Conferencistas do Planeta.doc abordam meio ambiente, sustentabilidade, cinema e economia

24/10/2017 17:33

“Uma ferramenta usada para entretenimento ou como elemento de propaganda, mas também para informar e sensibilizar sobre os problemas que a todos nos afeta”, afirmou Pedro Fuente, diretor do Festival Internacional de Cinema e Meio Ambiente de Saragoça, na Espanha. Ele se refere ao cinema. O II Planeta.Doc Conferência, parte da mostra de cinema socioambiental Planeta.doc, reuniu cineastas, cientistas e empreendedores de diversos lugares do mundo para falar sobre essa questão que é responsabilidade de todos: o meio ambiente e o futuro da humanidade. Os palestrantes falaram de problemas a serem resolvidos, soluções criativas e iniciativas que já estão em andamento, em uma programação que iniciou às 14h e foi até 22h30, no auditório Garapuvu do Centro de Cultura e Eventos da UFSC.

Patrícia Saldanha

A jornalista e escritora Paula Saldanha, que tinha acabado de voltar de uma viagem ao Xingu, disse logo ao subir no palco: “Nós temos que imaginar que nossas cidades são nossas aldeias”, de acordo com o axioma da sustentabilidade: pensar globalmente e agir localmente.

Ela contou um pouco de sua trajetória na área socioambiental, que inclui a criação, em 1979, do primeiro programa sobre meio ambiente da TV brasileira, o Globinho Repórter, e a realização de 650 documentários para o programa Expedições, da rede EBC. “Nesses documentários, nós sempre batemos firme numa coisa: o Brasil por mais de 500 anos serviu como quintal do primeiro mundo”, disse Saldanha, e afirmou em seguida que a política de saque do Brasil colonial dura até hoje, como na extensa produção de soja para exportação que ocupa o lugar de antigas florestas do Cerrado e da Amazônia.

Saldanha explica que a política de saque consiste nos grandes ciclos de exportação de matéria-prima bruta: “Os ciclos de exportação da cana-de-açúcar que arrasou o Nordeste, da exportação do ouro que arrasou a região de Minas Gerais, da borracha, do cacau, do café. E em pleno século XXI isso continua acontecendo, com madeira e principalmente grãos. O que nada mais é que aniquilar nossos rios, nossas florestas, nossa biodiversidade”. Além de gerar consequências no meio ambiente, a política de saque também acarreta sérios problemas sociais: o êxodo rural, que leva ribeirinhos, pequenos produtores e pessoas que vivem da agricultura familiar a abandonarem suas terras e migraram para os centros urbanos, inchando os bolsões de pobreza das grandes cidades.

Daniel Balaban

Daniel Balaban Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC

“Eu queria convidar vocês, agora, a radicalizar”, começou o próximo conferencista, explicando que o significado da palavra “radicalizar” é encontrar a raiz, não ficar na superfície. Daniel Balaban é diretor do Centro de Excelência contra a Fome e representante do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas no Brasil. Como economista, sua palestra teve um enfoque diferente: dados e números.

“Oito pessoas detêm a mesma riqueza que a metade mais pobre do planeta: 3,6 bilhões de pessoas. E eu pergunto pra vocês: isso é sustentável?”. Em um mundo cada vez mais desigual, 800 milhões de pessoas no mundo sofrem com a insegurança alimentar. “É lógico que essas pessoas não vão conseguir pensar em mais nada, além de como elas vão fazer para comer, alimentar seus filhos, sua família”, observa Balaban.

O economista afirmou que é fácil acabar com a fome no mundo, mas não há interesse do sistema para que isso aconteça. Ele citou um estudo da ONU, que indica que a criação de sistemas alimentares para erradicar a fome no mundo até 2030 custaria apenas 160 dólares anuais por pessoa, ou 45 centavos por dia. Ele comparou  os custos para acabar com a fome, de 128 bilhões de reais por ano, com os gastos militares anuais no mundo: 1,4 trilhão de dólares.

Para finalizar, Balaban falou sobre a importância da união para resolver os problemas no mundo, citando a antiga filosofia africana do Ubuntu:

“Eu sou um ser humano porque

Eu pertenço. Eu participo. Eu divido

Em essência, Eu sou porque nós somos”

Lavínia Beyer Kaucz / Estagiária de Jornalismo / Agecom / UFSC