Cineastas de Moçambique falam sobre Aids, pobreza e cultura africana

26/05/2009 18:43

Com o objetivo de ampliar o olhar sobre os problemas socioculturais relacionados à Aids, a UFSC sediou nos dias 18 e 19 de maio o ciclo África Contemporânea. As discussões foram realizadas a partir do cinema produzido em Moçambique. O evento contou com a presença de renomados cineastas moçambicanos, como Isabel Noronha e Camilo de Sousa.

Camilo de Sousa é produtor de cinema em Moçambique e participou da produção de filmes como o premiado Hóspede da Noite, dirigido por Licínio Azevedo, e da Trilogia das Novas Famílias, dirigido por Isabel Noronha.

Isabel Noronha é, além de diretora de cinema, professora da Universidade Politécnica de Moçambique. Em 2008, faturou o prêmio Kuxa-Kanema com a Trilogia das Novas Famílias. O filme foi exibido no ciclo África Contemporânea.

Em um encontro informal, os cineastas receberam a equipe da Agecom e concederam entrevista tratando de temas como a Aids, a visão equivocada que se tem da África e de que maneira o cinema pode interferir no comportamento da sociedade dos países africanos.

Isabel: cinema como forma de conscientizar

Isabel: cinema como forma de conscientizar

Agecom – Isabel, você é conhecida por produzir filmes que tratam de temas como a Aids na África. Como é poder estar em Florianópolis discutindo o tema com pensadores brasileiros?

Isabel Noronha – Este ciclo foi pensado inicialmente a partir da importância da Aids em Moçambique. No entanto, acabou se expandindo e tive a oportunidade de apresentar outros filmes. Muitos tratam da situação de crianças que perderam suas famílias devido à disseminação da epidemia da Aids. A questão da desestruturação familiar é muito evidente e preocupante na África. É importante que o mundo tenha consciência dessa situação e um encontro como esse pode ser um belo começo. Durante as discussões, percebi que as pessoas estão interessadas em entender a África e mudar a concepção de que somos “uma coisa só”. Na verdade somo inúmeros países com inúmeras culturas distintas.

Agecom – Na sua opinião, o que é necessário para conseguir uma mudança na atual situação do continente africano em relação à Aids e à pobreza em geral?

Isabel Noronha – O mais importante é ter consciência das coisas. As pessoas tendem a passar de lado questões importantes e preferem fingir que certas coisas não existem. O cinema é uma forma de assumir uma posição e mostrar que é preciso ter consciência, primeiramente, para poder enfrentar os problemas.

Agecom –A África vem enfrentando o problema da Aids há décadas e parece não haver uma grande mudança na situação. Por isso acontece?

Isabel Noronha – Bom, essa é uma questão importante. Em Moçambique e na África em geral, há todo um discurso de prevenção que vem sendo transportado de outros lugares há uns dez anos, mas que já mostraram não surtir efeitos na contenção do problema. Não se nota uma queda no número de pessoas contaminadas pela doença.

Agecom – E por que discursos que deram certo em outros países não conseguem se mostrar eficientes em Moçambique, por exemplo?

Isabel Noronha – Porque as mensagens não são culturalmente apropriadas às crenças e aos valores das pessoas a que se dirigem. Em termos de pesquisa, é preciso fazer muito mais para perceber quais são os elementos culturais de base que poderiam ser integrados nas mensagens de prevenção e acionados no sentido de buscar a mudança de comportamento da população.

Agecom – Você acha que o continente africano ainda se encontra muito distante de uma melhora na condição de vida, na saúde e, principalmente, na mudança de comportamento da população?

Isabel Noronha – O comportamento não vai ser mudado de uma hora para outra. Por baixo do comportamento, estão atitudes e por baixo das atitudes, estão crenças e valores. É fundamental atuar usando essas crenças e valores que existem em relação à saúde e em relação ao valor da própria vida, que é uma coisa complexa em um país que saiu de uma guerra civil há tão pouco tempo. Digo isso na medida em que muitas pessoas acabam tendo o pensamento de que a morte é inevitável. Pensam que se não morrerem de Aids, morrerão de malária ou alguma outra doença. O valor da vida precisa ser encontrado nas crenças mais profundas e não em slogans e chavões que são trazidos de outros lugares, e podem até ter resultado lá, mas que não se apropriam ao contexto cultural de nosso continente.

Agecom – E de que maneira o cinema pode ajudar a passar essas mensagens de forma apropriada ao contexto cultura?

Isabel Noronha – Penso que o cinema é a melhor forma de passar isso às pessoas, pois não usa apenas de um discurso cognitivo e racional mas, sobretudo, de um discurso emocional. O cinema consegue fazer o casamento dessas duas coisas melhor do que qualquer outro meio. No fundo, não se trata de convencer as pessoas, mas sim tocá-las pelo aspecto humano.

Camilo: as pessoas idealizam uma África que não existe

Camilo: as pessoas idealizam uma África que não existe

Camilo de Sousa

Agecom – Camilo, você já trabalha há um bom tempo com cinema e já participou de vários filmes consagrados. Qual a importância de participar de um evento como este?

Camilo de Sousa – É fundamental haver eventos que tratam de assuntos de extrema relevância na África e no mundo todo. A questão da Aids, por exemplo, precisa ser falada sempre e cada vez mais, e aqui tivemos essa oportunidade.

Agecom – O seu filme foi um dos poucos que não tratavam sobre a Aids em Moçambique. Por que essa diferenciação e qual era o tema principal da sua produção?

Camilo de Sousa – Realmente o meu filme fugiu um pouco da questão da Aids e da pobreza. É um filme que trata das diferentes culturas que existem em meu país. Moçambique é independente desde 1975, e por isso se tornou um país feito de várias nações, com línguas e culturas completamente diferentes. Dentro do país, existem pessoas que não entendem umas às outras. Por exemplo, se eu saio do sul de Moçambique e vou para o norte, preciso de um intérprete, caso contrário não entenderei absolutamente nada. Então o filme é basicamente sobre isso: as diversidades e a busca de uma identidade que está a ser construída.

Agecom – As pessoas tendem a achar que a África é uma só e que todos os países têm os mesmos costumes e tradições. Como analisa essa questão

Camilo de Sousa – Percebi esse pensamento em várias situações. As pessoas idealizam uma África, mas a África real é outra. Onde eu vivo, cada país tem os seus próprios problemas, suas contradições, seus conflitos e suas culturas. Temos que repensar a África, como ela é de verdade. A África contemporânea é bem diferente de séculos atrás e as pessoas precisam entender isso, informando-se de várias formas, e uma delas é através do cinema.

Agecom – E de que forma o cinema auxilia nessa compreensão?

Camilo de Sousa – Ajuda de várias formas. O cinema é a única manifestação da arte que, dialeticamente, engloba todas as outras manifestações artísticas, envolvendo teatro, arquitetura, pintura, escultura, música. Os historiadores e escritores zangam-se comigo quando digo que o trabalho deles é importante, mas que não conseguem chegar àquilo que nós fazemos. Pode-se escrever e falar o que quiser e quantas vezes quiser, mas o cinema mostra as coisas como elas são e por isso alcança maiores expressões.

Por Tiago Pereira/ Bolsista de Jornalismo na Agecom

Fotos: Paulo Noronha/ Agecom

Leia mais sobre o Ciclo África Contemporânea.