Museu Universitário identifica e analisa componentes químicos na pintura de obras de Cascaes

13/04/2011 12:09

Fotos: Paulo Noronha

A análise das camadas pictóricas que revestem esculturas feitas em argila por Franklin Cascaes é o objetivo de um trabalho que vem sendo realizado esta semana por uma equipe da Universidade Estadual de Londrina (UEL) no Museu Universitário Prof. Oswaldo Rodrigues Cabral, na UFSC. A partir do uso de equipamentos avançados de identificação de elementos químicos que fazem parte das amostras, técnicos do Laboratório de Física Nuclear Aplicada da UEL vão permitir que o museu estabeleça os melhores parâmetros para a conservação das peças. Cerca de 500 esculturas de Cascaes, 350 delas em argila, fazem parte do acervo do Museu Universitário.

A cooperação científica entre as duas instituições foi um desdobramento dos estudos da mestranda Vanilde Rohling Ghizoni, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PósArq), que vem trabalhando em cima de figuras humanas esculpidas por Cascaes do final dos anos 40 ao início da década de 80. “Por meio da análise técnica, poderemos identificar os componentes químicos e dimensionar a sua sensibilidade a elementos como umidade e temperatura, facilitando a conservação”, diz a mestranda. “Este é um trabalho inédito sobre o legado de Cascaes, que tem mais de 1.700 obras tombadas no acervo da UFSC”, completa.

O fato de usar as técnicas de fluorescência de raios-X e espectroscopia Raman, que utilizam fontes de radiação gama, faz com que a intervenção seja do tipo “não destrutiva”, porque não exige a retirada de um pedaço da obra para a análise. A primeira técnica consiste em identificar os elementos químicos que fazem parte da policromia da amostra. “Isso facilitará a escolha do tratamento adequado para uma eventual restauração”, afirma o físico Paulo Sérgio Parreira, do Laboratório de Física Nuclear Aplicada da UEL. Já o Raman é um feixe de laser que, ao bater no pigmento, recebe uma resposta de energia que faculta a identificação do composto molecular da tinta usada na obra.

Bom conceito – O professor Paulo Sérgio Parreira, que desde segunda-feira trabalha no museu ao lado de Fábio Lopes, do programa de pós-doutorado em Física da UEL, e do mestrando Eduardo Inocente Jussiani, explica que o fato de usar equipamentos portáteis facilita o deslocamento até o local onde se encontra a obra a ser analisada. “Este modelo é usado em diferentes situações e, pelas suas características, facilita as ações de campo, como o estudo de pinturas rupestres”, afirma. “O sistema é muito prático e nos permitiu, por exemplo, trabalhar em igrejas com pintura mural necessitando de restauração, em vários estados brasileiros”, conta.

Parreira informa que o laboratório já firmou termos de cooperação técnica com o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, com o Museu de Arte de São Paulo (onde foi restaurada, em parceria com o Louvre, a obra “Hymeneus Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo”, pintado entre 1634 e 1638 pelo francês Nicolas Poussin) e com o Museu de História Nacional, no Rio de Janeiro (onde foi restaurada uma coleção de moedas de ouro e prata do Brasil colônia).

Blocos de pedra – A mestranda Vanilde Ghizoni explica que Franklin Cascaes não costumava queimar as peças que fazia e usava tintas baratas, em vista do custo, como deu a entender nos cadernos manuscritos que deixou. “Professor da antiga Escola Industrial, ele trabalhou muito com gesso, a partir de formas de argila, mas abandonou esse processo porque elaborava peças únicas e o gesso, na sua opinião, perdia detalhes que ele considerava importantes”, conta ela. O vínculo estreito que mantinha com os oleiros de São José, junto aos quais se criou, também pesou na decisão de dedicar-se ao artesanato com barro, uma forte tradição na região da Grande Florianópolis.

Como muitos artesãos, Cascaes trabalhava sobre blocos de pedra, cujas camadas removia com instrumentos até chegar ao resultado final. Sem cozimento, no entanto, as peças ficam mais vulneráveis a fraturas e ao desgaste do material.

Os apoios – O Museu Universitário terá novas instalações nos próximos meses, e é importante que as peças a serem expostas estejam num espaço com a mesma temperatura da área de armazenamento, onde a climatização protege as obras. “A análise feita pela UEL é importante, porque ainda não conhecemos o comportamento da argila e como se pode fazer a melhor conservação das esculturas”, afirma Vanilde. As peças foram restauradas entre 2004 e 2005, mas sem conhecer as características da pintura há sempre o risco de perdas do material original.

Vanilde Ghizoni, que está desde 2003 no Museu Universitário, deve concluir seu mestrado em meados deste ano e informa que muitos projetos foram desenvolvidos ali graças à participação em editais nacionais.

O projeto de Vanilde tem o apoio da Secretaria de Cultura e Arte (SecArte), Museu Universitário e PósArq. Antes de começar a análise das peças, houve palestras com ela e com o físico Paulo Sérgio Parreira, da UEL, com entrada franca, na última segunda-feira, dia 11, no Museu Universitário.

Mais informações no Museu Universitário Prof. Oswaldo Rodrigues Cabral, pelo fone (48) 3721-8821.

Por Paulo Clóvis Schmitz/ Jornalista na Agecom

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