Reforma do Ensino Médio é alvo de críticas em painel do Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências

05/07/2017 15:31

A reforma do Ensino Médio foi alvo de duras críticas de pesquisadores e estudantes no Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (Enpec), realizado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) até 6 de julho. O painel sobre o tema contou com a participação dos professores Dante Moura (IFRN) e Paulo Carrano (UFF), da secundarista Ana Júlia Ribeiro (Colégio Estadual Senador Manoel Alencar Guimarães, Curitiba) e mediação de Marcelo Giordan (USP).

Ana Júlia ganhou notoriedade em 2016, após viralizar o vídeo com ela discursando na Assembleia Legislativa do Paraná e defendendo o movimento de ocupações nas escolas. Hoje com 17 anos, divide seu tempo entre os estudos para o vestibular do final do ano e encontros que discutem reforma do ensino médio, políticas de educação para juventude e os efeitos da Emenda Constitucional 95 (objeto das PECs 241 e 55 e que instituiu regime fiscal com limitação aos investimentos e gastos públicos).

Falando de pé, porque estava “nervosa”, Ana Júlia destacou que “(a reforma) só reforça o que a gente mais critica na escola, não propõe nada de diferente e ainda retira disciplinas capazes de despertar o senso crítico. Não sei como alguém tem coragem de defender isto”. Ela reclama da falta de infraestrutura e explica que a opinião da maioria dos estudantes sobre a escola é negativa. “Se perguntarem o que acham da escola, vão dizer que ‘poderia ser melhor’, ‘é desmotivadora’ e ‘feita para silenciar’”.

ENPEC apresentou discussão sobre a Reforma do Ensino Médio. Foto: Ítalo Padilha/Diretor de Fotografia da Agecom/UFSC

A secundarista explica que gostaria de um ensino mais “horizontal, plural e emancipatório”, ao contrário do que vê atualmente. Ela também critica as reformas trabalhista e previdenciária: “O governo não tem legitimidade e corre contra o tempo para aprovar estas medidas. Elas vêm mascaradas de benefícios, mas não é verdade, apenas cortam direitos”.

Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Dante Moura situou o processo de reforma do Ensino Médio “no contexto do golpe contra a sociedade brasileira”. De acordo com ele, havia, até 2016, avanços e retrocessos nas políticas públicas. Desde então, houve o “avanço dos retrocessos”. “A posição hegemônica hoje é que a dimensão econômica é a mais importante; o ser humano é apenas um insumo. Esta educação serve apenas para o mercado, para as pessoas serem apenas uma peça na engrenagem, mesmo que fortalecer a economia signifique a miséria humana”.

Ele afirma que outra sociedade é possível, sem desprezar a importância da economia. “Podemos formar sujeitos tecnicamente competentes, com conhecimento em ciência e tecnologia, mas também sujeitos críticos e autônomos, capazes de refletir criticamente”.

Moura acredita que há motivos justos para a reforma do Ensino Médio, que passam pela melhoria da infraestrutura das escolas, com democratização e incremento das carreiras do magistério. Entretanto, avalia, “a direção da reforma é submeter a educação aos interesses imediatos da economia. O que está em jogo é o barateamento do custo de formação da força de trabalho e, consequentemente, o próprio custo desta força de trabalho. O estado brasileiro irá se abster de fornecer uma formação mais qualificada”. Este cenário, conclui, será propício para a privatização das universidades públicas.

O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paulo Carrano corroborou as opiniões de Dante Moura e destacou que uma das finalidades da reforma do Ensino Médio é “estancar a demanda popular pelo ensino superior”. Carrano também elogiou a presença de Ana Júlia na mesa. “Este tipo de arranjo é importante, a geração de Ana Júlia encarna uma reação do chão da escola, que não hierarquiza as posições e luta por seus direitos. Os jovens são especialistas em educação porque vivem o seu cotidiano”.

O Enpec é um evento bienal promovido pela Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) e sua décima primeira edição, comemorativa aos 20 anos desta associação, segue até esta quinta-feira, dia 6, na UFSC. O tema central do encontro é “20 anos de Abrapec: Memórias de conquistas e movimentos de resistência”.

Caetano Machado/Jornalista da Agecom/UFSC