UFSC Explica: HIV e Aids

01/12/2015 11:47

O Brasil é o país da América Latina com o maior número de pessoas soropositivas e com aids: a estimativa é de que sejam 734 mil pessoas. E Florianópolis, junto com Porto Alegre, Porto Velho e Manaus, são as capitais brasileiras com a maior taxa de detecção de indivíduos infectados. Os números, apontados pelo professor Aguinaldo Roberto Pinto, deixam claro que a epidemia continua séria e é caso para atenção e cuidado.

Entretanto, alerta, a população não está consciente. Por um lado, todas as campanhas de esclarecimentos feitas desde principalmente o final dos anos 1980 ainda não desfizeram os mitos criados ao redor da doença e de expressões como “grupos de risco”. Por outro, a evolução nas possibilidades de tratamento fez com que a doença deixasse de inspirar o terror que inspirava naquela época. Ao mesmo tempo em que isso diminui o preconceito contra pacientes de doença, criou a impressão de que a ameaça se foi.

Aguinaldo Pinto é professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq 1D. É doutor em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com pós-doutorado no Wistar Institute (Estados Unidos). Atualmente coordena o Laboratório de Imunologia Aplicada, é credenciado nos Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Biociências e Ciências Médicas e Editor Associado do periódico Virology Journal. Sua pesquisa atual trata da caracterização molecular do HIV circulante na região Sul do Brasil e do estudo de mecanismos de resistência e proteção presentes em indivíduos controladores de elite e em parceiros de portadores de HIV.

Nesta edição do UFSC Explica, no Dia Mundial de Luta contra a Aids, o pesquisador responde perguntas sobre a doença, tratamento, a necessidade de manter precauções e outras mais.

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Qual a diferença entre portador de HIV e paciente com aids?
Portador de HIV, também conhecido por soropositivo, é aquele indivíduo que possui o vírus da imunodeficiência humana, cuja sigla é HIV. Estes indivíduos eventualmente progridem para um quadro de doença caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas, que são consequência da diminuição do número de linfócitos T CD4, as células envolvidas nos mecanismos de defesa de nosso corpo. Essa doença é chamada de aids. Portanto, todo indivíduo com aids é portador de HIV, enquanto o portador de HIV é aquela pessoa que possui o vírus mas ainda não apresentou nenhum sintoma da doença. É importante salientar que ambos são capazes de transmitir o vírus, sendo esta possibilidade muito diminuída quando estão fazendo uso dos medicamentos antirretrovirais.

Os números de infecção têm crescido?
No Brasil, o número de indivíduos soropositivos não tem diminuído e há uma certa confusão quanto a isto. O que tem diminuído (consequência do uso de medicamentos antirretrovirais ) é o número de pessoas com aids, bem como o número de mortes em decorrência da aids. Em 2014, o número de pessoas com HIV/aids no mundo era aproximadamente 37 milhões. Nesse mesmo ano, estima-se que havia 734 mil pessoas vivendo com HIV/aids no Brasil; Porto Alegre, Porto Velho, Manaus e Florianópolis são as capitais brasileiras com a maior taxa de detecção de indivíduos infectados. O Brasil é o país da América Latina com o maior número de pessoas soropositivas.

A epidemia de HIV/Aids no Sul do Brasil apresenta alguma característica distinta da observada no restante do país?
Uma característica marcante e particular da epidemia de HIV/aids observada no Sul do país é que aqui há a presença de um subtipo do HIV que praticamente não é encontrado em outras regiões do Brasil. O HIV é classificado em subtipos, que apresentam uma distribuição desigual nas diferentes regiões do planeta. No Sul do Brasil, assim como na maioria dos países africanos e na Índia, há um predomínio do subtipo C, enquanto no restante do Brasil, na América do Norte e na Europa, ocorre o predomínio do subtipo B. A importância desses subtipos na progressão da doença ou eficácia de transmissão viral, bem como a razão do maior predomínio do subtipo C no Sul do país, ainda é um tema de investigação controverso.

A população hoje está consciente dos riscos da aids?
A maioria não está consciente. Muitos ainda pensam que é uma doença restrita a gays, prostitutas e usuários de drogas, enquanto os números têm demonstrado que é uma doença que cresce principalmente em indivíduos heterossexuais, sendo as mulheres um dos grupos mais atingidos. Devido, também, à disponibilidade de tratamento, muitos indivíduos não tomam as devidas precauções afim de evitar o contágio, pois creem que o tratamento é algo simples. Esta é uma ideia bastante equivocada. O tratamento existe, porém deverá ser continuado por toda a vida do paciente e com possíveis efeitos colaterais que foram citados.

Quais são as possibilidades de exame de detecção do vírus hoje no Brasil?
Atualmente, para saber se uma pessoa está infectada pelo HIV podem ser realizados o teste de ELISA ou o teste rápido. O resultado do teste rápido sai algumas horas após a coleta do sangue, enquanto o resultado do teste de ELISA leva alguns dias. Em média, estes testes indicam que a pessoa está infectada 20-30 dias após ter contraído o vírus, devido ao período conhecido por janela sorológica. Sempre que houver uma suspeita de infecção o interessado deve procurar o Centro de Referência em Treinamento em DST/aids e solicitar a realização do exame, que é gratuito.

Qual a proporção de infectados por HIV que chegam a desenvolver aids?
A grande maioria dos soropositivos evolui para aids. Porém, esta evolução nem sempre ocorre da mesma maneira e na mesma velocidade. A maioria dos portadores de HIV, quando não tratados, tem aids dentro de oito a dez anos após o contágio, enquanto 5 a 10% dos indivíduos infectados, conhecidos como progressores rápidos, tem um rápido declínio no número de linfócitos T CD4 e alta taxa de replicação viral e evoluem para aids em dois a cinco anos. Entre 5 a 15% dos indivíduos soropositivos têm a capacidade de controlar a multiplicação viral e manter os níveis de linfócitos T CD4 elevados por um período de tempo longo, mesmo na ausência de tratamento antirretroviral, sendo conhecidos como progressores lentos. Uma pequena parcela destes indivíduos, denominados controladores de elite, mantém altos níveis de linfócitos T CD4 e praticamente nenhum vírus circulante na corrente sanguínea, fazendo com que permanecem sem sintomas por décadas.

Depois de descoberta a infecção pelo vírus, qual o tratamento?

A terapia padrão consiste na combinação de pelo menos três fármacos antirretrovirais para suprimir o HIV e parar a progressão da aids. O Brasil adotou recentemente o critério de tratar todos os indivíduos soropositivos, mesmo que ainda não tenham sintomas da doença. O Ministério da Saúde distribui gratuitamente os medicamentos antirretrovirais através do Sistema Único de Saúde (SUS). A escolha dos medicamentos é feita pelo médico e o tratamento deve ser permanente e contínuo, uma vez que não leva à cura. É importante ressaltar que embora existam diversos medicamentos utilizados no tratamento, muitos pacientes relatam uma diversidade de efeitos colaterais, como dor nas articulações, febre, náuseas, vômito, boca seca, diarreias, perda de apetite, dentre outros. Um efeito colateral comum é a lipodistrofia, que é a redistribuição da gordura pelo corpo, que é diminuída no rosto e fica encovado, nos membros superiores, inferiores e nas nádegas, deixa as veias muito visíveis e provoca acúmulo de tecido adiposo no abdômen. Os remédios também podem provocar danos para o fígado e rins, assim como acentuar o processo de aterosclerose (tipo de arteriosclerose) e aumentar o risco de doenças coronarianas. No entanto, de modo geral, o tratamento é bem tolerado e muitos desses sintomas podem ser contornados com mudanças no esquema de tratamento ou com o uso de outros remédios.

Que nível de qualidade de vida e que sobrevida pode ter hoje o paciente que desenvolve aids?
Hoje, desde que adequadamente tratados, os indivíduos portadores de HIV conseguem conviver com o vírus por longos períodos, talvez até o fim de uma vida bastante longa. Com o surgimento do coquetel, a aids se transformou em uma doença crônica para a qual ainda não há cura, mas que pode ser controlada. Porém, deve-se ressaltar que alguns pacientes sofrem com os efeitos colaterais e tem dificuldade em aderir ao tratamento. Para se conseguir uma boa qualidade de vida é necessário, muitas vezes, além dos medicamentos, mudar hábitos e rotinas e procurar levar uma vida o mais saudável possível.

O que é PrEP?
PrEP (profilaxia pré-exposição) é uma maneira de pessoas que não tem HIV se prevenirem do contágio através do uso diário de uma pílula, que contém dois medicamentos também utilizados no tratamento da aids. Os medicamentos contidos nessa pílula impedem a multiplicação do vírus. PrEP é indicada para pessoas soronegativas e que estejam sob risco considerável e frequente de se infectarem, como por exemplo parceiros de portadores de HIV ou indivíduos que fazem uso regular de drogas injetáveis. Para casais heterossexuais onde um dos parceiros é soropositivo e o outro não, a PrEP é indicada para proteger o parceiro saudável durante a concepção e gestação. Juntamente com outras medidas profiláticas, como o uso de preservativos, a PrEP é uma medida de proteção bastante poderosa, desde que usada diariamente. Entretanto, seu uso pode acarretar os mesmos efeitos colaterais comentados acima.

O que é PEP?
PEP (profilaxia pós-exposição) é uma maneira de evitar a o contágio do vírus após ter se exposto a uma situação de risco. Isto é conseguido através do uso de medicação antirretroviral, que deve ser tomada por 28 dias e evita que o HIV se multiplique e se espalhe pelo corpo. Porém, para obter sucesso neste procedimento, é de extrema importância que a PEP seja iniciada até 72 horas após o contato com o vírus. PEP é indicada para pessoas que tenham tido um evento único de exposição, o que inclui profissionais da área da saúde que tenham sofrido algum acidente no trabalho ou qualquer indivíduo exposto ao HIV através de sexo desprotegido ou compartilhamento de seringas. É também indicado em casos de estupro. Qualquer indivíduo que tenha suspeita de ter sido exposto ao HIV deve procurar imediatamente um hospital ou clínica e solicitar a PEP, que é disponibilizada gratuitamente pelo SUS. A eficácia da PEP, entretanto, não é de 100%, e também pode causar alguns efeitos colaterais.

Sugestão de site: www.aids.gov.br.