Retrospectiva UFSC 2017: novembro e dezembro

09/02/2018 13:14

O último bimestre de 2017 começa na UFSC com um clima tenso. A comunidade universitária segue abalada com a prisão e morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Em novembro, no

entanto, as atividades começam a voltar à normalidade. Com a morte do reitor e o afastamento da vice-reitora por motivos de saúde, o Conselho Universitário organizou uma sessão extraordinária no dia primeiro de novembro para decidir a sucessão. Foi deliberado que haveria uma consulta pública para o cargo, a ser realizada no primeiro semestre de 2018. Até a consulta pública, Ubaldo César Balthazar, decano do Conselho Universitário e então diretor do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), assumiria a reitoria, em caráter pro tempore.

Sessão aberta do CUn deliberou reitor pró-tempore até a eleição de novo(a) reitor(a). (Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC).

No encerramento da sessão, o novo reitor da Universidade agradeceu a confiança, mas avisou que não pretendia permanecer no cargo e que, naquele momento, o que era preciso era colocar a universidade de volta nos trilhos. “Vamos fazer isso com o apoio de todos: professores, alunos, servidores técnico-administrativos. Vamos tocar esse barco e mostrar à sociedade, ao MEC, ao mundo, que a universidade é maior”.

Novembro: consequências e superações

No mês seguinte à tragédia, foram feitas muitas as homenagens a Cancellier. Foi assim na sétima edição Congresso Catarinense de Direito Administrativo na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), no dia 6 de novembro, quando o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro abriu o evento discursando sobre abuso de autoridade.

O nome do reitor esteve presente novamente na Alesc, dessa vez em uma Sessão Especial em sua homenagem, no dia 21 de novembro. A proposta da sessão foi feita pelo deputado Rodrigo Minotto. O documentário e livro “Em nome da inocência: Justiça”, ambos organizados pelo deputado estadual Jailson Lima da Silva e pelo desembargador Lédio Rosa de Andrade, foram lançados na sessão. O documentário exibido na sessão, bem como o livro, tratam criticamente da maneira como a operação “Ouvidos Moucos” foi conduzida. Ambos apresentam depoimentos de ex-alunos, jornalistas e profissionais do direito, que destacaram a profissionalidade de Cau, como era conhecido o então reitor.

Outro documentário em homenagem a Cancellier também foi lançado em novembro. O “Documentário Cau” foi produzido pela TV CONPEDI e exibido durante a abertura do XXVI Congresso Nacional do CONPEDI, realizado em São Luís (MA), de 15 e 17 de novembro, com a participação de cerca de 1.400 pessoas.

O reitor também foi homenageado na segunda edição dos “Jogos de Integração dos Servidores da UFSC (JIS)”, ocorrida no dia 23 de novembro, que foi batizada com seu nome: “Luiz Carlos Cancellier de Olivo”. Foram diversos os tributos ao reitor. Em todas as ocasiões, os discursos destacavam que Cancellier tinha muito amor pela UFSC e era uma pessoa querida por muita gente.

A revista Veja ainda publicou, no dia 10, a reportagem especial “Crônica de um suicídio — os erros de investigação que humilharam o reitor da UFSC”.  O texto descreveu os acontecimentos em detalhes, além de apresentar sua vida pessoal, acadêmica e profissional. A reportagem dá destaque aos dias antes de sua prisão e morte, incluindo a maneira como foi conduzido pela Polícia Federal à prisão. Impedido de adentrar à UFSC no período posterior à prisão, sob o entendimento de que não poderia intervir nas investigações em curso. a matéria afirmava que a conjunção desses elementos teria abalado sua saúde mental, culminando em seu suicídio. A reportagem finaliza com detalhes sobre a investigação, ressaltando o entendimento de que faltam de dados concretos para a ação.

Combate aos preconceitos

O mês de novembro também foi marcado por eventos em referência ao dia da consciência negra, dia 20. Na UFSC, o VI Congresso Nacional de Inclusão Social do Negro Surdo (CNISNS),  realizado de 16 e 18 de novembro, ressaltou a importância do combate aos diferentes tipos de preconceitos que estão presentes nos mais diversos países.

O Programa de Educação Tutorial (PET) de Pedagogia da UFSC também promoveu uma série de eventos em para destacar a data. Em parceria com a Confraria Literária do Colégio de Aplicação da UFSC (CA), ganhou relevo, dentre as atividades, o evento “Enegrecer: Ações para pensar as culturas africanas e afro-brasileiras”.

Em Araranguá foram organizadas diversas programações relacionadas à cultura negra. O campus recebeu convidados para ações como roda de capoeira, música, debates e cinema.

Ainda neste mês, foi realizada também a Semana de Combate às Fobias de Gênero na Saúde (SCFGS). Na abertura de sua 3ª edição, dia 21, Olga Garcia, representante da Coordenação de Diversidade Sexual e Enfrentamento de Violência de Gênero (CDGEN), reforçou a importância de espaços institucionais que promovam a conscientização e acolhimento às mulheres e público LGBT:  “com um ano e meio de gestão, a Coordenação foi uma proposta do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo para trabalharmos na construção de uma cultura de apoio e acolhimento às pessoas”, apontou. A temática da terceira edição foi “Violência de gênero e saúde”. Jenn Lopez, conselheiro do Conselho Municipal LGBT e estagiário na CDGEN, é homem transexual e falou, no primeiro dia do evento, sobre a falta de políticas públicas voltadas às mulheres e comunidade LGBT: “espaços de debate como esse são fundamentais, porque estão ficando cada vez menores ou inexistentes. A educação é essencial para entender que gênero não é uma aberração e que precisamos de respeito”, afirmou.

Ainda durante a abertura da SCFGS, foi lançada a “Aliança pela Igualdade e Diversidade”. O objetivo da ação é apoiar e acolher pessoas que tenham passado por algum tipo de violência ou assédio. A iniciativa começa no CCS, mas a expectativa é que toda a comunidade da UFSC adote a ideia” explica Marcela Vieiros, chefe do Departamento de Nutrição e idealizadora da iniciativa. Rodrigo Moretti, docente no Departamento de Saúde Pública, acredita que a iniciativa visa levar o aprendizado aos estudantes para além da sala de aula: “Se não tivermos um ambiente que mostre apoio e suporte às pessoas para discutir essa temática, como os nossos estudantes vão atuar no serviço de saúde e dar esse tipo de atenção?”

Além da CDGEN, o Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da UFSC, coordenado por Mara Coelho de Souza Lago (CFH/UFSC), Rosana Cássia Kamita (CCE/UFSC) e Joana Vieira Borges (CED/UFSC), é outro espaço que desenvolve conhecimento acadêmico sobre grupos e causas sociais que lutam por relações igualitárias e justas. Em 22 de novembro o IEG foi homenageado em Ato Parlamentar Solene na Alesc. Na ocasião Miriam Grossi, Mara Lago e Olga Zigelli Garcia representaram o Instituto. “Receber este reconhecimento por parte do legislativo catarinense muito nos honra. Vivemos tempos difíceis e sombrios em relação aos direitos das mulheres, dos grupos LGBT, da população negra, de pessoas com deficiências e de todos aqueles que, por não se enquadram nos padrões de ‘normalidade’, são discriminados e relegados a lugares de subalternidade em nossa sociedade”, disse Miriam ao receber a homenagem.

Ainda no âmbito da luta pelas questões de gênero, a Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (SAAD), por meio da Coordenadoria de Diversidade Sexual e Enfrentamento da Violência de Gênero (CDGEN), promoveu a campanha “A UFSC diz não à violência contra a mulher”. Foram nove dias de ativismo, com início no dia 24. O evento buscou mobilizar e conscientizar toda a universidade, inclusive os campi fora da sede, sobre a necessidade de combater todo e qualquer tipo de violência contra as mulheres na comunidade interna e externa. As datas escolhidas não foram em vão: 25 de novembro é o Dia Internacional contra a Violência às Mulheres; e 6 de dezembro é o dia da “Campanha do Laço Branco – Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher”.

Os frutos da dedicação

No fim de novembro, UFSC foi eleita a sexta melhor universidade federal do país, de acordo com o Índice Geral de Cursos Avaliados da Instituição (IGC), divulgado pelo Ministério da Educação dia 27. O IGC é um indicador de qualidade que avalia as Instituições de Educação Superior.

Outras relevantes conquistas à Universidade se deram em competições nacionais. Em novembro, duas equipes da UFSC conquistaram o primeiro lugar na edição brasileira da Shell Eco-marathon: a E3 Equipe UFSC de Eficiência Energética, de Florianópolis, na categoria Gasolina; e a Eficem, de Joinville, na categoria Elétrico. O evento foi realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 7 e 9 de novembro, e atraiu 40 equipes de todo o Brasil. A e3 atingiu um novo recorde de milhagem latino-americano. Ao conquistar o primeiro lugar da competição, as duas equipes da UFSC receberam um prêmio em dinheiro e garantiram a vaga na Shell Eco-marathon Américas, que ocorrerá em 2018, nos Estados Unidos.

Ônibus elétrico. (Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC).

Outro marco para a pesquisa com veículos eco-eficientes ocorreu no dia 6 de novembro. Neste dia o ônibus  elétrico da UFSC completou uma distância equivalente a uma volta pela Terra (40 mil quilômetros). Inaugurado em dezembro de 2016, o ônibus é parte de um projeto denominado “Deslocamento produtivo com veículos elétricos alimentados por energia solar fotovoltaica”. Seu interior foi concebido como um ambiente de trabalho, com poltronas confortáveis (somente transporta passageiros sentados), duas mesas de reunião, tomadas 220V e USB, wi-fi e ar-condicionado. O projeto contou com financiamento de R$ 1 milhão pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI, atual MCTIC) e tem parceria com as empresas WEG, Marcopolo, Mercedes e Eletra.

Ainda no âmbito da mobilidade urbana, em novembro dois alunos do curso de Engenharia de Controle e Automação decidiram pensar em uma maneira de tornar o dia-a-dia menos complicado para membros da comunidade acadêmica. Pedro Destri, da 5ª fase, e André Luiz Nunes Amaru, da 6ª, idealizaram e criaram o aplicativo “Me leva”, com o objetivo de viabilizar a oferta de caronas. De 100 carros que trafegam por uma avenida como a Deputado Antônio Edu Vieira, no bairro Pantanal, pelo menos 80 motoristas estão sozinhos no carro. O objetivo é colaborar com o meio ambiente e na redução do trânsito. Os idealizadores do aplicativo fazem parte do PET Metrologia e Automação — que engloba também os cursos de engenharias Mecânica, Elétrica, Eletrônica e as três Engenharias de Produção.

A arte produzida na UFSC também foi motivo de orgulho. No princípio do último bimestre, a Secretaria de Cultura e Arte (SeCArte) promoveu a segunda edição do “Experimenta”. O evento ofereceu para a comunidade universitária uma semana repleta de atrações de teatro, dança, cinema, música, exposições, performances e workshops. As atividades ocorreram nos campi de Florianópolis e de Blumenau. “Em um momento em que as expressões artísticas estão sendo atacadas e censuradas, em que não podemos mais dizer que vivemos em pleno Estado de Direito, fazer arte é resistir. Que a arte seja a nossa forma de protesto!”, afirmou Maria de Lourdes Alves Borges, secretária da SeCArte.

Dezembro

Na 35ª Reunião do Confies (Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica), que ocorreu dia 7, em Maceió(AL) e no 89º Encontro do Círculo de Leitura de Florianópolis, o nome de Cancellier foi novamente tema debates e reflexões. Outra reportagem sobre foi publicada, desta vez no jornal O Estado de São Paulo. A matéria especial da edição de 3 de dezembro relata os fatos que envolveram a prisão e morte do reitor.

A última sessão do Conselho Universitário (CUn) do ano foi realizada em 19 de dezembro, quando foi aprovada uma homenagem permanente ao Cau, nominando o Centro de Cultura e Eventos da UFSC como “Centro de Cultura e Eventos Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo”.

O clima de protestos contra o abuso de autoridade foi reforçado com a deflagração de mais uma operação conduzida pela Polícia Federal (PF) no dia 7 de dezembro: a “Operação Torre de Marfim”. A PF retornou à UFSC para cumprir mandados de conduções coercitivas e de busca e apreensão. Desta vez estavam sendo investigados desvios de verba por Fundações de Apoio da UFSC.

Dois anos da adesão do HU à Ebserh foi tema de debate. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom).

No dia seguinte ao início da operação, a Administração Central da Universidade divulgou uma nota com seu posicionamento: “Manifestamos novamente nossa surpresa diante de outra operação policial, com ampla cobertura midiática, afetando diretamente a comunidade universitária sem que tenha sido respeitada a relação institucional entre os responsáveis pela operação e a Universidade Federal de Santa Catarina.”, diz trecho da nota, que também afirmava que qualquer ato irregular deveria ser apurado, desde que seguidos os princípios da presunção de inocência.

Dezembro também é o mês que marca os 2 anos da adesão do Hospital Universitário (HU/UFSC) à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). O assunto foi tema do debate realizado no Centro de Ciências da Saúde (CCS) em 1º de dezembro.

Nova fase

A UFSC completou 57 anos em 18 de dezembro de 2017. A solenidade de comemoração foi realizada no hall do prédio da Reitoria. O evento reuniu servidores, estudantes, autoridades e imprensa em uma cerimônia que tinha duas motivações: celebrar a história da instituição e prestar homenagear o reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Na ocasião, o quadro de Cancellier foi afixado na galeria de ex-reitores, localizado na entrada da Sala dos Conselhos, onde os órgãos deliberativos centrais da Instituição ordinariamente se reúnem.

Quadro de Cancellier é afixado na galeria de ex-reitores na entrada da Sala dos Conselhos. (Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC).

O sentimento de recomeço marcou o primeiro dia de vestibular na UFSC — que ocorreu entre 9 e 11 de dezembro. Um dia após o fim das atividades para professores e estudantes, novos novos candidatos enchiam as salas de aula, corredores e diversos espaços do campus. Para o reitor pro-tempore Ubaldo César Balthazar, a circulação de vestibulandos na universidade criava um novo clima na instituição.

Outra novidade de dezembro foi no telejornal diário produzido pelo curso de Jornalismo da UFSC – TJ UFSC – que desde 4 de dezembro  passou a ser transmitido na TV UFSC. A parceria faz parte de um teste para o ingresso definitivo do telejornal na grade da emissora a partir de 2018.

O ano de 2017 ficará marcado para toda comunidade. Pode-se dizer que foi tempo de traumas, mas também de superações. Dizem que quando na estrada não existem trechos de escuridão, a luz não têm valor. Claro, ninguém deseja para si uma escuridão tão profunda a ponto de apagar o brilho da vida. Entretanto, se isso foi preciso para que o recomeço venha, que ele venha atento e prossiga sensato. Não foi em 2017, e com a persistência dos que lutam por uma UFSC melhor não vai existir o dia em que a Universidade cairá. Apesar de parecer lenta, a evolução caminha aos poucos, nas pequenas atitudes. Não ver resultado desanima, mas ele vêm, e 2018 é mais um passo para que a luz chegue e fique.

Sobre a retrospectiva UFSC

A retrospectiva UFSC foi produzida no mês de janeiro de 2018. O objetivo foi o de oferecer à comunidade universitária uma síntese dos principais fatos deste complexo 2017 que vivemos. Foram seis matérias, agrupadas por bimestres. Cada texto é de autoria de um membro da equipe da Agecom, que trouxe seu olhar para os eventos que tiveram cobertura da Agência, em seu compromisso com a informação pública.

As demais matérias estão publicadas na página da Retrospectiva UFSC, disponível aqui.

 

Luna Mariah Zunino/Estagiária de Jornalismo/Agecom/UFSC