UFSC homenageia Marcondes Namblá no Templo Ecumênico

09/01/2018 13:00

Professor, guerreiro, amigo, líder: assim Marcondes Namblá foi qualificado na homenagem póstuma promovida pela Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica e pela UFSC na manhã chuvosa de terça-feira, 9 de janeiro, no Templo Ecumênico. Marcondes faleceu no dia 2 de janeiro após ser brutalmente espancado na madrugada do Ano Novo, em Penha, litoral Norte do Estado. Marcondes se formou  na UFSC em abril de 2015, na Licenciatura Intercultural, e desenvolvia atividades de ensino na escola Laklãnõ.

Além de demonstrar respeito à memória de Marcondes, o ato serviu também para pedir que a justiça seja feita. O reitor em exercício da UFSC, Alexandre Marino, entregou um documento à família, um louvor a Marcondes, recebido por Nanblá Gakran, professor da Licenciatura Intercultural e primo do falecido. “Eu me sinto muito triste de termos perdido um amigo, um professor. Foi um abalo muito grande, sou muito sensível, mas a vida continua. O trabalho dele, de preservação da cultura e história, vai permanecer”.

O cacique Jonas Kamlen, da aldeia Palmeirinha de José Boiteux, lamentou a perda trágica do amigo, que iria usar as férias de verão para trabalhar para a família – Marcondes era casado e tinha cinco filhos. “Ele era nosso juiz, pela sua postura e capacidade, um grande professor e um rapaz muito novo. Estamos de coração partido, mas agradecemos a homenagem da UFSC”, disse Jonas. Ele também cobrou velocidade na resolução do caso. “Que o povo Xokleng possa dizer que a justiça foi feita”.

Carl e Isabel Gakran, estudantes de medicina e fonoaudiologia da UFSC, e Jafe Sateré, aluno de direito, realizaram um ritual em homenagem a Marcondes, para que sua alma encontre a paz. Emocionados, eles eram alguns dos muitos amigos presentes ao encontro.

Orientadora de Marcondes na Licenciatura, Antonella Tessinari lembrou que, pouco antes do Natal, ele entrou em contato para buscar referências bibliográficas para o mestrado, um dos projetos cortados pelo crime. “A gente sempre quer que os alunos nos superem, e era isto que vinha fazendo. Ele usou teorias e correntes teóricas para mostrar a importância do banho de rio para as crianças. Isto não estava na agenda científica, mas com sua criatividade, mostrou algo de novo”.

O reitor em exercício comentou que “precisamos estar unidos para que a nossa grande mãe, a UFSC, tenha condições de cumprir seu papel de lutar pela inclusão e não deixar que este crime caia no esquecimento”. A secretária de Ações Afirmativas e Diversidades da UFSC, Francis Tourinho, lembrou que pessoas que incomodam e lutam pelos seus direitos, como Marcondes, “têm que ser motivo para a gente continuar. Vamos cobrar das autoridades”.

Protesto

Docentes e alunos do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estão mobilizados na organização de um ato cerimonial e um protesto ao assassinato de Marcondes Namblá. O ato acontecerá na quarta-feira, dia 10 de janeiro, às 14h, no local onde o indígena foi morto (Av. Eugênio Krause, no município de Penha, Litoral Norte de Santa Catarina). O evento tem apoio de outras etnias além do povo Laklãnõ-Xokleng, do qual Marcondes pertencia. Entre elas os povos Guarani, Kaingang e Parintintin.

Caetano Machado/Jornalista da Agecom/UFSC

Fotos: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC