Contaminação dos oceanos por formicida é abordada em artigo de professora da UFSC

02/01/2018 13:30

A contaminação oceânica pelo formicida Sulfluramida é o tema do texto “A formiga e o mar”, de autoria de Juliana Leonel, docente e atual subcoordenadora do curso de graduação em Oceanografia (CFM/UFSC).  O artigo exibe os progressos e desafios das pesquisas que analisam a contaminação dos poluentes orgânicos persistentes (POPs). Dentre esses poluentes, o ácido perfluoroctanoico sulfônico (PFOS), cujos efeitos aos organismos são de alta toxicidade e persistência, é geralmente estudado a partir de suas fontes industriais e urbanas. Com isso, ganha relevância a análise dos impactos a partir do uso do formicida Sulfluramida em cultivos de Pinus e Eucaliptos como possível fonte significante de PFOS. E é a partir desta questão direcionada à região costeira do Brasil que Juliana Leonel sintetiza o assunto no artigo que publicamos na íntegra abaixo.

A formiga e o mar: como o formicida sulfluramida esta contaminando os oceanos

Segundo a Convenção de Estocolmo1, os poluentes orgânicos persistentes (POPs) são compostos com alta resistência a degradação, capacidade de bioacumulação e biomagnificação, que apresentam efeitos tóxicos aos organismos e são capazes de serem transportados a longas distâncias através das correntes atmosféricas e oceânicas. Entre os compostos classificados como POPs, o ácido perfluoroctanoico sulfônico (PFOS) se destaca pela sua alta persistência e efeitos tóxicos. Devido as suas propriedades físico-químicas, o PFOS e outros ácidos perfluoroalquilados (PFASs), são amplamente utilizados como surfactantes industriais e domésticos, espuma de combate a incêndios, em embalagens para alimentos, fitas adesivas, aditivos, produtos de higiene pessoal, praguicidas, estofamentos, carpetes, entre outros.

A maioria dos estudos ambientais foca nas fontes industriais e urbanas de PFOS. No entanto, no Brasil, estudos sugerem que o uso do formicida Sulfluramida em cultivos de Pinus e Eucaliptos, para combater formigas de corte, são uma importante fonte de PFOs para o ambiente. A partir desses estudos o seguinte questionamento surgiu: Seria a Sulfluramida uma fonte significante de PFOS para a região costeira do Brasil?

Para responder esta pergunta os pesquisadores do Laboratório de Oceanografia Química da UFSC trabalham em colaboração com outras instituições nacionais e internacionais realizando análises de amostras ambientais e experimentos laboratoriais. Dessa forma, pela primeira vez, um estudo2 reuniu dados sobre uso, produção, comercialização, exportação e importação do ingrediente ativo da Sulfluramida (EtFOSA – N-ethilperfluoro-octano-1-sulfonamida) mostrando que a que a importação de EtFOSA pelo Brasil passou de 30 toneladas em 2007 para 60 toneladas em 2014. O mesmo estudo também avaliou a ocorrência de PFASs em águas superficiais da Baía de Todos os Santos (Bahia), onde se constatou a presença de um perfil de PFASs que corresponde ao uso da Sulfluramida.

Mas a pergunta ainda não está respondida, pois os estudos que sugerem a degradação do EtFOSA para o PFOS realizaram apenas análises em solos e/ou água e nenhum deles estudou a degradação a partir das iscas formicidas. A partir disso, foi elaborado um experimento para estudar a degradação do EtFOSA a partida da substância pura e também da isca formicida em solo com e sem a presença de cenouras (vegetal fácil de cultivar em laboratório, de crescimento rápido e usada na alimentação humana). Os resultados3 constataram a degradação de EtFOSA para PFOS em uma taxa mais alta do que anteriormente reportada, especialmente no caso das iscas. Para complementar, análises para determinar a composição e concentração de todos os compostos perfluorados nas iscas estão sendo realizadas.  Concomitantemente, dados gerados a partir da análise de amostras (água fluvial, marinha e subterrânea, solo, folha e sedimento) da região de Caravelas e Alcobaça4 (extremo sul da Bahia) estão auxiliando a entender como pode ocorrer o transporte da sulfluramida e seus produtos de degradação desde a região de aplicação até a costa.

O próximo passo dos estudos é expandir as amostragens de forma a identificar as diferentes fontes de PFOS (industrial x agrícola) para as áreas costeiras do Brasil e estimar o fluxo de PFOS oriundos dos principais rios brasileiros para o Atlântico Sul. Estes são os objetivos do projeto “Origem, Distribuição e Transporte de PFOS para o Atlântico Sul” aprovado pelo CNPq (Universal/2016).

1 http://www.pops.int/

2Gilljam, J. L., Leonel, J., Cousins, I. T., Benskin, J. P. (2015). Is Ongoing Sulfluramid Use in South America a Significant Source of Perfluorooctanesulfonate (PFOS)? Production, Inventories, Environmental Fate, and Local Occurrence. Environmental Science and Technology 50, 653-59

3Zabaleta, I., Bizkarguenaga, E., Nunoo, D., Schultes, L., Leonel, J., Prieto, A., Zuloaga, O., Benskin, J. Biodegradation and Uptake of the Pesticide Sulfluramid in a Soil/Carrot Mesocosm. Environmental Science and Technology – no prelo.

4Nascimento, R. A., Nunoo, D., Bizkarguenaga, E., Schultes, L., Zabaleta, I., Benskin, J., Spanó, S., Leonel, J. Occurrence of per- and polyfluoroalkyl substances (PFASs) in an agricultural region of Brazil. Environmental Pollution – no prelo.

Mais informações:

Texto e imagens: Juliana Leonel

Texto de apresentação: Gabriel Martins/Agecom/UFSC