Pesquisa utiliza resíduos de papel para produção de azulejos

24/03/2015 08:33

Um estudo realizado no Programa de Pós ­Graduação em Engenharia Química desenvolveu cerâmica monoporosa, também conhecida como azulejo, com 20% de aparas de papel. Para realizar sua dissertação, Rodrigo Daros, sob orientação do professor Humberto Gracher Riella, substituiu parte do calcário usado na cerâmica por esse resíduo do papel, mais viável econômica e ecologicamente.

Utilizar as aparas em cerâmicas monoporosas é uma alternativa com benefícios ambientais, pois diminui a quantidade de calcário – um recurso não renovável – e reaproveita os restos de papel, que seriam descartados no ambiente. Essa reutilização ocorre também na correção de solo e na formulação de cimento; no entanto, como a indústria de papel e celulose produz aparas em grande quantidade, a maioria não é reaproveitada.

Na pesquisa de Daros, as cerâmicas produzidas tiveram uma absorção de 3% a 8% maior do que as sem o resíduo, o que significa que a aderência à parede será melhor. O índice alcançado no estudo se mantém dentro do limite que permite classificar a cerâmica como monoporosa – aquela que possui absorção superior a 10%.

Foram utilizados só 20% de resíduos de papel na composição da cerâmica, porque, segundo o pesquisador, esse seria o valor ideal para atingir o índice padrão de absorção de água. Acima de 25%, haveria trincas ou quebras durante a queima do azulejo, devido à retração da peça.

O uso das aparas só foi possível porque sua composição é similar à do calcário, cuja decomposição gera óxido de cálcio, que constitui mais de 50% do resíduo. De acordo com o pesquisador, “o calcário é o ideal, mas como é algo que pode ser extinto, o resíduo supre essa necessidade”.

Esse método também é economicamente mais viável. O resíduo de papel custa R$ 0,014/kg úmido e R$ 0,02/kg seco, de acordo com um levantamento de 2012 feito por uma empresa especializada. Já o preço do calcário é de R$ 0,130/kg. Além disso, o gasto para tratamento e envio das aparas aos aterros – que varia de R$ 0,06/kg a R$ 0,130/kg – iria reduzir-­se.

Em 2005, uma pesquisa da Universidade de Aveiro, Portugal, usou 10% do resíduo em argila; outra, de 2006, realizada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), utilizou 20% em argamassa. Já a de Daros foi feita em cerâmica, porque, de acordo com ele, é uma produção “em larga escala e são produtos mais naturais, então é mais fácil de colocar nesse setor”.

A pesquisa foi desenvolvida em laboratório, mas Daros pretende expandir o projeto. A ideia foi oferecida a algumas indústrias de cerâmica, porém ainda não houve resposta positiva. “Sempre há alguma resistência, porque é uma novidade, uma inovação”, afirma o pesquisador.

Santa Catarina é o maior produtor brasileiro de cerâmicas monoporosas; em relação a papel e celulose, o estado representa 8,1% da indústria nacional. O Brasil tem a quarta maior produção mundial de celulose e a nona de papel.

Mais informações:

Programa de Pós­Graduação em Engenharia Química//(48) 3721-­2501.

Humberto Gracer Riella/

 

Tamy Dassoler e Ana Carolina Prieto/Estagiárias de Jornalismo/DGC/UFSC
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Claudio Borrelli/Revisor de Textos da Agecom/DGC/UFSC