Pesquisadoras da UFSC estudam bactérias na Antártica

20/02/2017 21:41
Carolina e Giulia. (Foto: Renato Gamba Romano)

Carolina e Giulia. (Foto: Renato Gamba Romano)

Duas estudantes de Agronomia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carolina Alves Fernandes e Giulia Fabrin Scussel, estiveram na Antártica por 24 dias, entre janeiro e fevereiro, participando de uma pesquisa sobre as bactérias presentes naquele ambiente e sua ligação com as mudanças climáticas que acontecem no planeta. As alunas trouxeram as amostras coletadas para a Universidade, para serem analisadas. A pesquisa é realizada por meio do Laboratório de Ecologia Molecular e Extremófilos (LEMEx), do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia do Centro de Ciências Biológicas (CCB), sob a coordenação do professor Rubens Duarte.

O projeto é o Microsfera – A Vida microbiana na Criosfera Antártica: mudanças climáticas, e bioprospecção, que tem como objetivos estudar as bactérias da Antártica e verificar se esses micro-organismos podem fornecer informações sobre mudanças climáticas. É coordenado pela professora Vivian Pellizari, do departamento de Oceanografia Biológica do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), com a participação de muitos outros docentes, entre eles o professor Rubens Duarte. “A ideia é que as bactérias respondem muito rapidamente às mudanças do clima e ambientais, adaptando seu metabolismo de forma a se adequar ao frio, ciclos de congelamento e descongelamento, aos períodos de muita luz ou de escuridão (verão e inverno antártico, respectivamente) etc. Quando há mudanças no clima, numa escala de vários anos, as bactérias do ambiente também mudam: algumas espécies aparecem, outras continuam no ambiente e outras somem”, explica o professor Rubens.

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

Para irem à Antártica, as estudantes precisaram se preparar no Rio de Janeiro, em agosto de 2016, onde estiveram durante uma semana realizando atividades físicas, provas de resistência, preparação de trabalho em equipe com a supervisão de psicólogos e assistindo a palestras sobre o que iriam enfrentar. “Lá conhecemos o pessoal que trabalha no Programa Antártico Brasileiro (Proantar), da Marinha do Brasil, e recebemos orientações sobre vestimentas, o que levar, entre outras informações”, explica Giulia. O treinamento é oferecido a todos os pesquisadores que participam do programa.

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

Carolina e Giulia ficaram alojadas na base Professor Julio Escudero, do Instituto Antártico Chileno (Inach). “A presença das pesquisadoras nessa base deveu-se ao fato da estação científica brasileira Comandante Ferraz estar em obras, após o incêndio que destruiu 80% da sua estrutura em 2012”, detalha o professor Rubens. Além disso, ele ressalta, “a área de coleta dos solos e do gelo fica bem próximo à base chilena”. As alunas coletaram amostras de solo e gelo das geleiras, que ficaram guardadas em freezers do navio do Proantar, para chegarem congeladas ao Brasil, garantindo que não haja distúrbios nas bactérias durante o transporte.

Carolina explica que as coletas foram realizadas no solo do recuo da Geleira Collins e de blocos de gelo. “As amostras nos ajudarão a realizar estudos da comunidade microbiana e sua biodiversidade, além de realizar o levantamento de dados sobre os organismos adaptados a sobreviver em um ecossistema frio, seco, oligotrófico e com grandes flutuações de temperatura, especialmente na Península Antártica, um dos ambientes que mais sofre os efeitos das mudanças climáticas”, salienta a pesquisadora. “Queremos saber como essas mudanças podem exercer pressões seletivas nos microrganismos, como ocorre a sucessão microbiana no recuo de geleira e qual a sua contribuição nos ciclos biogeoquímicos, e como essa reativação das comunidades microbianas através da exposição do solo podem influenciar o efeito estufa”, explica.

Rotina e experiências

Base onde as pesquisadoras da UFSC ficaram alojadas.  (Foto: Carolina Fernandes)

Base onde as pesquisadoras da UFSC ficaram alojadas.
(Foto: Carolina Fernandes)

Em sua temporada no continente congelado, Carolina e Giulia trabalharam em uma equipe que contava também com a participação de Renato Gamba Romano, graduando em Oceanografia da USP e Antônio Calvo, alpinista profissional contratado pelo Proantar. O grupo tinha uma rotina definida e marcada pelo clima e compromissos dos demais pesquisadores. Elas explicam que a região onde estavam tem variações climáticas constantes, com mudanças muito drásticas e bruscas. “Definíamos a rotina um dia antes, geralmente na parte da noite. Sentávamos com o grupo de brasileiros que estava conosco e, com a previsão do tempo em mãos, planejávamos os próximos passos da pesquisa. Junto com o alpinista, era decidido quem sairia a campo e quem ficaria no laboratório”, relata Giulia. Carolina complementa que as coletas duravam praticamente o dia todo, as pesquisadoras caminhavam muitos quilômetros, quebravam gelo, carregavam muitas amostras e em algumas saídas contavam com o apoio de transporte e em outras não.

(Foto: Carolina Fernandes)

(Foto: Carolina Fernandes)

Durante o período na Antártica, as pesquisadoras da UFSC fizeram sete saídas a campo. Nos dias em que não era possível realizar coletas (pelo mau tempo ou outros fatores de logística) as alunas se dedicavam aos trabalhos internos no laboratório da estação, como a realização de processos de filtragem de gelo e preparação e esterilização de materiais utilizados na coleta.

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

“Nas horas vagas tínhamos a oportunidade de conhecer novos pontos da Antártica que não eram os de coleta, enriquecíamos a nossa experiência fazendo novas amizades com pessoas de outros países, conhecendo outros projetos de pesquisa e trocando informações. Tirávamos um tempinho para leitura e também para a diversão jogando ping-pong e assistindo a filmes e vídeos em espanhol com o pessoal da base”, complementa Carolina.

Giulia conta que, na ilha onde estavam, as mudanças climáticas eram muito evidentes. “É onde a temperatura mais aumentou. Não tenho um parâmetro de comparação, para saber como eram nos anos anteriores. Mas percebe-se grandes áreas de degelo e, conversando com outros pesquisadores, nota-se grande preocupação sobre o efeito do aquecimento climático nas espécies que vivem naquela área”, ressalta.

Carolina relata que, entre os pesquisadores da região, a preocupação com o aquecimento global e o degelo consequente dessas mudanças climáticas é uma constante. “Presenciamos uma frequência grande de chuva. Ao caminhar até os locais de coleta era possível observar como o cenário e a paisagem sofrem alterações típicas dessa época do verão, além do elevado processo de retração da geleira estudada. Muitos pesquisadores realizam estudos em áreas diferentes, porém com o mesmo propósito de entender como a dinâmica na Antártica está ligada às mudanças climáticas do nosso planeta. Ainda há muitos experimentos, análises e estudos a serem realizados para que possamos obter as respostas necessárias para essa questão. A Antártica é uma das regiões mais envolvidas nos debates sobre os efeitos de mudanças climáticas e ainda há muito o que ser estudado”, salienta.

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

(Foto: Giulia Scussel)

As experiências no continente gelado foram marcantes para as duas pesquisadoras. Tanto pela descoberta de um novo ambiente como pelo autoconhecimento de viver em um local sem acesso a muitas facilidades da vida moderna, como um banho demorado, a proximidade aos amigos e familiares, a escolha da alimentação.

Mesmo com algumas dificuldades, estar na Antártica foi algo inesquecível para as alunas: “realizar pesquisa a campo no lugar mais inóspito, mais frio, mais seco, mais alto, mais ventoso, mais desconhecido e o mais preservado de todos os continentes é incrível! Desejo que essa experiência seja a porta de entrada para novas oportunidades de pesquisa nessa área. E como lição de vida, foi a superação de muitos limites, se ver tão pequeno em meio a imensidão, poder ouvir a si mesma e a natureza e apenas isso por horas, perceber como o planeta é grande e o quanto é possível quebrar as barreiras da distância. Eu percebi o quanto sou capaz de fazer coisas que jamais imaginei e quantas outras ainda estão por vir! Conheci pessoas maravilhosas, pesquisas e projetos incríveis, vivenciei outras culturas e fiz muitas amizades, sendo que algumas serão para a vida inteira. Até participei de uma maratona no continente gelado! A Antártica é o continente dos superlativos, e posso dizer que foi um novo marco na minha vida”, conta Carolina.

 

Mayra Cajueiro Warren
Jornalista da Agecom/UFSC