UFSC Curitibanos: ontem e hoje, cursos e projetos se inspiram na região

20/04/2018 14:00

Araucária, cuja semente é o pinhão, é presença marcante na região serrana catarinensel

Curitibanos impressiona ao primeiro olhar. A pequena cidade no meio-oeste de Santa Catarina se torna grande em sua história, suas tradições, seus recursos naturais e a sua diversidade econômica. O frio da altitude, as araucárias, o pôr do sol, também chamam a atenção para a beleza deste lugar único, estrategicamente localizado no coração do estado.

O município conquistou a UFSC, que sempre foi bem acolhida pela sua gente que se envolve com a instituição e a faz crescer e contribuir com Curitibanos. Suas características e seu potencial também para o ensino, pesquisa e extensão a inseriram no mapa da sexta melhor universidade federal do país.

Endereço da UFSC Curitibanos: Rodovia Ulysses Gaboardi, Imbuia Direita, km 3

O caminho que a instituição percorreu até chegar à Rodovia Ulysses Gaboardi, Imbuia Direita, km 3, já tem mais de 10 anos. Em 2009, iniciaram-se as aulas do primeiro curso, Ciências Rurais, e a construção da sede – CBS 01 – em terreno com mais de 245 mil metros quadrados, doado à Universidade pela empresa cujo nome do fundador está no CEP da UFSC Curitibanos.

Em 20 de agosto de 2010, a UFSC inaugurou seu novo espaço no planalto serrano. Um momento de alegria para a instituição compartilhado com a comunidade, autoridades locais e nacionais, Reitoria, direção geral, servidores e alunos no desejo de instaurar um projeto de interiorização da educação superior, pública, gratuita e de qualidade. Para tanto foram necessários R$ 7,4 milhões, recurso do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileiras (Reuni).

O primeiro curso

Cedup, cedido à UFSC até 2028, atende aos cursos de Medicina Veterinária e parte da Engenharia Florestal

O Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Rurais foi a primeira formação da UFSC em Curitibanos. No terceiro ano, o acadêmico escolhia entre as habilitações de Agronomia e Engenharia Florestal. No decorrer do tempo, surgiu a necessidade de uma reestruturação do curso por parte da unidade e da gestão da UFSC. Em 2013, o ingresso passou a ser direito para as duas graduações, após ampla reforma de seus currículos. Ciências Rurais está em processo de extinção e a última entrada de alunos ocorreu no Vestibular de 2012.

No caminho das mudanças em Curitibanos, em 2012, foi criado o curso de Medicina Veterinária. E a perspectiva é que, até 2019, seja implantado o de Medicina Humana. Atualmente este processo está bem adiantado, com realização de concursos para o Magistério, convocação dos aprovados e constituição do projeto pedagógico.

A primeira direção acadêmica

Juliano Gil Nunes Wendt é engenheiro florestal e escreveu seu nome nos primeiros anos dessa história. Em dezembro de 2011, por decisão familiar e por Redistribuição da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), optou por viver e trabalhar em Curitibanos.

E o envolvimento do professor com a UFSC é ainda maior. Atualmente está na direção acadêmica, escolhido em 2014 nas primeiras eleições do campus. “A nossa perspectiva para Curitibanos é uma interação maior com a comunidade. A Medicina Veterinária já atua neste sentido” – com os atendimentos clínicos a cães, gatos, animais selvagens e de grande porte -, “e com a vinda da Medicina Humana, esta aproximação cada vez mais se amplia” reforça o professor.

Os novos cursos

Juliano Gil Nunes Wendt, diretor acadêmico

Juliano contextualiza que “o projeto de implantação do curso de Medicina surgiu há três anos e o que o tem dificultado é a falta de docente. Recebemos um lote de 20 vagas, o mesmo número de Araranguá, e o nosso problema em efetivar o quadro é o fator mar” e complementa “que o desinteresse dos profissionais em se estabelecer no interior tem nos prejudicado”.

A primeira professora do curso de Medicina, Maria de Lourdes Conceição, entrou em exercício em março de 2018 e iniciou suas atividades no Centro de Educação Profissional Professor Enori Pozzo (Cedup), no bairro São Francisco. Este prédio pertence ao Governo Estadual e está cedido à UFSC até 2028. As aulas do novo curso serão neste local, onde já ocorrem as de Medicina Veterinária. A docente integra “uma comissão que trabalha em novos perfis para uma maior atração de interessados para a região. Tem que ter no mínimo 10 profissionais para iniciar o curso, das áreas como Pediatria, Ginecologia, Medicina da Família, Cirurgia Geral, entre outras”, reitera o diretor.

Na região de Curitibanos, o foco do curso será a medicina da família, voltada para a Atenção Primária à Saúde. Juliano explica que “o curso também irá proporcionar a alta complexidade hospitalar, que será em Rio do Sul”. Além de Curitibanos, “a proposta é que os profissionais trabalhem nas cidades próximas como São Cristóvão do Sul, Ponte Alta do Norte, Brunópolis, Frei Rogério e Santa Cecília. Nas que compõem a Associação dos Municípios da Região do Contestado (AMURC), provavelmente, serão realizados os estágios e os internatos. A princípio, a residência médica será em Curitibanos e a UFSC oferecerá estímulos para a fixação do profissional no local”.

Para o curso de Medicina em Curitibanos, não está no planejamento a construção de um Hospital Universitário, como no modelo do campus Florianópolis. A ação será nas unidades de saúde e como no município tem o Hospital Regional Hélio Anjos Ortiz, próximo ao Cedup, tudo caminha, tanto da parte da UFSC como da direção do hospital, para futuras parcerias.

Outra boa novidade para o campus é a criação de dois cursos noturnos, o que hoje não acontece em Curitibanos. A unidade definiu abertura de vagas para as licenciaturas em Biologia e em Química, cujos projetos pedagógicos já estão prontos. “Esta opção cumpre com mais um papel social da Universidade, que é também oportunizar formação superior a pessoas que trabalham durante o dia. E quanto à pós-graduação, investe na criação de mais um programa na área de Medicina Veterinária”, afirma.

Os novos espaços

Sobre as necessidades do campus de espaço físico e estrutura para os cursos, Juliano explica que neste quesito a Universidade tem avançado e sempre contou com o apoio das gestões. O novo prédio – CBS 02 – está praticamente pronto, previsto para julho deste ano. “Assim que esta estrutura estiver operacional, serão alocadas as atividades do curso de Engenharia Florestal, que hoje estão no Cedup”.

O campus de Curitibanos já possui duas propriedades rurais que atendem aos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal, e precisa de mais uma para o de Medicina Veterinária. O diretor adianta que a UFSC também está em processo de arrendamento de uma fazenda, essencialmente para animais.

A UFSC Curitibanos

A UFSC possui duas áreas experimentais em Curitibanos, que atendem aos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal. A da Agropecuária foi doada por empresários, com 242 mil metros quadrados na localidade do “Campo da Roça”. A Florestal, pela Prefeitura Municipal, possui mais de 310 mil metros quadrados e situa-se no Km 264 da BR 470, mantida em convênio com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

Os prédios, fazendas experimentais, casas de vegetação e laboratórios, estruturas próprias ou concedidas ao campus de Curitibanos atendem à graduação e ao Programa de Pós-Graduação em Ecossistemas Agrícolas e Naturais (PPGEAN), 1.009 alunos, 52 técnicos-administrativos e 77 professores, na missão de “gerar e disseminar conhecimento formando profissionais e contribuindo para atendimento de demandas regionais e o desenvolvimento da sociedade”.

O reconhecimento

A Câmara de Vereadores de Curitibanos concedeu à UFSC dois títulos, o de cidadão curitibanense ao professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo (in memorian) e a Comenda do Mérito Curitibanense à UFSC. A sessão solene foi realizada nesta quinta-feira, 19 de abril, no Plenário da Câmara.

As homenagens à Universidade, em especial ao campus de Curitibanos, devem-se ao desempenho de seu papel fundamental na qualificação de estudantes e na promoção do desenvolvimento regional, já que ampliou, desde a sua instituição, o leque de oportunidades na região.

 

Os projetos têm tudo a ver com a região

Programa Entrevero Cultural

Apresentação na recepção aos calouros do primeiro semestre de 2018. Foto: Divulgação

Dançar faz bem para o corpo e a mente! A arte de expressar sentimentos pela música é um dos alicerces do Programa Entrevero Cultural (PEC), coordenado pela professora da UFSC Curitibanos, Carine Lisete Glienke.

E não é apenas dançar. O programa oferece atividades diversificadas voltadas à arte e à cultura regional no intuito de resgatar a memória e a identidade do município de Curitibanos e valorizar os costumes sulistas.

Entrevero é um prato típico da região Serrana e um dos significados da palavra é mistura, daí o motivo da proposta: envolver as pessoas, integrá-las, sensibilizá-las e motivá-las. Além dos alunos, professores e técnicos da UFSC, a comunidade local é convidada a participar.

O PEC já realizou apresentações de dança, exposições fotográficas, mateadas, noites culturais, interfases da tradição e cursos de dança de salão e gaúcha.

Carine Lisete Glienke

A Companhia de Dança Entrevero Cultural, integrante do programa, atua dentro e fora da Universidade desde outubro de 2016. Já participou de eventos de grande relevância, como o 4° Festival do Rio Grande do Sul de Paris, na França, e na abertura da etapa regional do Festival de Dança Escolar “Dança Catarina”. Na UFSC Curitibanos, o grupo se apresenta na semana acadêmica, recepção aos calouros e na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

A parceria com artistas de toda a região resultou, em fevereiro deste ano, no espetáculo “Origens: Canto e Dança Sul-Americana”, promovido pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC).

Manejo e Tecnologia de Recursos Florestais

Na UFSC Curitibanos desenvolvem-se pesquisas para recuperação de áreas degradadas e uso sustentável das espécies dentro do ambiente natural. O “Agricultura Legal” foi um desses estudos, coordenado pelo professor do campus Alexandre Siminski. O projeto, finalizado em dezembro de 2017, buscou a regularidade da conservação das Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal em propriedades agrícolas no Planalto Catarinense. O próximo, em fase de contratação com o órgão financiador, atuará especificamente em assentamento da Reforma Agrária.

Alexandre Siminski

A meta principal dessas pesquisas é “formar profissionais capazes de avaliar, planejar e gerenciar os sistemas naturais e agrícolas no âmbito da conservação dos recursos como parte integrante da estratégia produtiva”.

Para a sociedade, que está em plena era de automatização e modernização, está posto o desafio de como continuar produzindo o que é necessário à sobrevivência com o mínimo impacto ambiental. As ações neste sentido não cabem apenas aos futuros profissionais, mas especialmente aos cidadãos, porque cada um tem o seu papel neste processo vital.

O pesquisador contextualiza que “a solução não é simples e não será de uma hora para outra, já que envolvem questões sociais e econômicas. A mudança é gradual e precisa ser, do ponto de vista técnico, amparada por quem gera ciência no país”.

E pontua que nos tempos atuais, “a quantidade de terra que se perde em um dia de chuva, a essa altura é inadmissível”. A sociedade já percebe o impacto da atividade humana sobre o meio ambiente e a Universidade deve estimular o profissional a reconhecer as ações necessárias para conservação do solo, da água e da biodiversidade, e estar preparada para auxiliar as pessoas que já estão dispostas a mudar suas técnicas de produção.

O recurso natural é determinante para a existência da produção agropecuária. Essa relação precisa ser melhor equalizada, caso contrário, em médio prazo comprometerá a própria condição que permite a ante produção.

O grupo de pesquisa se concentra nas questões regionais, porém não são tratadas de forma isolada. Alexandre exemplifica que “hoje, há evidências de que o regime de chuvas do Sul está diretamente relacionado à conservação da Floresta Amazônica. Sem essa visão mais ampla e global, dificilmente a ação local terá efetividade”.

“Nossa direção é buscar sistemas produtivos que ocasionem menos impacto ambiental, utilizando das muitas alternativas existentes como agroecologia, hortas urbanas, sistemas agroflorestais, diminuição de consumo e recuperação de áreas degradadas, e para nós, professores, o desafio está em formar profissionais que vão atuar nessas frentes”, finaliza.

Genética e Melhoramento de Plantas

O professor Leocir José Welter trouxe para a UFSC, em 2012, a pesquisa “Melhoramento Genético da Videira”, iniciada no seu doutorado na Universidade de Karlsruhe, na Alemanha, instituição que possui tradição de 100 anos com melhoramento. No retorno ao Brasil, a pesquisa continuou e se fortaleceu no campus Curitibanos.

Leocir José Welter

“O objetivo do estudo é desenvolver novas variedades da planta para produção de vinho fino. A região de altitude de Santa Catarina é considerada a melhor do estado e uma das melhores do Brasil para o cultivo de uva e, devido ao volume de chuvas, analisam-se materiais resistentes a doenças e adaptados ao clima. A pesquisa fornece alternativas ao produtor para redução do impacto ambiental, do uso de produto químico e do custo de produção, e oferece ao consumidor um produto de alta qualidade”, explica Leocir.

O projeto opera em rede com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de SC (Fapesc), Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de SC (Epagri) e Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de SC (Ciram), e também conta com a parceria de dois institutos de pesquisa na Alemanha e na Itália. Os alunos envolvidos são os da graduação, pós-graduação de Curitibanos e do Centro de Ciências Agrárias (CCA), em Florianópolis, e também da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Lages.

Os estudantes realizam testes anuais com as uvas na Área Experimental Agropecuária do campus Curitibanos. Ainda em Videira, Água Doce, São Joaquim e Urussanga, 30 cultivares estão sendo examinados. O professor afirma que “Videira e Urussanga produzem um tipo de vinho diferente, rotulado como fino, como o que é produzido na Europa”.

O aluno participa de todo o processo, na plantação, no preparo do solo, na poda e no manejo da planta. O agricultor também. Ele verifica as plantas, prova o vinho e, baseada nos resultados, toma uma decisão. Além de contribuir para a formação de recursos humanos, incrementa a atividade na região. E para a formação geral, o professor Leocir ministra uma disciplina de Viticultura e Enologia, para elaboração de vinho em laboratório.

A uva é um exemplo de cultura que tem alto valor agregado. A região de altitude de SC possui o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e esta proposta de extensão associada ao turismo, ampliam as possibilidades de crescimento da região.

Mais informações: http://curitibanos.ufsc.br/

 

Engenharia Florestal

 

Agronomia

 

Medicina Veterinária

 

Texto: Rosiani Bion de Almeida/Agecom/UFSC

Fotos: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC