Colégio de Aplicação colhe frutos do Projeto Lixo Zero

09/12/2016 09:10
Caixas coletoras de papel para reciclagem na sala dos professores do Colégio de Aplicação. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

Caixas coletoras de papel para reciclagem na sala dos professores do Colégio de Aplicação. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

Iniciado em 2014 com a criação e o apoio do Núcleo de Educação Ambiental do Centro Tecnológico da Universidade Federal de Santa Catarina (NEAmb/UFSC), o projeto de extensão Lixo Zero, do Colégio de Aplicação (CA) evoluiu e agora passa a ser utilizado como exemplo para escolas do município de Florianópolis. Sem utilizar copos descartáveis há mais de dois anos, o Colégio passou por uma transformação, graças ao engajamento e colaboração de professores, técnicos, estudantes e voluntários.

Além de não mais utilizar copos descartáveis, a escola conseguiu reduzir pela metade a quantidade de resíduos com iniciativas como a separação de recicláveis e a compostagem do resíduo orgânico, que após ser transformado em composto, serve para adubar a horta orgânica da escola. Outros benefícios tangíveis foram a melhoria na limpeza da escola e uma redução no desperdício de alimentos na hora do lanche. A mobilização é contínua, graças à formação de um coletivo formado por voluntários da comunidade escolar envolvidos com o Lixo Zero.

A diretora da escola, Josalba Ramalho Vieira, explica que a educação pela sustentabilidade é uma das diretrizes da escola no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFSC. “O Projeto Coletivo Lixo Zero e da Horta contribuem para a beleza, leveza, limpeza, cuidado e educação com o planeta. É nosso desejo e obrigação de fomentar e incentivar novos projetos, difundir que todos os espaços da escola são educadores”, ressalta. “Havia queixas do pessoal da merenda, guerras de alimento, tudo isso foi levado em conta. Colocamos a compostagem em um local visível justamente para que as gerações aprendam que precisamos cuidar do que a gente come, do que descartamos e da produção de novos alimentos,” pondera a diretora.

Copos reutilizáveis do projeto Lixo Zero. (Foto: Mayra Cajueiro Warren/Agecom/UFSC)

Copos reutilizáveis do projeto Lixo Zero. (Foto: Mayra Cajueiro Warren/Agecom/UFSC)

A metodologia utilizada é inspirada na COM-VIDA (modelo orientador elaborado pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério do Meio Ambiente para as escolas no que tange às questões ambientais e qualidade de vida). Josalba salienta a importância dos modelos e do NEAmb nesse processo: “nenhuma das escolhas, nada foi aleatório. Foram pensadas ações que representassem a escola de uma forma mais abrangente. O grupo do NEAmb veio em peso para cá, com ideias, com projetos e ficamos com o Lixo Zero por reunir várias das ideias que o grupo levantou”, conta a diretora.

Educação Ambiental

A composteira, localizada próximo ao refeitório da escola, recebe diariamente resíduos orgânicos da comunidade escolar. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

A composteira, localizada próximo ao refeitório da escola, recebe diariamente resíduos orgânicos da comunidade escolar. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

O NEAmb é um núcleo que surgiu da organização de estudantes com a intenção de desenvolver projetos de extensão em educação ambiental. “O núcleo nasceu para levar a educação ambiental para a prática, levar para as comunidades. No início de 2014, durante a construção coletiva dos projetos nasceu a intenção de trabalhar mais focado em uma escola, juntar forças. Por isso escolhemos o Colégio de Aplicação, e uma das ideias era trabalhar a questão dos resíduos”, explica Luiz Gabriel Catoira Vasconcelos, membro do conselho gestor do NEAmb e voluntário atuante no projeto Lixo Zero.

Luiz era estudante de graduação quando o projeto começou. Se envolveu tanto que escreveu sua monografia sobre o projeto, e ingressou no mestrado também com a pesquisa sobre a educação ambiental e implantação de projetos como o Lixo Zero do Aplicação.

O início das atividades, em 2014, foi com os sétimos anos, que participaram de uma gincana, com o objetivo de diagnosticar a problemática do lixo na escola. “Uma das provas era mapear as lixeiras do colégio, outra era abrir um saco de lixo, fazer a separação e pesar cada tipo de resíduo”, lembra Luiz. Em 2015, com a experiência do ano anterior, o NEAmb juntamente com a escola desenvolveu o Desafio Lixo Zero. “Buscamos mobilizar toda a escola em torno desse desafio, para que a escola fosse lixo zero durante toda a semana. Sacudimos a escola inteira, com mobilização, sensibilização, personagens no recreio interagindo com os alunos, atividades pedagógicas, uma tarde com cada série do sexto ao nono ano. Não teve uma pessoa da escola que não tenha participado”, relata. Durante a semana do Desafio, a produção de resíduos sólidos passou de 67 kg a 33,4 kg.

Coletivo Lixo Zero

O estudante Dimitri, 6º ano, participa da reciclagem do papel com o Papelomóvel. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

O estudante Dimitri Scheibe, 6º ano, participa da reciclagem do papel com o Papelomóvel. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

A partir da mobilização do Desafio Lixo Zero nasceu a necessidade de formar um grupo permanente para dar continuidade à iniciativa, e foi assim que surgiu o Coletivo Lixo Zero, formado por estudantes, professores e técnicos. Todas as ações do Coletivo são decididas pelos voluntários, que têm voz e voto iguais, independente de ser estudante, técnico ou professor. “É uma referência forte ter um coletivo dentro da escola que seja um espaço democrático de discutir as questões ambientais e de agir também”, salienta Luiz.

A psicóloga do CA, Juliana Lopes, é muito envolvida com o Lixo Zero desde o início do projeto. Ela conta que o trabalho de conscientização é contínuo. “É um investimento incessante de tempo, energia para que as ações não se percam e se consolidem. Desde idas em reuniões coletivas com professores, encontros sistemáticos do Coletivo quinzenalmente, as idas em salas de aula têm que ser frequentes. Percebemos que quando a escola tem férias ou algo assim, assim que retornamos temos que fazer barulho, já na primeira semana, criar uma ação que mobilize, porque senão os hábitos anteriores retornam”, relata Juliana.

Abolir da escola o uso de copos descartáveis foi uma das primeiras iniciativas do Coletivo. A criação do “Papelomóvel” também. Duas iniciativas simples que provocaram grandes mudanças no ambiente escolar. A retirada dos copos descartáveis reduziu o volume de resíduos, diminuiu os custos da escola. Durante a Festa das Famílias e das Culturas, comemoração anual com a presença dos pais e familiares dos estudantes, as famílias trouxeram copos e canecas de casa, ou tinham a opção de adquirir ou alugar o copo reutilizável do Lixo Zero.

Atividade do Coletivo Lixo Zero nas salas de aula. (Foto: Divulgação/Colégio de Aplicação/UFSC)

Atividade do Coletivo Lixo Zero nas salas de aula. (Foto: Divulgação/Colégio de Aplicação/UFSC)

Atividade durante o Desafio Lixo Zero, em 2015. (Foto: Divulgação/Colégio de Aplicação/UFSC)

Atividade durante o Desafio Lixo Zero, em 2015. (Foto: Divulgação/Colégio de Aplicação/UFSC)

Já o “Papelomóvel”, um carrinho de supermercado estilizado que fica estacionado cada dia em um local da escola virou ponto de limpeza das salas e facilitou o trabalho da separação e coleta. “Fizemos todo um trabalho de orientação, apontando para quem tiver papel para reciclar trazer ao Papelomóvel no dia que ele está mais perto da sua área. Um dos membros do Coletivo Lixo Zero é responsável por levar o Papelomóvel a cada área do rodízio e na sexta-feira um membro do coletivo esvazia o papelomóvel para a coleta na semana seguinte”, detalha a coordenadora Juliana. “O papel é recolhido pela Comcap, junto com a coleta reciclável. O nosso desejo é que a gente consiga fazer aqui na escola oficinas de reciclagem do papel, mas ainda não temos a estrutura necessária,” complementa.

O mote do Projeto: “Ser Lixo Zero está em Nossas Mãos” é na escola uma realidade. Muitas das inovações e estruturas são feitas com a ajuda da comunidade escolar, a partir de materiais em desuso na Universidade. Um exemplo é a composteira, construída com pedaços de madeira coletados pela UFSC. “As coisas que a gente consegue usar, a gente pega. Pedaços de porta, o que foi descartado, a gente reutiliza. A folhagem seca retiramos daqui mesmo do nosso jardim. Durante o dia vai se juntando o orgânico e, no final do dia, um voluntário do NEAmb vem, traz os orgânicos para cá, coloca palha em cima, revolve a compostagem”, acrescenta Juliana.

O estudante Dimitri Moros Scheibe, do sexto ano, ingressou no Coletivo como representante do Grêmio Estudantil e continuou no grupo por achar o trabalho importante. “O nosso refeitório já mudou muito. O papel na sala de aula também reduziu muito com o Papelomóvel. Existe uma gincana na escola que vale pontuação para as olimpíadas do Colégio se a sala estiver limpa, ganha ponto. Hoje todo dia a gente varre a sala, recolhe papel. Eu acho muito lindo o Lixo Zero, e embora não tenha tanta gente no Coletivo, somos unidos, todos se ajudando”, conta Dimitri.

Inovação para outras escolas

A experiência que deu certo no Colégio de Aplicação da UFSC já está sendo aplicada em outros espaços. O NEAmb apresentou a proposta à Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis e atualmente acompanha a Escola Básica Donícia Maria da Costa, localizada no bairro Saco Grande na implantação do projeto.

 

Mayra Cajueiro Warren
Jornalista / Agecom / UFSC

 

Veja também:

 

Depoimentos – Coletivo Lixo Zero

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 Horta do Colégio de Aplicação, que também recebe os benefícios do Projeto Lixo Zero por meio da compostagem de resíduos orgânicos. (Fotos: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)

 “A grande questão da sociedade hoje em dia é o descaso, a cultura de que as coisas estão prontas e ninguém vê o que acontece, não conhece o ciclo de vida das coisas e não se importa com as consequências. A mudança de cultura, de hábitos é o caminho para conseguir gerar transformações.”

Carolina Lemos (Estudante | Engenharia Sanitária e Ambiental)

“Para mim não era comum fazer a compostagem, separar o lixo orgânico, foi um aprendizado depois que entrei no curso e que eu acho importante passar adiante e fazer com que esses hábitos virem alguma coisa diária, rotineira.”

Isabela Andrade (Estudante | Engenharia Sanitária e Ambiental)

A questão ambiental é base de muitos valores sociais. O meio ambiente é o nosso lar, se não cuidarmos dele, como vamos cuidar do próximo?”

Gustavo Ackermann (Estudante | Engenharia Civil)

A questão dos resíduos, ponto principal de envolvimento do coletivo, me preocupa muito. A gente passa a ver as coisas de outra forma e isso reverbera muito em sala de aula. Eu, como professora de artes sinto isso.”

Angélica D’Avila (Professora Substituta | Colégio de Aplicação)

“Eu vejo nesse projeto um outro tipo de relação dentro da escola entre as pessoas e o cuidado com o espaço. Aqui no Coletivo a gente experimenta formas de relacionamento que não existem em outros espaços da escola. Primeiro a horizontalidade nas relações. Por mais que se busque espaços de discussão democrática, sempre tem pontos nos quais aparecem a questão da hierarquia, culturas segmentadas em categorias. Aqui, temos conseguido quebrar com essa dinâmica e constituir um espaço no qual o interesse comum é mesmo o cuidado com o espaço e com o outro. Levamos isso muito a sério. Tanto pessoalmente como profissionalmente esse projeto é ouro como possibilidade de transformação das relações dentro da escola.”

Juliana Lopes (Psicóloga | Colégio de Aplicação)