Laboratório da UFSC atua há mais de 20 anos em pesquisas na área de virologia humana e ambiental

30/05/2017 12:08

Duas professoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), das áreas de Farmácia e Biologia, depararam-se em suas jornadas acadêmicas com um objetivo em comum: desenvolver as primeiras pesquisas com vírus na Instituição. A parceria já existe há 23 anos e a ideia pioneira se consolidou e se projetou para além das salas de aula da Universidade.

Cláudia Maria Oliveira Simões, do Centro de Ciências da Saúde (CCS), e Célia Regina Monte Barardi, do Centro de Ciências Biológicas (CCB), são as criadoras e coordenadoras do Laboratório de Virologia Aplicada (LVA), no campus de Florianópolis da UFSC.

O trabalho de tantos anos se compromete, principalmente, “na geração de conhecimento científico e na formação de pessoal altamente qualificado” destacam as professoras. Isto se comprova na orientação de alunos brasileiros e estrangeiros e na atuação de egressos do LVA na própria UFSC, em outras universidades, órgãos governamentais, fundações, institutos, centros de pesquisa no Brasil e em outros países.

As docentes já desenvolviam atividades e estudos em Virologia fora da UFSC, e a união de suas competências tornou o projeto uma realidade. Em 1992, no início dessa trajetória, Cláudia Simôes havia retornado do seu doutorado em Ciências Biológicas e da Saúde pela Universidade de Rennes I, na França, e Célia Barardi tinha recém-ingressado na UFSC e trabalhava em cooperação com o Laboratório Central de Saúde Pública de Santa Catarina (Lacen).

O primeiro espaço físico do LVA foi cedido pelos diretores do CCS e CCB à época, respectivamente, Lúcio Botelho e Carlos Fernando Miguez, e localizava-se nas antigas dependências do Laboratório de Anatomia Patológica, onde permaneceu até 1997. A atual estrutura, no terceiro andar do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia (MIP) do CCB, possui ambientes próprios para ensaios envolvendo Cultura de Células, Processamento de Amostras, Análises Microbiológicas, Bioacumulação de Agentes Infecciosos, Manipulação de Ácidos Nucléicos, e Eletroforese.

As professoras lideram dois grupos de pesquisa, dos quais participam alunos e professores dos programas de pós-graduação em Farmácia (CCS) e em Biotecnologia e Biociências (CCB). Cláudia desenvolve a linha de pesquisa “Análise e Desenvolvimento de Fármacos de Origem Natural” e Célia, a de “Patógenos Ambientais”.

Nas pesquisas que Cláudia coordena – envolvendo produtos de origem natural ou sintética com atividades farmacológicas para a promoção do potencial biotecnológico e farmacêutico da biodiversidade nacional – o LVA executa a parte pré-clínica. Assim, é feita a triagem das amostras e a elucidação dos seus mecanismos de ação, envolvendo infecções virais ou alguns tipos de cânceres.

“Para um medicamento chegar ao mercado, ele passa por um longo processo de pesquisa e desenvolvimento, e o nosso trabalho consiste nas etapas iniciais”, esclarece. A pesquisadora conta com a parceria de grupos nacionais e internacionais para os estudos de produtos oriundos da biodiversidade, preferencialmente, a brasileira. No conjunto, são estudadas plantas medicinais, fungos (cogumelos), animais terrestres e marinhos (esponjas, corais, ostras, camarões, e outros) e também compostos obtidos por síntese ou semissíntese.

O grupo de pesquisa já avaliou em torno de 1.500 extratos brutos e purificados de origem natural, e mais de mil substâncias sintéticas, gerando a publicação, até o momento, de 171 trabalhos em periódicos científicos e cinco pedidos de proteção intelectual ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

Desde 2007, o LVA estuda adicionalmente a absorção intestinal e tópica, tanto dos medicamentos como a aplicação desses, utilizando metodologias in vitro e ex vivo. Para isso, estabeleceu parcerias com as universidades de Uppsala, na Suécia, e a de Monash, na Austrália, e obteve apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).

De 2009 a 2014, o LVA participou da Rede de Nanobiotecnologia Nanofito, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A UFSC, em conjunto com as universidades federais de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul avaliaram as ações anti-herpética e antitumoral de produtos naturais com base nanotecnológica.

Nesse mesmo período, a professora Cláudia participou de dois importantes projetos internacionais financiados pelo International Research Staff Exchange Scheme (IRSES), Fundação Marie-Curie, da Comunidade Europeia. O primeiro envolveu Alemanha, Portugal, Turquia e o Brasil, representado pela UFSC e UFMG. Foram realizados estudos com plantas do gênero Digitalis, sua taxonomia molecular, preservação, fitoquímica, e ações anti-herpética e antitumoral, sendo que esses dois últimos foram realizados no LVA. No segundo projeto participaram Áustria, Grécia, África do Sul, EUA, Suíça e Brasil, representado pela UFSC e UFRGS, e investigaram a ação cardiotóxica de plantas medicinais brasileiras, europeias e africanas.   

Os trabalhos atuais têm como objetos de estudo as cucurbitacinas – compostos isolados de plantas nativas brasileiras (por exemplo taiuiá e buchinha-do-norte) ou obtidos por semissíntese; e os cardenolídeos – outros compostos isolados de várias plantas ou obtidos por semissíntese -, e envolvem estudos fitoquímicos, de síntese orgânica, de tecnologia farmacêutica e de aplicação de modelos in vitro e in vivo.

A linha de pesquisa de contaminantes do ambiente aquático iniciou no LVA em 1996, momento de grande expansão da Maricultura em Santa Catarina. O estado é o principal produtor de ostras do país. Para oferecer maior qualidade ao produto e garantir segurança à população no consumo de frutos do mar, são feitas análises para verificar o nível de poluição existente em moluscos comestíveis e nas águas do litoral catarinense. “Trabalhamos com vírus de transmissão fecal oral e utilizamos tanto técnicas de cultura celular como molecular” explica a coordenadora Célia.

A bioacumulação viral, mecanismo natural de filtração dos patógenos em moluscos, é a ferramenta básica utilizada pelo LVA para a posterior detecção de vírus em ostras. O estágio pós-doutoral que a professora Célia realizou, em 1997, na Universidade Macquarie, na Austrália, contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa.

O LVA analisa vários tipos de bactérias e vírus entéricos que podem ser transmitidos por moluscos, além de ter conduzido importantes estudos referentes à depuração das ostras utilizando tanques com luz ultravioleta. Além de detectar vírus como os da Hepatite A, Rotavírus, Norovírus e Adenovírus, o monitoramento permite que seja avaliada a quantidade de coliformes nas águas de cultivo e a presença de bactérias dos tipos salmonelas e estafilococos.

Houve uma contribuição fundamental em 1998 quando o LVA passou a integrar o Brazilian Mariculture Linkage Program (BMLP), dirigido pelos professores Carlos Rogério Poli, do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da UFSC, e Jack Littlepage, da Universidade de Victoria, no Canadá. O Laboratório participou por cinco anos e recebeu apoio financeiro da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (Cida), o que permitiu que adquirisse equipamentos e se estruturasse nesta linha de pesquisa. O período foi de intensas colaborações com a Universidade de Victoria, com intercâmbio de docentes e discentes entre Brasil e Canadá. Ainda foram oferecidos cursos de treinamento de controle sanitário de moluscos bivalves nas universidades federais do Espírito Santo, da Bahia, do Maranhão e do Rio Grande do Norte.

O LVA também conduziu, recentemente, um projeto colaborativo com o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) para avaliar a qualidade sanitária da espécie Amalocardia braziliensis, popularmente conhecida como berbigão, que está ameaçada de extinção na Ilha de Santa Catarina.

Além dos estudos envolvendo a maricultura, que foram o ponto de partida da Virologia Ambiental na UFSC, o LVA atua em outra frente de grande interesse para a economia catarinense, a Suinocultura. Neste segmento, é avaliado o reuso seguro de águas, além dos produtos de biodigestores para posterior utilização como biofertilizantes confiáveis. Também são desenvolvidos trabalhos de monitoramento viral de águas de consumo e de esgoto tratado, em sistemas alternativos. Atualmente, o escopo dos projetos na área ambiental se ampliou por meio de colaborações com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Suínos e Aves, de Concórdia (SC), e a de Gado de Leite, de Juiz de Fora (MG). Todas essas pesquisas se aperfeiçoaram com um segundo estágio pós-doutoral realizado pela professora Célia na Universidade de Barcelona, em 2008.

O LVA é um dos pioneiros da Virologia Ambiental no Brasil e serviu de base para a abertura dessa linha de pesquisa em outras universidades e institutos de pesquisa no país. Além disso, os estudos resultaram, até o momento, em 77 trabalhos publicados em periódicos científicos e três capítulos de livros.

Para incrementar a expansão da Virologia Ambiental, Florianópolis foi sede de eventos e cursos organizados pelo LVA:

– 14º Encontro Nacional de Virologia (2003). Na ocasião, a Sociedade Brasileira de Virologia entendeu a importância de introduzir a Virologia Ambiental no rol das áreas de interesse, dada a crescente relevância do tema no mundo;

– Curso Latino-Americano de Treinamento em Virologia Ambiental (2006). O evento na UFSC foi um marco para a expansão da Virologia Ambiental em outras Instituições – Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Belém do Pará;

– 13º Simpósio de Microbiologia da Água (2013);

– 27º Congresso Brasileiro de Virologia (2015).

E para março de 2018, na capital catarinense, o LVA organizará o quarto Simpósio Latino-Americano de Virologia Ambiental. A primeira edição ocorreu no Rio de Janeiro (2010); a segunda no Uruguai (2013), e a terceira na Argentina (2016).

 

Mais informações: lvapli.paginas.ufsc.br

Laboratório de Virologia Aplicada, 3º andar do MIP, CCB, Córrego Grande, Florianópolis/SC

Fone: (48) 3721-5207 e 3721-5515.

 

Rosiani Bion de Almeida/Agecom/UFSC

Fotos: Jair Quint/Agecom/UFSC