Alan Pauls desvenda no sotaque a lógica da ficção contemporânea

17/06/2010 13:23

O conferencista: ensaio em elogio ao sotaque

O conferencista: ensaio em elogio ao sotaque

A única possibilidade de afirmar uma identidade nacional é enfrentar-se com a monstruosidade da escritura, pois o característico não escapa ao híbrido, ao falar na língua do outro com sotaque próprio, à mistura suja, ao contágio, enfim. Com uma fala permeada de metáforas, referências históricas e exemplos de vida, Alan Pauls definiu mais ou menos assim o desafio de ser um escritor argentino hoje dialogando o contemporâneo e uma tradição literária universal que inclui Borges, Bolaño, Alan Poe e toda cultura erudita e populacha. Elogio do Sotaque, sua conferência no ciclo “O pensamento do século XXI” lotou o auditório da Reitoria na noite de segunda-feira, 14, e já anunciou a próxima conferência do dia 1° de julho, às 18h30min, no Centro de Cultura e Eventos, quando o igualmente aclamado escritor e cineasta Edgardo Cozarinsky falará sobre o tema Elogio da Contaminação.

A coincidência temática nos títulos das palestras, propostos casualmente pelos autores convidados, não passou despercebida pelo professor e crítico literário Raul Antelo, consultor do ciclo. Ao apresentar o autor do romance O Passado e homenageá-lo com um ensaio acerca de sua obra, Antelo observou no debate da síndrome do contágio um movimento da literatura e do pensamento do presente, em que “a imagem, ou, em outras palavras, o contato dos corpos, das línguas, ou seja, a linguagem sem mais, passa a ser mais poderosa do que os próprios sujeitos que ela põe em relação”.

Autor do celebrado História do Pranto, volume de uma trilogia parcialmente traduzida no Brasil pela Cosac Naif, Pauls partiu do exemplo de músicos estrangeiros populares dos anos 60 e 70 que cantavam sempre em castelhano toda vez que pisavam na Argentina para construir seu primoroso ensaio em elogio ao sotaque como condição de “estrangeiridade” inalienável do artista contemporâneo. A leitura, em espanhol, foi entremeada por trechos de canções de Roberto Carlos cantarolados em castelhano por esse nascido argentino de sobrenome alemão:

— Ése era el ecosistema de la joven industria mediática donde nadaban como peces en el agua los Roberto Carlos, los Nicola di Bari, las Ornella Vannoni, los Salvatore Adamo. Cantantes extranjeros, como dije, pero habría que precisar: extranjeros sui generis. Porque la extranjería — que para la cultura de clase media argentina era un mito ávido, permisivo, casi siempre acrítico — en ellos era menos un signo de prestigio que una condición accidental, una marca más o menos arbitraria y sospechosa, casi una suerte de impostura.

Público acompanha Ciclo Pensamento do Século XXI

Público acompanha Ciclo Pensamento do Século XXI

Em vez do apagamento da diferença, da reivindicação do purismo clássico, da identidade fixa ou de uma nacionalidade fingidamente natural, Pauls propôs a potencialização do falso, o lugar do rumor, do barulho das línguas, inclusive como saída para o impasse da tradução. “Só assim, através de um acento, de sua vibração e do estremecimento que contagia tudo sobre o que cai, distraindo o sentido de seu destino de obviedade, posso imaginar sem temor algo parecido com uma identidade, em particular uma identidade argentina”.

Por potencialização do falso como estratégia alternativa à ilusão de real, Antelo definiu “uma espécie de equilíbrio ou de restabelecimento do equilíbrio, um processo de restituição que permite a uma sociedade, nos limites do cinismo, esconder o que ela delibera ocultar, mostrar apenas o que ela quer exibir, negar a evidência mais chocante e proclamar, aos quatro ventos, o inverossímil”. Leitor e admirador de obras dos brasileiros Gilberto Noll, e Sérgio Sant´Anna, Pauls, afirmou que se há algo capaz de neutralizar o despotismo que parece nos condenar ao paradigma da identidade é o sotaque como a marca da diferença e da fricção. Cantarola Roberto Carlos e explica que enquanto canta inicia-se ele mesmo nessa espécie de língua pífia, como a que escutava dos cantores estrangeiros, que não era italiano, não era castelhano, nem argentino, mas simplesmente una língua mal impressa, “fora de registro”, suja, uma língua, diz o escritor, talhada desde dentro por outra língua. “Una lengua, digamos, “afantasmada”.

— El acento es para mí el antídoto contra las radiaciones más amenazantes del “ser argentino”: la naturalidad (o más bien cierta capacidad de autonaturalización), la inmediatez, la voluntad de imposición, el estereotipo, la generalidad, la imprecisión. En otras palabras, veo el acento como el instrumento, y quizás el arte, de una utopía: la de establecer con la identidad —con ese sistema de obviedades que es siempre una identidad— la misma relación de “sutileza” que el acento italiano, o carioca, o francés, me permitía establecer hace cerca de cuarenta años, sentado ante un televisor blanco y negro con fantasma, a la vez con mi propia lengua y con un mundo de verdades y valores completamente cristalizados, transparentes, irresistibles, llamado “canción romántica”. Pensaba, por ejemplo: “Esto que estoy escuchando no está bien“.

Em seu ensaio A causerie do Zumbi (em francês casos ou causos), Antelo aponta uma aproximação da obra de Pauls com as do chileno Roberto Bolaño, Borges e Edgard Allan Poe enquanto escritas póstumas, no sentido machadiano de que são autores examinando o passado e o presente com o olhar funesto de quem vive o futuro dos homens mortos. Ao analisar a trilogia das Histórias de Pauls — História do Pranto(2008), História do Cabelo (2010) e o apenas anunciado História do Dinheiro — propõe para essa literatura a categoria zumbi por se tratar de um livro póstumo de autor vivo. Valendo-se dessa metáfora, Antelo confere à trilogia a mesma projeção que Pauls deu à obra de Bolaño, quando lhe exaltou a “modulação distante, como que velada, ao mesmo tempo fúnebre e feliz, próxima e impossível” de uma ficção científica na qual os mortos falam como profetas de um tempo.

Em sua incursão arqueológica pela literatura desde o golpe militar na Argentina, Antelo anuncia que Pauls estaria desvendando a lógica da ficção — a dele, a de Bolaño e a do século XXI. “A escrita de Alan sofre sempre uma torsão, uma relação de força, entre o passado e o presente, e mostra também que, para o escritor, o tempo não pode mais se inscrever na linearidade inequívoca da vivência, nem na lógica de uma simples rememoração, mas deve postular, para ser rigorosamente contemporâneo, a problemática sobrevivência do passado, numa potencializada tela projetiva (…), aquilo que a teoria francesa cunhou como escritura.”

A propósito da imersão no passado, o vencedor do prêmio Herralde, um dos mais importantes em língua espanhola, não aprovou inteiramente a adaptação de seu romance O Passado (1996), levado ao cinema por Hector Babenco. Gostou da atuação da atriz Anália Couceyro na personagem Sofia, mas desaprovou o compromisso do diretor com a narrativa linear. “Não se tratava tanto de contar uma história, mas de criar o ambiente em que o passado converteu-se no pesadelo de um casal na tentativa de se separar”. A “pareja” Rimini e Sofia já anunciava os personagens fantasmagóricos de uma sociedade zumbi que desfilam nas obras futuras – ou passadas.

Por Raquel Wandelli/jornalista na Secarte. Contatos: (48) 9911-0524 – 3721-9459,,