Projeto do curso de Psicologia da UFSC acolhe imigrantes e refugiados

30/05/2018 07:55

Segundo o relatório “Refúgio em números”, divulgado pela Secretaria Nacional da Justiça, o Brasil teve 33.866 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado em 2017. Destes, 17.865 vieram de Venezuela, seguidos de Cuba (2.373) e Haiti (2.362). Em comparação com 2016, o número foi duas vezes maior, o que evidencia o crescimento acentuado de migrações para o país no último ano. Essas pessoas, além de fugirem de perseguições, precisam lidar com adaptações sócio-culturais no local de chegada. Devido ao acúmulo desses fatores, elas possuem grandes chances de desenvolverem quadros graves de estresse, gerando uma crise coletiva de saúde mental.

A fim de prestar ajuda a tal perfil e a imigrantes no geral, o curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio do Núcleo de Estudos sobre Psicologia, Migrações e Culturas (NEMPsiC), oferece o serviço da Clínica Intercultural, espaço de escuta sensível ao encontro de culturas distintas.

O projeto 

Criado em 2012, pela professora Lucienne Borges, a Clínica Intercultural é a adaptação de um método clínico desenvolvido no Canadá, em 2000, no qual Lucienne também foi uma das fundadoras. Baseada em co-terapia intercultural, a clínica atende estrangeiros que sofrem de estresse psicológico ou estresse pós-traumático. Este segundo, mais presente em casos de migrações forçadas. Lucienne explica que o estresse pós-traumático é recorrente entre refugiados pois são pessoas que foram obrigadas a sair de seus países, por conta de eventos traumáticos como guerra, genocídio, tortura e conflitos étnicos.

Sala de atendimento da Clínica Intercultural. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

De acordo com um relatório produzido pela equipe, o projeto já atendeu 72 pacientes, de 23 nacionalidades diferentes (como Alemanha, Angola, Argentina, Estados Unidos, Haiti, Cabo Verde, Síria e Moçambique). A média de idade dos pacientes é de 29 anos, e a maioria é do sexo feminino. Quanto à esfera econômica, predominam  pessoas de baixa renda, inclusive alguns moradores de rua.

Ainda segundo Lucienne, a equipe conta com 11 membros, entre alunos da graduação, pós-graduação e psicólogos. Atualmente a clínica atende cerca de 20 estrangeiros.

Como funciona o atendimento?

A terapia é composta por seis co-terapeutas, um co-terapeuta principal e o terapeuta principal. Na primeira sessão, o paciente precisa estar acompanhado da pessoa que o levou até clínica. Esse acompanhamento geralmente é feito por profissionais da Secretaria de Relações Internacionais (SINTER) da UFSC ou do Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante (CRAI), localizado no Centro de Florianópolis. Também há um intérprete, caso necessário. Cada paciente tem, em média, 16 sessões de atendimento, sendo uma por semana, sempre com a mesma equipe. O tempo de tratamento pode durar mais, caso seja acordado entre o terapeuta principal e a coordenadora Lucienne.

O trabalho é realizado na sala do Serviço de Atenção Psicológica (SAPSI), localizado no 2° andar do bloco D do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH). O atendimento é gratuito e aberto à comunidade.

Funções:

Co-terapeutas e co-terapeuta principal: acompanham o atendimento e se comunicam somente com o terapeuta principal.

Terapeuta principal: responsável por se comunicar diretamente com o paciente.

Mesa para objetos: é o local onde o paciente pode deixar objetos íntimos, como retratos, a fim de se apresentar aos terapeutas.

Intérprete: responsável por traduzir o idioma e a cultura.

Por que é necessário “traduzir” a cultura?

De acordo com Lucienne, o processo de atendimento é baseado no modelo étnico psiquiatria, no qual diz que cada indivíduo cresce e se constitui dentro de dada cultura. Desse modo, a cultura não é apenas música ou folclore, é o que está nas entranhas do ser, definindo como nós nos cumprimentamos, os rituais de filiação e, inclusive, a forma como o sujeito sofre. Há uma codificação social do sujeito. No Brasil, por exemplo, é comum chorar em público. No Canadá, as pessoas choram escondido. Logo, quando o imigrante vai para outro país, é como um peixe fora da água. Em alguns casos, é necessário a presença do interprete cultural durante o diálogo.

Dispositivo aplicado nos atendimentos da Clínica Intercultural.

Impacto na graduação 

Ana Sofia Guerra, 30 anos, é estudante da 10° fase do curso de Psicologia da UFSC. Estagiária da Clínica Intercultural, ela conta como conheceu e entrou para o projeto:”No curso temos todo semestre, desde a primeira fase, práticas e pesquisas orientadas. Na quinta fase fazemos uma observação em algum espaço e na sexta fizemos uma pesquisa de campo, participativa. Nesse período, entrei para o NEMPsiC, a fim de observar e participar de atendimentos na clínica. E agora, em 2018, sou estagiária.”

Dentro do dispositivo, a graduanda atua como co-terapeuta e terapeuta principal. Nesta segunda função, ela atende, no momento, dois pacientes. Semanalmente, ela se reúne com Lucienne para orientações. “Na conversa decidimos se há ou não a real necessidade da continuidade de tratamento de dado paciente, pois como prestamos um serviço público, com fila de espera, trabalhamos com muita seriedade e cuidado”, explica.

Ana Sofia também ressalta o aprendizado durante a participação no projeto: “É um espaço onde prezamos a alteridade, sempre pensando nas diferenças do paciente e como respeitá-las. Aprendemos muito sobre essa escuta ao outro, que muitas vezes é invisibilizado pela sociedade. Então fico pensando na população imigrante no Brasil, com todas suas dificuldades. Participar desses atendimentos, pensando em recursos que elas possam ter para seguir suas vidas com menos sofrimento é algo muito bonito. Elas chegam aqui em circunstâncias difíceis, de muita dor, e saem com mais recursos.”

A estudante expôs uma de suas preocupações com o futuro da clínica: “Prezo muito pelo atendimento a pessoas que estão em vulnerabilidade, pensando principalmente na integração delas na sociedade. Os venezuelanos estão chegando ao Brasil e, provavelmente, chegarão em Florianópolis. Então já estamos pensando em como acolhê-los.”

Glossário

Imigrante: indivíduo que sai de seu país de origem e vai para outro.

Refugiado: categoria de imigrante, que deixa o seu país de origem ou de residência habitual devido a fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas.

Dispositivo: organização física do espaço destinado ao atendimento.

Alan Christian /estagiário de Jornalismo da Agecom/UFSC