Departamento de Atenção à Saúde da UFSC promove palestras sobre assédio moral

11/05/2017 11:08

Palestra “Consequências do assédio moral para os trabalhadores e organizações” realizada no auditório da Reitoria da UFSC no dia 10 de maio.

Coordenadoria de Promoção e Vigilância em Saúde (CPVS) do Departamento de Atenção à Saúde (DAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) promoveu duas palestras relacionadas ao tema assédio moral na manhã da última quarta-feira, 10, no auditório da Reitoria da UFSC, em Florianópolis. A atividade fez referência ao Dia Nacional de Combate ao Assédio Moral celebrado no dia 2 de maio.

A primeira apresentação, intitulada “Consequências do assédio moral para os trabalhadores e organizações”, foi ministrada pela professora do Departamento de Psicologia da Universidade, Suzana da Rosa Tolfo, e pelo o administrador da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de Santa Catarina, Renato Tocchetto de Oliveira. Ambos são membros do  Núcleo de Estudos de Processos Psicossociais e de Saúde nas Organizações e no Trabalho (Neppot) da UFSC.

Suzana destacou a relação do tema com a saúde do trabalhador e a gestão do ambiente de trabalho. “Atos, comportamentos e atitudes que humilham, constrangem. É um prazer estar aqui, mas não é um prazer falar disso. O assédio moral é violência predominantemente psicológica e essa é uma grande dificuldade para prevenir e coibir a prática na organização em todas as relações”. A professora relatou aumento do registro de situações que envolvem a prática. “Geralmente, identificamos as situações de assédio nas relações interpessoais e existem sempre duas pessoas, mas, às vezes, existe um grupo e práticas organizacionais, como metas e exigência abusivas, que não estão descritas nas funções do cargo”, afirmou.

Entre as consequência do assédio moral, estão redução de produtividade e de qualidade de produtos e serviços, aumento de erros, acidentes e aposentadorias, exposição negativa do nome da organização, ocorrências de licenças médicas, custos sociais e financeiros às organizações e passivos com indenizações. “O assédio moral não é uma foto, é um filme. Uma sequência de fatos que vão desgastando a pessoa, criam ressentimentos. O assédio vai se acentuando até a saída da organização, e pode chegar até a suicídio e assassinato. O suicídio não é incomum, principalmente se o assediado perde o apoio da família”, pontuou o administrador da SRTE.

“Se pergunto para a professora Suzana o que ela é, ela vai dizer, ‘sou professora’. O trabalho é o que somos e, por isso, o trabalho é tão central na nossa vida. A UFSC é uma das pioneiras na criação de políticas de combate ao assédio moral e isso abre caminho para outras instituições”, avaliou Renato, que afirma estar o assédio moral estritamente vinculado ao poder.

O relato de um estudo produzido por um neurocientista com babuínos na África foi feito pelo administrador durante sua fala. O estudo concluiu que, em três horas, os animais conseguem todas as calorias de que necessitam para o dia. O resto de tempo passariam torturando os outros membros do grupo. Fariam isso como forma de ascensão social. “Os torturadores mais atrozes foram os que mais se destacaram”, disse.

O palestrante relatou, ainda, um outro estudo, feito com trabalhadores da Inglaterra, que identificou a existência de uma relação próxima entre o que aconteceu na África e as práticas daquele grupo humano. “Ocorreu de o grupo de macacos de maior status ingerir carne contaminada por tuberculose. A morte dos animais levou a ascensão de outros, que tinham uma função social no grupo e eram mais justos e gentis. Os outros macacos, então passaram a aderir a essas regras e cresceram e prosperaram. Nós, humanos, vamos ter de comer carne com tuberculose para evoluir e prosperar?”, questionou.

O setor jurídico do Sindicato dos Trabalhadores da UFSC (Sintufsc) atende a questões de assédio moral que, segundo o coordenador-geral do Sindicato, Celso Ramos Martins, não são poucas. “Encaminhamos um diálogo em primeiro plano com o servidor e enviamos um documento para a chefia para entender o que está acontecendo. Com várias reuniões, vamos tentando resolver as situações. Muitas vezes, há acordos com as chefias, ou conseguimos trocar o servidor de setor. Esse é o trabalho que é feito dentro do Sindicato em conjunto com a instituição”, disse. “Assédio moral é toda e qualquer conduta que caracteriza comportamento abusivo, frequente e intencional, através de atitudes, gestos, palavras ou escritos que possam ferir a integridade física ou psíquica de uma pessoa, vindo a pôr em risco o seu emprego ou degradando o seu ambiente de trabalho”, complementou Celso.

Deteriorização das condições de trabalho, isolamento e recusa de comunicação, atentado contra a dignidade, violência verbal, física ou sexual, provocar a desestabilização emocional do trabalhador ou a remoção para outro local de trabalho, pressioná-lo a pedir demissão e fazer com que fique subjugado estão entre as principais formas de assédio.

Para Renato, o individualismo, a cultura de competição, a falta de empatia e a banalidade do mal criam uma cultura propícia ao assédio moral. “O assédio moral pode causar desgaste psíquico e degradação do ambiente de trabalho. A pessoa fica estigmatizada. Pode gerar problemas de saúde, inclusive psíquica, estresse e levar à diminuição da produtividade. Com isso, o trabalhador passa a ‘dar razão’ a quem o assedia”, explicou.

“Quando a gente fala de trabalho, fica muito a questão do trabalhador, mas os alunos, monitores, bolsistas também são trabalhadores. Não é uma crítica específica a essa universidade, até porque estamos sendo pioneiros. Temos recebido relatos de alunos de pós-graduação que sofrem assédio de colegas e dos próprios orientadores”, afirmou Suzana.

O assédio moral pode ser descendente – do superior para o subordinado; ascendente – do subordinado para o superior; horizontal – entre colegas; e misto – entre superiores, colegas e subordinados. “Entende-se que sempre existe uma responsabilidade por parte da organização quando se identifica uma prática de assédio moral. Defendemos punições, mas, preferencialmente, a prevenção para termos ambientes mais saudáveis”, afirmou Suzana.

A segunda palestra do dia, “Casos concretos, exemplificando o que é e o que não é assédio”, foi apresentada pelo procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), Acir Alfredo Hack.

 

Texto: Bruna Bertoldi / Jornalista / Agecom / UFSC

Fotos: Ítalo Padilha / Fotógrafo / Agecom  / UFSC