Estudantes da UFSC realizam pesquisa de campo por dois meses na Ilha da Trindade

30/10/2017 15:36

Foto: Bruno Macena.

O território brasileiro possui quatro ilhas oceânicas, sendo a mais conhecida delas Fernando de Noronha, localizada ao norte do país. As outras três são o Arquipélago de São Pedro e São Paulo; o Atol das Rocas e o Complexo da Ilha da Trindade e Martin-Vaz. Esta última apresenta uma singularidade: é a área mais isolada e distante do território brasileiro, localizada a 1160 km da costa, o que equivale a aproximadamente 1/3 do caminho até a África.

Luisa Martins Fagundes e Lucas Nunes Teixeira – respectivamente mestranda e doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGEco/UFSC) —, e Jéssica Tamires Link, recém graduada em Ciências Biológicas na UFSC e pesquisadora do laboratório “Ecologia de Ambientes Recifais”, estiveram da Ilha da Trindade durante dois meses, entre agosto e outubro deste ano. Os três estudantes desenvolvem estudos no âmbito do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração das Ilhas Oceânicas Brasileiras (PELD-ILOC). As ilhas oceânicas são consideradas laboratórios naturais, devido ao seu isolamento, o que atrai pesquisadores de diversas áreas.

Em vigência desde 2013, o principal objetivo do programa nas ilhas oceânicas é o monitoramento (avaliação temporal) da comunidade de peixes recifais, da comunidade bentônica (organismos associados ao fundo do recife, como algas, esponjas, corais, entre outros) e das colônias de corais da espécie Montastraea cavernosa. “No monitoramento da comunidade de peixes e bentônica, nós avaliamos temporalmente alguns parâmetros ecológicos como: quantas espécies (riqueza) e quantos indivíduos de cada espécie (abundância e biomassa) existem nessas ilhas. No monitoramento das colônias de corais, avaliamos a saúde dos corais, como a presença e ausência de branqueamento, crescimento e mortalidade, entre outros aspectos ecológicos desses animais”, explica Lucas.

Essa foi a primeira vez dos estudantes na Ilha da Trindade. Eles consideraram a oportunidade muito positiva: “Foi uma experiência singular. A ilha é majestosa, com diferentes formações rochosas e paisagens impressionantes. Além disso, com uma água do mar transparente, uma fauna diversificada e a presença frequente de baleias-jubartes próximas aos recifes. Dentro da água, a visibilidade impressionava. Mergulhamos com mais de 30 metros de visibilidade, situação que em recifes próximos da costa do Brasil é bem raro”, descreve Lucas. Também chamou a atenção dos estudantes a própria formação da ilha que, segundo eles, “lembra os cenários do filme Jurassic Park”.

Ao longo da pesquisa de campo, os estudantes constataram uma diversidade elevada de organismos (algas e animais), sobretudo considerando a distância da costa brasileira. “Como ecólogos, sempre pensamos como esses organismos conseguiram chegar e ‘colonizar’ a ilha”, observa Lucas.

Rotina

Durante esses dois meses  na ilha, a equipe da UFSC não estava sozinha. A Ilha da Trindade é administrada pela Marinha do Brasil, portanto, está sempre ocupada por aproximadamente 40 militares, que se revezam a cada quatro meses. Também é comum a presença de outros pesquisadores, de diferentes universidades do país. Um pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) realizava marcação de tubarões nesse mesmo período. E a rotina de todos segue a dos militares. “Como nosso trabalho é realizado no mar, dependíamos das condições oceanográficas e da disponibilidade dos militares. Quando havia disponibilidade de sair para o mar, levantávamos às 6h30 para o café da manhã. Em seguida, arrumávamos os materiais de trabalho (equipamentos de mergulho, materiais para coleta, entre outros) para a saída de bote às 8h e retornávamos até as 15h”, descreve Lucas.

A cada saída ao mar, os estudantes realizavam dois mergulhos nos recifes ao redor da ilha, de aproximadamente uma hora cada, tempo necessário para a coleta de dados. E a rotina seguia intensa: “Quando voltávamos à ilha, tínhamos que descarregar o bote, limpar os materiais e encher os cilindros de ar para o próximo dia de trabalho. Durante a noite, organizávamos os dados coletados e planejávamos o próximo dia de mergulho. Dormíamos por volta das 23h.” Mas nesse dia a dia intenso, também havia momentos de descanso, quando eles desfrutavam das belezas da ilha, faziam trilhas e exercícios físicos.

Trajeto

Os estudantes partiram para a Ilha da Trindade no dia 10 de agosto, com saída da Base Naval na Ilha de Mocanguê (RJ), a bordo do Navio de Patrulha Oceanográfica Amazonas, da Marinha do Brasil. Chegaram na ilha três dias depois, no dia 13 de agosto. Para a viagem de retorno, saíram no dia 16 de outubro, chegando ao continente, em Vitória (ES), no dia 20 de outubro. No trajeto de ida, o navio levou também a equipe do programa de TV Domingo Espetacular, que veiculou, no dia 27 de agosto, a reportagemIlha brasileira esconde paisagens exóticas e riquezas submarinas”, que está disponível aqui.

Preservação

O professor do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC, Alberto Lindner, ressalta a importância do PELD-ILOC para o conhecimento e preservação da Ilha da Trindade: “O programa tem o mérito de investigar possíveis variações na população marinha ao longo dos anos. O monitoramento contínuo é muito importante. Quando coletamos dados nos mesmos sítios ao longo do tempo podemos detectar eventuais mudanças pela ação humana.” Pesca, poluição e mudanças climáticas são algumas das variáveis que podem prejudicar a vida nesses ambientes. Até o momento, entretanto, ainda não há quantidade de dados suficiente para fazer essa constatação. “O programa está na fase inicial e ainda é prematuro dizer se há alguma tendência ou flutuação anual”, afirma Alberto.

Para além das pesquisas que vêm sendo realizadas, o professor considera indispensável criar mecanismos que limitem as atividades no local: “A proposta que defendo para preservar a vida marinha de Trindade e Martin Vaz é o estabelecimento de uma zona sem pesca, conhecida como zona ‘no-take’. Para preservar espécies sensíveis e de grande mobilidade, como tubarões, o ideal é o estabelecimento dessa zona até o limite da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de Trindade e Martin Vaz, o que, de acordo com um estudo recente, garante uma melhor proteção aos tubarões, que nadam por grandes distâncias. Esta seria a maior área de preservação do Brasil, aumentando para mais de 13% a área de proteção marinha no país, em consonância com iniciativas internacionais semelhantes e com a meta de se preservar de 20 a 30% do bioma marinho.”

Daniela Caniçali/Jornalista da Agecom/UFSC