Primeiros colocados compartilham rotina árdua, ansiedade e agora, planos para o futuro

12/01/2018 13:30

Matheus (esq.), Leticia e Rafael foram os três calouros de Medicina entre os dez primeiros que estavam no dia da divulgação dos resultados na UFSC. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

Nesta segunda-feira, dia 8, quando a UFSC anunciou que o resultado do vestibular sairia no dia seguinte, Matheus, Leticia e Wagner juntaram-se aos mais de 31 mil candidatos ansiosos por saber como estariam colocados. No Facebook, o anúncio teve mais de 29 mil visualizações, mil curtidas, centenas de comentários. O suspense acabaria logo.

Na terça-feira, 9 de janeiro, Matheus e outros estudantes, que tinham um grande número de acertos pelo boletim de desempenho individual, esperavam uma ligação telefônica, já que em anos anteriores a Administração Central da UFSC costumava telefonar para parabenizar os 10 primeiros colocados no dia do anúncio do resultado oficial. Neste ano, em função do formato do anúncio – uma coletiva de imprensa – e sem a colocação do tradicional “listão” no Centro de Desportos (CDS), não houve comunicação telefônica.

“A gente viu o boletim de desempenho, estávamos na expectativa,” conta, entre lágrimas, Matheus Cercal Lazzaris, primeiro colocado na Classificação Geral do Vestibular 2018, minutos após saber do resultado. “Falaram que se estivesse entre os 10 primeiros alguém ligaria. Mas ninguém ligou, viemos pra cá sem saber o que ia acontecer”, conta. Matheus e seus pais estavam no Auditório da Reitoria quando ouviram o anúncio de seu nome. Também presente estava Leticia Schmitz Nacur de Almeida, quarta colocada na classificação geral, primeiro lugar entre as mulheres que obtiveram as melhores notas no Vestibular. Quando ouviu seu nome, Leticia se levantou em meio aos aplausos e gritos dos professores de cursinho, e recebeu, do pai, um buquê de flores.

Wagner Scheeren Brum, primeiro colocado entre os alunos oriundos de escolas públicas (Foto: Arquivo pessoal)

Em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, Wagner Scheeren Brum saberia um pouco mais tarde que ficou em primeiro lugar entre os candidatos que concorreram pela Política de Ações Afirmativas, por ter cursado o Ensino Médio em uma escola pública. Os três devem ser colegas, a partir de 26 de fevereiro, no curso de Medicina.

“Eu já sei que vou estudar aqui mesmo, meus pais moram a uma hora daqui, meu irmão já está se formando pela UFSC. Eu demorei a aprender a estudar, fiz dois anos e meio de cursinho, até passei em algumas universidades particulares, cursei por um tempo até, mas não tinha dinheiro pra pagar as mensalidades. Pensei em desistir da medicina”, relata Matheus. O estudante, natural de Joinville, começava a estudar às 7h30 da manhã e muitas vezes só parava às 22h, com uma breve pausa para refeições. 

A mesma rotina tinha Leticia, que, conta que seguiu esse regime até as provas começarem, em outubro. “Fiz um ano de cursinho, e no primeiro semestre, um dia normal para mim, era um dia que não queria que fosse normal pra ninguém, eu acordava 5h30 da manhã para ir para a aula, e ficava até 22h no cursinho. No segundo semestre desacelerei … e acho que isso foi muito bom. Comecei a resolver não ir ao cursinho se eu estivesse muito cansada. É melhor ter a saúde mental em vez de ler mais uma apostila”, conta.

Outro candidato, Wagner, estudou seu Ensino Médio com curso técnico em Química na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, também em Novo Hamburgo-RS. A escola estadual é responsável por organizar a maior feira de jovens cientistas da América Latina. Além disso, também estudava cerca de 12 horas por dia para o concurso. “A escola técnica é um lugar que marcou minha trajetória: fiz pesquisa, participei de olimpíadas de ciências e de matemática, aprendi a estudar”, relata. Cursar Medicina, para Wagner, será uma grande oportunidade de continuar fazendo ciência. “A minha escolha pelo curso de Medicina foi inspirada pelo fato de ser um entusiasta da área de ciências biológicas e da saúde, por cujas pesquisas sou fascinado. Tinha muito interesse por fazer um curso que pudesse combinar a parte acadêmica e científica com um envolvimento maior com o lado humano da profissão”, entusiasma-se.

Aprender a estudar, combinando um dia-a-dia cansativo com práticas que equilibrassem a saúde mental e as experiências próprias da idade foi chave para esses futuros universitários. “Havia uma exigência muito grande nas aulas já no ensino médio técnico, o que me obrigou a aprender a estudar e a pensar por conta própria. A quantidade de atividades extra curriculares disponíveis também instigou muito meu desenvolvimento pessoal, tanto na parte de desenvolvimento de projetos de pesquisa, como na área de olimpíadas científicas”, salienta Wagner. Leticia, nas ocasiões em que escolhia dar um tempo nos estudos, buscava ir à praia, passear com a mãe, ler um livro.

A inspiração para Leticia estudar Medicina veio da convivência com um médico que a atendeu quando era criança. “Meu pai é engenheiro e minha mãe é professora de português. Mas eu tenho enxaqueca muito forte, sempre fui ao neurologista desde pequena. E admirava muito o meu médico, Dr. Jorge Barbato e ele, como pessoa e profissional, me inspirou a querer ser médica. Quero ser neurocirurgiã”, sonha.

Leticia durante o anúncio dos aprovados no Vestibular 2018, juntamente com Rafael Marques dos Santos, o 9º colocado. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

Apenas três mulheres ficaram entre os dez primeiros colocados no Vestibular 2018, e no curso de Medicina, dos 70 aprovados, 28 são mulheres. Leticia avalia que isso possa ser devido à falta de incentivo dentro de casa. “Os meninos têm mais incentivo para chegar em primeiro, mostrar que é bom. Eu sempre tive dentro de casa o estímulo para ser melhor e a lutar pra ser melhor … mas foi uma coisa que eu quis sozinha, de estudar e ir além. Eu demonstrei desde criança que gostava de ciência, matemática, e a partir daí recebi incentivo. É preciso estimular as meninas, não a serem competitivas, mas a ambicionar, dizer a ela que ela pode chegar em primeiro lugar. Acho isso importante, para inspirar mais mulheres. Minha avó foi a primeira a fazer faculdade federal da família dele, eu sempre fui influenciada por grandes mulheres”, salienta.

Os novos calouros esperam, de seus anos no ensino superior, que sejam os melhores de suas vidas. Desde o Ensino Médio na educação pública, Wagner ressalta as boas oportunidades que recebeu e espera encontrar na UFSC. “Existem, sim, fundações e institutos que oferecem boas oportunidades aos alunos, vencendo as barreiras impostas pela falta de verbas e de infraestrutura através de uma boa gestão. Em nível superior, as universidades públicas ainda são os principais centros de ensino e de produção científica no Brasil. Eu espero, na UFSC, aproveitar as oportunidades que surgirão durante o curso para me tornar o melhor profissional possível”, planeja o calouro.

Leticia, a futura neurocirurgiã, já pensa em onde fará sua residência, que pode até ser aqui mesmo, na UFSC. “Penso em fazer residência na USP, ou fora do país, mas se eu me inspirar na neuro e cirurgia geral na UFSC também vou ficar. Vou atrás do que puder me proporcionar a melhor experiência. Espero que sejam os melhores anos da minha vida, de conhecer pessoas novas, de estudar na área que eu quero fazer, de me engajar em projetos sociais, quero aproveitar ao máximo tudo isso para que eu tanto batalhei”, conclui.

 

Mayra Cajueiro Warren
Jornalista da Agecom/UFSC