Pesquisadores da UFSC descobrem menor flor de orquídea do planeta

10/04/2015 17:00

Ao segurar o trinco para colocar o cadeado na estufa do Departamento de Botânica da UFSC, o pesquisador Carlos Eduardo de Siqueira pensou novamente no ponto branco que olhara de relance segundos antes num galho. “Fungo bonitinho”, imaginou. Resolveu voltar e examinar melhor: em vez de bolor, encontrou uma pequena inflorescência desconhecida. Siqueira levou-a imediatamente ao laboratório para analisá-la num microscópio, e viu, pela primeira vez, com detalhes, um exemplar de Campylocentrum insulare – a orquídea com a menor flor do planeta.

A Campylocentrum insulare, antes da floração, é um microrramo que se confunde com uma raiz; quando desabrocha, aparecem seis pequenas flores brancas com um centro amarelo, que não alcançam um milímetro – tudo junto não chega a meio centímetro. “Eu achei a flor pequena e pesquisei as orquídeas. Não há nenhuma tão pequena como esta”, informa Siqueira.

Carlos Eduardo de Siqueira com parte do material pesquisado. Foto: Jair Quint/Fotógrafo da Agecom/DGC/UFSC

Carlos Eduardo de Siqueira com parte do material pesquisado. Foto: Jair Quint/Fotógrafo da Agecom/DGC/UFSC

Detalhe da Campylocentrum insulare. Foto: Carlos Eduardo de Siqueira/PPGFAP/UFSC

Detalhe da menor flor de orquídea do planeta. Foto: Carlos Eduardo de Siqueira/PPGFAP/UFSC

O ramo com a Campylocentrum insulare fora entregue um ano antes, em dezembro de 2010, pela orientadora de Siqueira no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas da UFSC, Ana Zannin. “A planta foi coletada na Unidade de Conservação Ambiental Desterro (Ucad) e trazida, com outras, da subtribo que eu estava analisando. Elas são colocadas na estufa, e esperamos a floração para a identificação”, explica. “No grupo todo, as plantas, em geral, são pequenas; mas esta exagerou na dose e se tornou minúscula”, brinca o pesquisador.

Nos trabalhos de campo, Siqueira e seus colegas percorreram os quatro cantos da Ilha, quase literalmente. “Não houve mata por que a gente não andou. Certa vez, entramos na altura do Floripa Shopping e só saímos na Costa da Lagoa.” Os resultados de cada saída eram vários sacos com alguns exemplares criteriosamente coletados que eram pendurados na estufa para exame posterior.

A subtribo Pleurothalidinae, de orquídeas epifíticas (que crescem sobre outras plantas, sem relação de parasitismo), na Ilha de Santa Catarina foi o campo de atuação de Siqueira no mestrado. “Elas são geralmente endêmicas de certas áreas de floresta, como a Mata Atlântica, com distribuição geográfica restrita, mas relativamente abundantes em população quando encontradas. Morfologicamente são semelhantes; sem a flor é quase impossível distinguir uma espécie da outra.” Dessa forma foi difícil avistar a Campylocentrum insulare, que não tem folhas, entrelaçada junto à raiz de uma Pabstiella fusca, outra orquídea relativamente comum na Ucad.

Após a coleta, Siqueira contou com a colaboração do biólogo e ilustrador científico Rogério Lupo. “Ele ficou com uma flor conservada em álcool por algum tempo, e completou o desenho a partir das fotos com as técnicas próprias do método científico para obter todos aqueles detalhes. É um grande artista.”

Detalhes da planta pelo ilustrador científico Ricardo Lupo

Detalhes da planta pelo ilustrador científico Rogério Lupo

 

Checklist

Para ser incorporada à fitoteca do Herbário Flor do Departamento de Botânica, a planta precisou ser desidratada e prensada. “Ela está no armário de Typus – onde estão amostras de referência que representam uma espécie – e vai poder ser comparada com outras no futuro”, relata Siqueira. O estudo de Siqueira se estendeu para um registro atualizado de orquídeas para todo o estado de Santa Catarina, que resultou na publicação de um checklist em 2014. No trabalho de catalogação, “eu cito mais de 50 espécies que nunca haviam sido registradas para Santa Catarina, pois foram coletadas no Estado e depositadas nos herbários que visitei, mas ainda não haviam aparecido em nenhuma publicação”.

No total, 560 espécies de 120 gêneros diferentes foram encontradas em Santa Catarina – destas, 24 estão em situação de vulnerabilidade; sete, em perigo; e quatro, criticamente em perigo, de acordo com a classificação da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN – International Union for Conservation of Nature). “Os livros mais antigos não espelham a realidade. O mais recente sobre a flora de Santa Catarina era da década de 1970.”

Conforme Siqueira, 10% das plantas com flores são orquídeas. “Escolhi as orquídeas porque há uma lacuna em Santa Catarina, bastante coisa para trabalhar, especialmente agora, com a filogenia”. Siqueira conta que antes os dados eram morfológicos e agora foram incluídos os moleculares, como o DNA. “A Sistemática Vegetal, área da Botânica que estuda a diversidade vegetal do planeta, mudou com os dados moleculares, as plantas são agrupadas agora não só pelas características morfológicas, mas pelas relações de parentesco inferidas pelos dados macromoleculares”.

Nome homenageia Ilha de Santa Catarina. Foto: Carlos Eduardo de Siqueira/PPGAFP/UFSC.

Nome homenageia Ilha de Santa Catarina. Foto: Carlos Eduardo de Siqueira/PPGAFP/UFSC.

O artigo com a descrição da Campylocentrum insulare, cujo nome homenageia a Ilha de Santa Catarina, foi publicado apenas em fevereiro de 2015. O pesquisador preferiu terminar o mestrado e depois focar a atenção na descoberta. Como era apenas um exemplar, ele sabia que receberia questionamento de revisores e contatou um especialista em Campylocentrum, Edlley Max Pessoa da Silva. “Ele trabalha com este gênero e veio de Pernambuco para ver a planta. Acabou assinando o artigo junto conosco.”

Siqueira contou com o apoio financeiro de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Programa Nacional de Apoio e Desenvolvimento da Botânica (PNADB/Capes) – uma parceria entre UFSC, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Estadual de Santa Cruz (BA) e Jardim Botânico do Rio de janeiro (JBRJ), no projeto “Rede em Epífitas de Mata Atlântica: sistemática, ecologia e conservação”, coordenado na UFSC por sua orientadora, Ana Zannin – e da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). “Com o suporte foi possível comprar computadores, câmera fotográfica, GPS, material para o herbário do Departamento de Botânica, equipamento para arvorismo e bibliografia especializada em orquídeas, tudo depositado na UFSC.”

 

Conheça

A Unidade de Conservação Ambiental Desterro (Ucad) é um espaço natural protegido da UFSC, na parte central da Ilha de Santa Catarina, com 4,9 km². O objetivo geral é o desenvolvimento de trabalhos acadêmicos de formação científica, aliado à preservação dos ecossistemas.

 

Mais informações com Carlos Eduardo de Siqueira, pelo e-mail .

 

Caetano Machado/Jornalista da Agecom/DGC/UFSC

Claudio Borrelli/Revisor de Textos da Agecom/DGC/UFSC

Jair Quint/Fotógrafo da Agecom/DGC/UFSC