Pesquisa inédita faz diagnóstico nacional de avanços e desafios no sistema de cotas brasileiro

14/05/2018 14:49

Joana Celia dos Passos, professora da UFSC. Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC

‘Enquanto o couro do chicote cortava a carne

A dor metabolizada fortificava o caráter

A colônia produziu muito mais que cativos

Fez heroínas que pra não gerar escravos, matavam os filhos

Não fomos vencidas pela anulação social

Sobrevivemos à ausência na novela, e no comercial

O sistema pode até me transformar em empregada

Mas não pode me fazer raciocinar como criada’

A música ‘Mulheres Negras’ de Yzalú foi recitada pela professora da UFSC Joana Celia dos Passos, na abertura do seminário de socialização da pesquisa nacional ‘Trajetórias de cotistas no ensino superior’. O timbre forte da sua voz ‘depositado’ na leitura do poema mostrou a importância do momento. No segundo dia do evento, sexta-feira, 11 de maio, representantes de instituições públicas federais e estaduais de ensino apresentaram os achados da pesquisa desenvolvida em 14 meses em todo o território nacional, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH).

Com o objetivo de analisar o caminho e o impacto das ações afirmativas na vida acadêmica dos estudantes cotistas negros, indígenas e quilombolas, cada uma das regiões trouxe à socialização pública depoimentos sobre ingresso, permanência, problemas psicológicos, falta de identificação, discurso de inferioridade dos cotistas e dificuldades enfrentadas por esses estudantes graduados em universidades do Sul, Sudeste, Nordeste I, Nordeste II, Norte e Centro-Oeste.

O estudo é resultado de uma pesquisa financiada pelo Ministério da Educação (MEC) e que, dentro de 60 dias, receberá o relatório final com diagnóstico e recomendações (ao órgão interessado e às IES) como forma de aprimorar determinadas políticas e construir espaços de acolhimento aos estudantes. O diagnóstico permitiu ao grupo construir um mosaico que mostra a dimensão da variabilidade das regiões, o quanto se caminhou e qual a distância que ainda se precisa caminhar.

Segundo Rodrigo Ednilson de Jesus, coordenador nacional da pesquisa, o relatório trará dados, notícias, referências bibliográficas e informações primárias que poderão fomentar outros estudos sobre a trajetória desses estudantes por meio das ações afirmativas. “É a primeira pesquisa com um olhar mais ampliado à trajetória e à institucionalidade das cotas no território nacional. Os achados mostram que a nova política cria uma guinada no número de estudantes pretos, pardos e indígenas dentro das universidades e isso muda a cara e os corpos desses espaços. Isso altera a história de vida dos estudantes, das famílias, das comunidades, mas também cria fissuras na dinâmica das universidades”, explica ele.

Neste contexto, os pesquisadores identificaram que os currículos precisam ser revistos, que novos cursos são implantados e, por isso, o comportamento do corpo acadêmico é alterado nos espaços universitários.

De acordo com Joana, o recorte pelo universo de pesquisa se dá justamente pela vulnerabilidade desses estudantes no acesso ao ensino superior e às dificuldades nas universidades por conta do racismo institucionalizado. “O racismo está presente em sala de aula, no espaço acadêmico, no currículo pela ausência de conteúdos que discutam a questões raciais, pelas resistências, por isso temos esse olhar: em que medidas as ações afirmativas possibilitaram que esses sujeitos sejam, de fato, integralmente considerados estudantes como qualquer outro estudante acadêmico?”, questiona ela.

O grupo de estudos avalia que o impacto em relação às cotas para estudantes negros e indígenas no ensino superior é positivo e favorável porque gera movimento para além do ingresso desses sujeitos. “Para nós refletir sobre as trajetórias é refletir sobre esse movimento que é histórico em que a universidade tem sido pressionada a olhar para dentro de si e pensar sobre si. Pensar a ação afirmativa só no vetor daquilo que impacta os estudantes é pensar a universidade como um espaço neutro e estático; mas certamente a entrada de contingente de estudantes negros e indígenas, não só com os seus corpos, mas com seus cabelos, seus turbantes, seus saberes, altere e tencione a universidade por dentro e isso, além de ser o nosso princípio político, tem sido a nossa constatação teórica”, salienta Rodrigo.

Realidade na UFSC

Para os pesquisadores as cotas são fundamentais na reconstrução do projeto de sociedade brasileira a partir das universidades. Na UFSC, as ações afirmativas iniciaram em 2008 e se destaca a produção de pesquisas sobre essa realidade no Sul do país.

Para a professora Joana os impactos em relação às cotas são positivos e favoráveis. “A universidade, ao receber esses sujeitos, também precisou se adequar porque eles não eram esperados, a história da universidade brasileira não foi construída para esses públicos. Temos uma inserção positiva na UFSC, mesmo que em determinados cursos não tenhamos conseguido suprir o número de vagas. A grande novidade que trazemos nacionalmente são as vagas suplementares, que permite a qualquer estudante negro ou indígena, independente do tipo de escola, o acesso à universidade”, frisa ela.

Rodrigo reforça que as políticas não têm impacto apenas no desempenho, mas também nas expectativas na continuidade acadêmica (pós-graduação), na dinâmica de estruturação das famílias, na representatividade que isso pode levar a outras gerações. “Vejo de forma positiva a política, sendo que os desafios sinalizam um horizonte a ser alcançado e que não pode voltar para traz, precisamos seguir em frente”.

Abaixo, música ‘Mulheres Negras’ de Yzalú.

 

Nicole Trevisol/Jornalista da Agecom/UFSC

Fotos: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC