio que a poesia esteja sendo protelada em favor do conto ou do romance. Creio que a poesia que não é mais favorecida é aquela que copia servilmente a linguagem pernóstica e rebuscada do Romantismo para expressar sentimentos que, de todo modo, ninguém sentia. Há alguns anos, vinha eu pela rua Conselheiro Mafra, quando uma mocinha me atalhou o caminho, perguntando-me se eu era Júlio de Queiroz. Disse que sim. Afirmou que gostava muito de um poema meu. E ato continuou o recitou ali mesmo. É bem verdade que era um poeminha de três versos, ou seja, linhas. Seja poema, seja conto, se o texto der o recado sem mentiras, ele fica.

Por Paulo Clóvis Schmitz/jornalista na Agecom

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