Dia do Professor: Walter Bazzo fala da docência e da importância da educação científica

14/10/2016 16:13

“É preciso manter acesa a chama da esperança e do desejo de mudança alimentada pelas leituras de livros, das conversas intensas entre os pares, ou seja, entre os técnicos […] e os demais agentes sociais, sobretudo os professores.” A frase define bem a relação do professor Walter Antonio Bazzo, entrevistado da coluna A voz do autor, com o ensino da ciência. Engenheiro mecânico e doutor em Educação na área de Ciências, é também professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica e do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica (PPGECT) da UFSC. Bazzo é ainda um dos fundadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Tecnológica (Nepet) e o seu atual coordenador.

Pela Editora da UFSC (EdUFSC) lançou Introdução à Engenharia: conceitos, ferramentas e comportamentos, sendo responsável pela publicação de dez livros. Durante a entrevista, Bazzo comentou a importância da educação científica, a preparação de professores para a vida docente e diferentes formas de despertar o interesse de alunos sobre disciplinas complexas da ciência.

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Foto: divulgação

1. Em sua carreira o senhor sempre buscou estudar a Engenharia sob a perspectiva da Educação, o que se traduz em sua atuação à frente do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Tecnológica (Nepet). Conte um pouco sobre este trabalho de transmitir conhecimento para estudantes e facilitar a compreensão da ciência no ensino da Engenharia. Quais suas principais motivações?

Importante deixarmos claro que, antes de transmitir conhecimento, o Nepet atua na formação de professores, especialmente daqueles que exercem o magistério e se interessam ou necessitam compreender as relações entre a ciência, a tecnologia e a sociedade. Nesse sentido, este trabalho envolve todos os profissionais da Educação em geral e, especificamente, da área tecnológica. É inegável que, independentemente de sua área de especialidade, os professores precisam se apropriar dos conhecimentos produzidos na área tecnológica e discutir criticamente seus efeitos na sociedade. Por quê? Se nós vivemos em uma aldeia global, onde aproximadamente 1% da população detém, para usufruto próprio, as riquezas (materiais e simbólicas) produzidas por uma parcela significativa de homens e mulheres – e, em algumas regiões deste planeta, em pleno século XXI, e independentemente do esforço hercúleo de alguns, há também crianças trabalhando para que outras pessoas sejam beneficiadas –, alguma coisa está fora de ordem, sim?

Penso que minhas motivações derivam de um projeto utópico para o desenvolvimento humano, ou seja, acredito que os professores têm um poder em suas mãos capaz de mobilizar céus e terras. Mas, para isso, ele precisa, antes de tudo, indignar-se com esta situação, perceber-se na condição de um trabalhador a serviço do processo de formação de seres humanos mais humanos. É preciso, ainda, que o professor – além deste sentimento de repulsa em relação a este cenário de exclusão e desigualdades – deseje sonhar coletivamente um sonho possível, capaz de mantê-lo em pé, esperançoso e vigoroso, em nome das crianças, do presente-futuro e, fundamentalmente, em nome de si mesmo; afinal, qual o sentido da vida? Qual o sentido da vida de cada um de nós?

O que quero dizer com isso? É preciso manter acesa a chama da esperança e do desejo de mudança alimentada pela leitura de livros, das conversas intensas entre os pares – ou seja, entre os técnicos, aquela pessoa que concebe e produz projetos tecnológicos para as indústrias – e os demais agentes sociais, sobretudo os professores desses que ocuparão espaço dentro das fábricas e das indústrias para pensar máquinas e produtos que, em tese, deveriam trazer benesses para a vida em sociedade. Mas, será mesmo para a sociedade ou para alguns membros da sociedade? Será que todos os produtos industrializados e todas as máquinas são fundamentais para a melhoria da qualidade de vida e do bem-viver? E quais as consequências de mantermos esse sistema de funcionamento das relações sociais em que há uma produção em série destinada para usufruto dos “herdeiros” (ou “saqueadores”) que vivem no topo do “monte Olimpo”?

Em linhas gerais, esse é o caminho que vem sendo perseguido pelos professores que compõem o Nepet, e daí derivam as minhas motivações à frente deste trabalho em parceria, principalmente com o professor Luiz Teixeira do Vale Pereira. Apesar de todos os desafios, como um projeto que está em discussão atualmente no campo educacional – o “Escola sem\com partido” –, o Núcleo nutre a chama da esperança, da qual falava antes, nos estudantes. Daí que, por este motivo, escrevemos alguns livros destinados aos jovens que ingressam na universidade e se tornarão técnicos e\ou professores, e, talvez por esse motivo, a sua pergunta tenha se referido aos estudantes. Os livros Introdução à Engenharia e Anota aí são exemplos nítidos desse propósito, embora tenhamos – Teixeira e eu – pensado também nos professores desses jovens.

2. Seu livro Introdução à Engenharia: conceitos, ferramentas e comportamentos, publicado pela EdUFSC, também traz este objetivo de tornar mais prazeroso o embarque na profissão de engenheiro para estudantes de graduação. Que abordagem o senhor buscou utilizar para desmistificar alguns conceitos mais difíceis sobre a área da Engenharia na construção deste livro?

Com uma experiência acumulada de mais de 35 anos na área da Engenharia, na qualidade de professor de futuros engenheiros, depois de ter experimentado o lugar do técnico ao ocupar um acento na indústria na qualidade de estagiário em Engenheira Mecânica, posso afirmar que o livro Introdução à Engenharia, em coautoria com o professor Luiz Teixeira e cuja primeira edição data de 1988, busca apresentar os elementos essenciais do trabalho do (futuro) engenheiro de uma forma em que se articulem os atuais conhecimentos da área e o mundo do trabalho.

Os jovens têm nas mãos uma tarefa bastante complexa e desafiadora, pois eles precisam optar em reproduzir a lógica posta, isto é, uma sociedade de aprofundamento das desigualdades de oportunidade e permanência nos espaços de trabalho e estudo ou em romper com algumas tradições e vícios já consagrados pela sociedade, sobretudo no que diz respeito à produção excessiva de produtos industrializados e artefatos muitas vezes supérfluos, porém desempenham um papel primordial para o pleno funcionamento do sistema social ao qual tratei na questão anterior.

3. Por fim, o que o senhor acredita ser necessário para despertar o interesse pela ciência desde cedo nos estudantes? Que tipo de ações seriam valiosas para que alunos ainda no ensino médio apreciem o conhecimento científico?

Tanto as crianças quanto os jovens são pessoas curiosas. Mas o que fazem os professores e, na maioria das vezes e em doses cavalares, os pais ou responsáveis? Quais são as propostas para as crianças e para os jovens frente às suas curiosidades? Curiosidades sobre o planeta Terra, sobre o universo, sobre a sexualidade, sobre os desejos, sobre a vida de personalidades públicas, sobre os animais, sobre Deus, sobre a composição de uma máquina, entre outras; quais são os espaços de interlocução entre as crianças, os jovens e essas pessoas (professores e familiares)? Quais os projetos de criação e invenção promovidos pela escola e validados pelas famílias? Quais os livros lidos pelos professores, pelos estudantes e pelas famílias? Quais são os repertórios culturais dessas pessoas?

É muito comum as escolas promoverem “feira disso”, “feira daquilo”, “festas e eventos relacionados a datas comemorativas”. O que se faz em uma feira? O que se faz em uma festa? Com isso, quero deixar claro que esses espaços “formativos” ajudam a manter a estrutura e o funcionamento da sociedade atual, qual seja, acentuadamente desigual, afeita aos espetáculos e que estimula a produção em série e o consumo acrítico. E a ciência? E o pensamento científico? Não há ciência sem leitura de livros de natureza diversa, sem estudos sistematizados, sem experimentações, sem criação de hipóteses, interpretações e projeções de diferentes ideias, não há ciência sem literatura, sem arte, sem filosofia, não há ciência sem acúmulo de fracassos e erros.

Portanto, a resposta para esta pergunta deverá ser encontrada pelo coletivo de professores (e demais profissionais da escola) e os familiares dos estudantes. Por quê? Muito simples: em relação ao corpo técnico-pedagógico, porque ouviu, observou, percebeu as crianças e os jovens na sua integralidade; porque estuda, porque deseja que o outro se desenvolva plenamente e possa contribuir para uma sociedade cujo funcionamento promova igualdades de oportunidade e de permanência. E, em relação aos familiares, porque também sabem ouvir e estabelecer uma interlocução com as crianças e os jovens, porque destinam tempo e espaço qualificados para a convivência com eles e que, por isso, exercem sua função de responsáveis por estes que são, juridicamente, concebidos como “menores incapazes” e que, portanto, não podem ser responsabilizados pelos seus atos. Nesse sentido, penso que esta resposta já foi apresentada por vários teóricos da Educação e áreas afins. Dentre eles, destaco alguns: Paulo Freire, Milton Santos, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Boaventura de Sousa Santos, Paul Feyerabend, Albert Einstein, Jacques Ellul, Celestin Freinet, Maria Montessori, John Dewey, Charles Percy Snow, Lewis Mumford, Eduardo Galeano, Neil Postman… Faço votos que alguns profissionais da Educação, ao lerem estas parcas provocações, possam “olhar” para dentro da escola e de si mesmos e, por meio de uma corajosa autoanálise\autocrítica, tentar responder: “O que estamos fazendo aqui”? E, na sequência: “O que é preciso (não) mudar?”.

Fonte: http://editora.ufsc.br