UFSC Explica: Feminismo

11/11/2015 18:00

Quanto mais fácil se comunicar, mais fácil discutir. Mas também é mais importante discernir informação de preconceito ou falsos conhecimentos. A série “UFSC Explica” oferece o viés acadêmico, com participação de pesquisadores da instituição, sobre assuntos em evidência na sociedade. O primeiro é o feminismo, em destaque pela redação a respeito de violência contra a mulher e pela questão sobre construção de gênero, ambas no último Enem; pelos protestos em várias cidades brasileiras e por constantes notícias. Para falar dele, apresentamos perguntas básicas à professora Cristina Scheibe Wolff, do Departamento de História da UFSC. Ela é doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado nas universidades de Rennes (França) e Maryland (Estados Unidos). Atualmente, atua como coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História e do Laboratório de Estudos de Gênero e História, é uma das editoras da revista Estudos Feministas, além de integrante do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC. Sua pesquisa atual trata das relações de gênero na resistência às ditaduras no Cone Sul, nos anos 1960-1980, e do feminismo. Também apresentamos sugestões de leitura levantadas pela professora e grupos de pesquisa da UFSC que trabalham a questão.

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1. O que é feminismo?

Mulher vota na primeira eleição aberta ao voto feminino no Brasil, em maio de 1933, no Rio de Janeiro. Fonte: Agência O Globo.

Mulher vota na primeira eleição aberta ao voto feminino no Brasil, em maio de 1933, no Rio de Janeiro. Fonte: Agência O Globo

Em minha opinião, podemos falar de feminismo de duas formas: feminismos são movimentos de mulheres contra a opressão, preconceitos e violências que sofrem por serem mulheres, ou seja, baseados no gênero. E, ao mesmo tempo, feminismo é um conjunto de ideias que se contrapõe às construções de gênero vigentes na nossa sociedade, que implicam uma superioridade masculina. Nesse sentido, o feminismo propõe a equidade entre mulheres e homens, em termos de direitos, lugares sociais, possibilidades.

2. Podemos considerar o feminismo um movimento homogêneo? Quais as principais diferenças entre as vertentes?

Existem muitos tipos e formas de movimentos feministas. Certamente o feminismo no Brasil não pode ser o mesmo que o feminismo no Egito ou na Índia, onde as opressões que as mulheres sofrem são diferenciadas.  Além disso, mesmo no Brasil há diferenças nas reivindicações e nas perspectivas de vários grupos feministas. Por exemplo, vários grupos de mulheres negras chamam atenção para a dupla opressão que essas mulheres sofrem em seu cotidiano.

3. Como e quando surgiu o feminismo? Quais suas raízes históricas anteriores?

Embora muitas mulheres tenham se insurgido ao longo da história contra a opressão e os preconceitos, foi no final do século XIX que surgiu um movimento organizado por mulheres, que reivindicava, naquele momento, o direito ao voto e à educação para as mulheres, que foi denominado feminismo. Esse movimento começou na Inglaterra e nos Estados Unidos e logo se espalhou em vários países, inclusive no Brasil e na América Latina. As mulheres reivindicavam através de folhetos, jornais, passeatas e outros tipos de manifestação pública.

4. Por que se fala em “ondas” do feminismo?

Muitas vezes se usa o termo “ondas” para diferenciar diversas “fases” do feminismo, entendendo que as ondas vêm e vão e se sobrepõem; e, portanto, não são fases que terminam abruptamente.  O sufragismo, ou luta pelo voto das mulheres, foi considerado como a primeira “onda” do feminismo, e o feminismo que surgiu a partir da segunda metade do século XX, mais preocupado com outras reivindicações como o direito ao próprio corpo, a luta contra a violência de gênero e igualdade no espaço de trabalho é visto como de “segunda onda”.

5. Como o feminismo chegou ao Brasil e como se desenvolveu aqui? Quais as diferenças hoje entre o movimento no país e fora dele?

Desde o século XIX pelo menos temos feministas no Brasil. Em 1838, a escritora e professora Nísia Floresta publicou o livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, no qual defendia as ideias expostas por Mary Wollstonecraft  no seu texto A Vindication of the Rights of Woman. Mas foi a partir da República que começa a haver um movimento mais articulado de mulheres, que, já no século XX, tem a liderança de Bertha Lutz e vai conquistar o voto para as mulheres em 1933. Além disso, grupos de mulheres anarquistas e operárias já se reuniam.  É no ano de 1975, porém, Ano Internacional da Mulher, que, em plena ditadura civil-militar, aparecem novos jornais e grupos feministas, inaugurando uma nova onda desse movimento no Brasil.

6. Qual a importância do feminismo para os homens e como eles podem se posicionar?

Manifestação pelos direitos  das mulheres em São Paulo, 2015. Fonte: Mídia Ninja.

Manifestação pelos direitos das mulheres – São Paulo, 2015. Fonte: Mídia Ninja.

O feminismo não é contra os homens, e sim a favor de uma relação mais igualitária e justa entre homens e mulheres. Ele é um movimento e um conjunto de ideias que pretendem uma humanidade melhor, uma sociedade menos hierárquica, em que as pessoas não sejam constrangidas pelo gênero nas suas escolhas e possibilidades e em que as violências não possam ser justificadas pelo gênero. Dessa forma, acredito que os homens podem e devem se posicionar a favor do feminismo.

7. A palavra feminismo ainda assusta? Por quê?

Durante muito tempo as feministas foram ridicularizadas, e ainda hoje é comum que se insultem as mulheres que lutam por seus direitos e por uma sociedade mais justa, confundindo essa luta com uma “falta de feminilidade”. Isso acontece justamente porque na nossa sociedade a feminilidade foi muitas vezes construída com características como a meiguice, suavidade, fraqueza, vulnerabilidade. Mas a história nos mostra que as mulheres são fortes, sempre trabalharam, sempre sustentaram sua família e inclusive aguentaram muita violência. Está na hora de construirmos outras feminilidades.

8. Por que o feminismo ainda é necessário hoje?

Porque a violência de gênero é muito grande e comum; porque as mulheres têm em média renda 30% menor que a dos homens; porque muitos ainda acham que as crianças, pessoas idosas e trabalhos domésticos são responsabilidades das mulheres; porque as meninas são julgadas por sua aparência física mais do que por sua inteligência; porque há profissões que são consideradas mais masculinas ou mais femininas; porque muitos homens acham que não devem chorar, cuidar dos filhos ou parecer “muito sensíveis”, e que podem bater nas mulheres ou estuprá-las. Por tantas razões ainda!

 

Sugestões de leitura:

Revista Estudos Feministas, disponível no site www.ieg.ufsc.br e no www.scielo.br/ref

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

PINSKY, Carla B.e  PEDRO, Joana Maria (Orgs.) . Nova História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2012.

WOLFF, Cristina Scheibe ; SALDANHA, Rafael Araujo . Gênero, sexo, sexualidades Categorias do debate contemporâneo. Retratos da Escola, v. 9, p. 29-46, 2015. Disponível em http://www.esforce.org.br/index.php/semestral/article/view/482

 

Grupos da UFSC com Pesquisa em Gênero e Feminismo:

Grupo de Estudos Pós/Descoloniais e Afro-Latino-Americanos (Gepala).

Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH).

Núcleo de Pesquisa Modos de Vida, Família e Relações de Gênero (Margens) .

Núcleo de Estudos sobre Agricultura Familiar (NAF).

Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (Navi) e Grupo De Antropologia Urbana e Maritima (GAUM).

Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividade (NIGS)

Núcleo de Literatura e Memória (nuLIME).