Colégio de Aplicação promove debate sobre feminismo e direitos da mulher

08/03/2017 13:59
Eliane Schimidt fala sobre reforma da previdência, no auditório do Colégio de Aplicação. Foto: Lavinia Kraucz/Agecom/UFSC)

Eliane Schimidt fala sobre a reforma da previdência, no auditório do Colégio de Aplicação. (Foto: Lavinia Kraucz/Agecom/UFSC)

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (CA/UFSC) promoveu, nesta quarta-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, um debate envolvendo mulheres que falaram sobre a perda de direitos essenciais e questões feministas atuais. O auditório do Colégio ficou cheio de alunos, docentes, técnicos e comunidade universitária em geral. O evento foi promovido pelo Laboratório de Ensino de História do CA (Lehca).

A primeira manifestação, da diretora Josalba Ramalho, foi a de reforçar o caráter de luta da data. Josalba ressaltou a importância da sororidade, da união entre mulheres baseada na empatia e no companheirismo. “As amigas são essenciais para que eu possa me ver, rever, apoiar, contar as verdades que muitos não querem dizer. Queria dedicar esse dia às amigas”, reforçou. Josalba agradeceu às palestrantes e foi aplaudida quando afirmou: “Na escola vai ter discussão de gênero, sim! E cada vez mais”.

A primeira palestrante, Eliane Schimidt, foi servidora de carreira e superintendente do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) da região sul entre 2005 e 2012. Eliane apresentou dados e criticou a proposta de reforma da previdência. “As pessoas que hoje recebem benefícios da previdência são 34 milhões de brasileiros. Mais da metade são mulheres. A previdência social tem critérios, requisitos para a pessoa acessar os direitos. Quando se estabelece uma redução sistemática das políticas públicas na saúde, educação, assistência e previdência, teremos impacto imediato sobre a condição da mulher na sociedade”, apontou. “As mulheres na nossa sociedade estão muito dedicadas ao cuidados – filhos, doentes e idosos – e se não há política pública que ampare as crianças, doentes e idosos, a mulher será sobrecarregada”.

Professora Cristina Scheibe Wolff. Foto: Lavínia Kraucz/Agecom/UFSC)

Professora Cristina Scheibe Wolff. Foto: Lavínia Kraucz/Agecom/UFSC)

A reforma da previdência proposta atualmente apresenta, entre outras mudanças, a equiparação da idade mínima para aposentadoria, com homens e mulheres se aposentando após os 65 anos de idade. “Essa reforma impõe um caráter de classe, um recorte de gênero, quando prevê o aumento da idade e mudança da concessão da pensão por morte. O argumento é que as mulheres vivem mais, mas se esquecem que os homens morrem mais e mais cedo. Igualar a idade, porque vivemos mais e estamos no mercado de trabalho, é desigual porque trabalhamos mais e estamos em uma posição claramente subalternizada: salário menor pelo mesmo trabalho, desigualdade na divisão do trabalho doméstico. Quando tivermos igualdade em tudo podemos voltar a conversar sobre igualdade na idade mínima. Até lá, nem um dia de redução dos nossos direitos!”

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Professora Cristina Wolff fala sobre feminismo e direitos das mulheres. (Foto: Lavinia Kraucz/Agecom/UFSC)

“A redução ao acesso à previdência que essa proposta de reforma impõe é drástica, é dramática, nunca se viu. A história nos ensina que não tem conquista sem luta, temos que dizer que não queremos nenhum direito a menos, e nem ser uma mulher a menos por lutar por nossos direitos”, enfatizou Eliane.

A segunda parte do evento focou na história das lutas de mulheres, e nas questões de gênero da atualidade. A professora do Departamento de História da UFSC, Cristina Scheibe Wolff, que foi inclusive aluna do CA, apresentou as diferentes terminologias de gênero, com explicações sobre a que se refere sexo e gênero. “O gênero se refere aos aspectos culturais, históricos e sociais, e é sempre uma construção – o que é feminino em uma sociedade, em outra pode não ser considerado feminino, ou ao longo da historia vai mudando. As questões de gênero estão sempre relacionadas a relações de poder”, explicou.

A representatividade das mulheres em espaços de poder também foi lembrada pela professora Cristina. “Em Santa Catarina, desde que existe a Assembleia Legislativa, tivemos 12 mulheres deputadas, e uma única negra. Por que as mulheres não estão lá? E em Florianópolis em toda a história foram sete vereadoras! Por que isso?”, questionou. “Os feminismos contemporâneos se concentram na luta por direitos iguais entre homens e mulheres, mas também é uma luta comprometida com a igualdade em outros aspectos sociais, como raça, etnia, classe, nacionalidade, geração, religião, capacidade física. O feminismo não é o contrário de machismo, mas é o combate ao machismo. Não é contra os homens, é contra a desigualdade”, ressaltou.

A estudante Júlia Gonçalves, do primeiro ano do Ensino Médio, destacou a relevância de dedicar um dia para o debate sobre questões de gênero. “O Colégio nos oferece muita informação, mas tem muita gente que acaba não escutando o que está acontecendo na sociedade. Apesar de os professores abordarem, são poucos os momentos em que a gente literalmente para e fala sobre questões de gênero, sobre o que é o feminismo, o machismo”, frisou. “Falar sobre gênero é necessário, o feminismo é necessário. As consequências desses debates são gigantes para nós que somos estudantes. Isso faz parte do nosso cotidiano, da realidade que estamos vivendo”, salientou a aluna.

Mayra Cajueiro Warren/Jornalista/Agecom/UFSC

Fotos: Lavínia Kraucz/Estagiária de Jornalismo da Agecom/UFSC