Diversidade sexual e violência de gênero são tema de intervenção na UFSC Blumenau

29/06/2017 13:31

Foto: estudantes do projeto

A sexualidade por si só é um tabu e a violência em torno dela é cercada de ainda maior constrangimento e silêncio, sendo raros os espaços voltados ao debate sobre o seu impacto. As questões sobre o tema estão permeadas e intrinsecamente relacionadas aos direitos humanos, tornando fundamental a discussão sobre as naturalizações e prescrições sociais que oprimem, controlam, cerceiam e impedem a manifestação das singularidades, assim abrindo precedentes para o sexismo, a GLBTIfobia e uma infinidade de violências que atravessam as relações de gênero.

No dia 26 de junho, em alusão ao “Dia dos Namorados”, data a qual ainda deixa seus rastros comerciais nas vitrines das cidades brasileiras, e a dois dias da celebração do Dia Internacional do Orgulho LGBTI (28/6), foi realizada uma intervenção, no auditório da UFSC Blumenau, voltada à problematização de duas modalidades de violação de direitos atreladas ao campo da afetividade: os relacionamentos abusivos e a LGBTIfobia.

O projeto consistiu na realização de oficinas voltadas à provocação de debates sobre essas duas modalidades de violência por meio de atividades lúdicas, seguidas de um debate aprofundado e acolhedor sobre os temas, englobando também o esclarecimento sobre os recursos acionados no enfrentamento destas adversidades e a participação da rede social de apoio para lidar com tais violações dos direitos humanos. Entre estudantes de licenciatura e engenharias, bem como servidores do centro, cerca de 50 sujeitos participaram da execução do projeto ao longo de uma tarde.

Os relacionamentos abusivos são aqueles nos quais as relações de poder são assimétricas entre as pessoas, caracterizados por ações intencionais de controle do(a) outro(a) em benefício próprio. A LGBTIfobia se constitui como prática discriminatória de hostilidade geral, psicológica e social que se manifesta a partir de inúmeras violências cometidas contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e pessoas intersex, bem como contra sujeitos heterossexuais assim identificados.

No Brasil a taxa de feminicídios é de 4,8% para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O país também apresenta os maiores índices de assassinatos entre a comunidade LGBTI no mundo. Para se ter uma ideia, dados alarmantes foram apontados pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais, que correspondem a uma morte a cada 25 horas no país. Além dessas estatísticas, outras tantas que sinalizam a grave desigualdade de gênero que estrutura a sociedade brasileira, nos indicam o desafio e a urgência do compromisso social das instituições no que tange à promoção da educação sexual na perspectiva dos direitos humanos e das relações de alteridade.

Os professores Aldo Sena de Oliveira (da área de Química) e Renata Orlandi (da área de Psicologia da Educação) consideram este tipo de debate no campo da Educação sempre desafiante: “A experiência com estes estudantes e servidores/as reforçou a necessidade de enfrentar tais processos de dominação simbólica, normalização, ajustamento, marginalização e exclusão. No cenário brasileiro, a provocação de discussões profundas  no campo da Educação Sexual sempre foi desafiadora, sobretudo hoje, em tempos de desqualificação da(o)s docentes e dos movimentos sociais comprometidos com a garantia deste direito humano. As questões acerca da sexualidade estão permeadas e intrinsecamente relacionadas aos direitos humanos, tornando fundamental os diálogos sobre as naturalizações e prescrições sociais que oprimem, controlam, cerceiam e impedem a manifestação das singularidades e de sujeitos fora da norma heterossexual. Essas violências reforçam o sexismo, a misoginia, a GLBTIfobia e uma infinidade de violências que atravessam as relações de gênero. Nesta perspectiva, acreditamos que é fundamental resistirmos aos mecanismos de objetivação e silenciamento, por meio da construção de novas práticas curriculares, culturais e de privilégio para a constituição de sujeitos múltiplos, livres e iguais”, avaliam.

Colaboraram no planejamento, sistematização e realização da atividade de ensino e extensão universitária os(as) estudantes do curso de Licenciatura em Química matriculados na disciplina Educação, Direitos Humanos e Diversidade Sociocultural (BLU7197) Eduarda Giese, Mauricio Raitz Junior, Morgana Aline Voigt, Morgana Sofia Zilse, Nilton Máximo Junior, Paola Stéfany Maass e Rhaisa Gazola Pezzi Verlindo, sob a orientação dos professores Renata e Aldo. O projeto, elaborado de forma interdisciplinar, apóia-se nos estudos e debates realizados em sala na disciplina, construída a partir da interface entre o processo de formação de professore e a esfera dos Direitos Humanos, visando a problematização e  análise da produção de discursos, enunciados, gestos e ocorrências, em situações em que se (re)constroem saberes, sujeitos, subjetividades, diferenças e hierarquias.

A opinião de quem esteve lá

“Acho que o mistério gerado em torno da intervenção foi muito interessante. Consegui participar de apenas uma das atividades. Achei interessante como logo vinha em mente uma resposta pronta, mas, em seguida, após as reflexões, elaborava algo melhor”.

  • Brenda Teixeira Machado, estudante do 5º semestre do Curso de Licenciatura em Química

“Esse é um conceito muito importante para ser tratado na universidade e as temáticas podem ser transformadas em algo como uma mostra de arte, por exemplo”.

  • Darlei Daniel Hertel, estudante do 4º semestre do Curso de Licenciatura em Química

Representatividade municipal

No dia 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTI, um importante passo na luta pela representatividade foi conquistado em Blumenau. Alice Alves é a primeira mulher trans a tomar posse no Conselho Municipal da Juventude (Gestão 2017/2019). A solenidade foi realizada no Salão Nobre da Prefeitura de Blumenau.

“Sinto orgulho de ser a primeira travesti a ocupar esse posto, minha responsabilidade será levantar todas as demandas da população LGBT, nossa comunidade, em especial xs jovens tem urgência de estarem na agenda das políticas públicas”, declarou em entrevista ao Coletivo LGBT Liberdade.

O conselho é formado por representantes governamentais e da sociedade civil e tem a missão de atuar na discussão, elaboração, implementação e avaliação de políticas públicas voltadas aos jovens no município.

Texto: Comunicação UFSC Blumenau