Museu do século XXI não é para turista, mas para comunidade

29/11/2011 17:59
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Vicenzo Padiglione: "museu contemporâneo está mudando sua identidade e revolucionando nossas concepções sobre patrimônio” Fotos: Wagner Behr/ Agecom

Antropólogo e professor italiano defende que museus deixem de ser instituições onde se guarda o pó do passado para refletirem o patrimônio da contemporaneidade

 

É preciso abandonar tudo que guardamos no imaginário sobre os museus para poder compreender qual é sua missão no Século XXI. Essa velha instituição que remonta a Idade Média chegou ao Terceiro Milênio completamente transformada: não é mais lugar de pó e velharia, não é mais uma redoma de vidro onde se isola o patrimônio etnográfico da cultura que lhe deu origem e não é mais lugar apenas para ver. “O museu contemporâneo está mudando sua identidade e revolucionando nossas concepções sobre patrimônio”, afirmou o antropólogo e museólogo italiano Vicenzo Padiglione, que na tarde de segunda (28/11) falou sobre patrimônio cultural nas comunidades aos participantes da última conferência do Projeto Museu em Curso, no auditório do Museu Universitário Oswaldo Rodrigues Cabral.

 

As mudanças anunciadas pelo professor da Sapienza Università di Roma reservam ainda uma quarta novidade: as instituições museológicas não devem ser mais concebidas, projetadas e administradas para agradar turistas, preferencialmente, mas devem estar voltadas para a comunidade em torno. Em suma, tudo o que acreditávamos definir um museu como um depósito de coisas antigas que merecem ser conservadas é precisamente o que ele não é mais. Mas então o que é o museu para essas novas correntes antropológicas que norteiam o trabalho atual do Museu da UFSC?

 

O professor Padiglioni resume a resposta a essa questão em quatro pontos: uma instituição que está ligada ao tempo presente e não mais ao passado; que promove a identidade essencialmente impura e plural das culturas; que convida o visitante não apenas a ver, mas a refletir sobre seus próprios hábitos de vida e, por último, que compreende os objetos museais a partir do seu vínculo estreito com a comunidade-território de onde se originam, em vez de expô-los como representação fetichizada dessas comunidades. Hoje, as instituições orientadas por essas novas ideias, estão se propondo a repatriar esses objetos, devolvendo-os a suas etnias para que seu uso e significado simbólico seja restabelecido ou propondo reflexões críticas sobre a representação que as sociedades ocidentais têm feito desses bens culturais.

 

Curador de sete pequenos museus, e tendo ocupado o cargo de presidente da Associação Profissional dos Antropólogos de Museus, na Itália, Padiglioni trouxe várias ilustrações de projetos empreendidos por ele que colocam em prática a nova filosofia. Mostrou como exemplo uma grande foto dos habitantes da comunidade no centro de uma província a 130 km de Roma, ao lado de seus marcos naturais e urbanos mais importantes. Refeita depois de 15 anos, a foto afixada no museu local, teve um impacto muito forte na comunidade, ajudando a reavivar a instituição e fazendo-a perceber como lugar de preservação da memória contemporânea.

 

Outro exemplo que ilustrou com imagens foi o da reconstituição do quarto de pessoas idosas, incluindo objetos, vestuário, mobiliário e cenas que revelam hábitos e modos de viver. Não podemos mais pensar no museu como lugar empoeirado ou cemitério de velharia, tampouco que seja feito para turistas. “Isso foi um erro do passado: o museu é para os moradores do lugar”. Agora se pensa e se projeta museus para o desenvolvimento da sociedade local, para a promoção da economia, da cultura, para criar lugar de socialização e não para mostrar aos turistas as provas da cultura local, argumenta. O museu também se torna um lugar chave das políticas culturais que exigem um posicionamento político e impossibilitam a neutralidade, acentua o teórico. Sua ênfase não é mais visual, mas reflexiva: o crescente sucesso dos museus mostra que é preciso refletir sobre a sua própria ação de construir e desconstruir patrimônios, elegendo-os ou não como preserváveis e ainda desconstruir noções como tradição, memória, patrimônio e história.

 

Texto: Raquel Wandelli, Jornalista na SeCArte/UFSC
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