Pesquisa revela efetividade da Reserva do Arvoredo em preservar espécies

17/12/2014 08:05
Espécies de garoupas, chernes e badejos que representam as espécies da ictiofauna marinha beneficiadas pela REBIO Arvoredo. A) 'Mycteroperca bonaci': badejo quadrado; B) 'Hyporthodus niveatus': cherne; C) 'Epinephelus marginatus': garoupa verdadeira e D) 'Mycteroperca acutirostris': badejo mira.

Espécies de garoupas, chernes e badejos que representam as espécies da ictiofauna marinha beneficiadas pela REBIO Arvoredo. A) ‘Mycteroperca bonaci’: badejo quadrado; B) ‘Hyporthodus niveatus’: cherne; C) ‘Epinephelus marginatus’: garoupa verdadeira e D) ‘Mycteroperca acutirostris’: badejo mira.

A Reserva Biológica Marinha (Rebio) do Arvoredo é um local que efetivamente protege espécies ameaçadas, em especial os peixes que são alvo da pesca comercial e artesanal. É o que conclui a pesquisa realizada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com outras quatro instituições. Os pesquisadores compararam a biomassa de espécies de garoupa, chernes e badejos em oito locais do litoral catarinense. Os maiores exemplares e os mais raros só foram encontrados nas áreas protegidas. A quantidade de biomassa chega a ser de quatro a oito vezes maior na Reserva do Arvoredo, em comparação com áreas não protegidas.

Este é o primeiro estudo que avalia as condições da Reserva na preservação das espécies. Os resultados foram divulgados em uma das principais revistas científicas sobre o tema, a Marine Ecology Progress Series (MEPS), da Alemanha. O estudo envolveu pesquisadores do Laboratório de Biogeografia e Macroecologia Marinha da UFSC, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Universidade de São Paulo (USP), Universidad de Murcia (UMU-Espanha) e Macquarie University (Austrália). A Rebio Arvoredo foi criada em 1990, e o acesso é permitido apenas para atividades científicas; no entanto, a região é alvo frequente de atividades de pesca ilegal.

A biomassa de garoupa encontrada na área protegida do Arvoredo é de 280 kg/ha (quilos por hectare). Em comparação, a biomassa na área liberada para visitação é de 105 kg/ha; na área da costa, como a Praia da Sepultura, 30 kg/ha. Mesmo com uma biomassa maior no interior da reserva, esse número é apenas uma fração do que era possível encontrar naquela região na década de 1960. A Ilha da Galé, por exemplo, conta hoje com uma biomassa de garoupa de 280 kg/ha; há 50 anos, era de 2700 kg/ha.

Para os pesquisadores, é possível voltar ao cenário da década de 1960. “Se a Reserva ficar livre de interferência humana por pelo menos 30 anos, ela pode se transformar em um berçário natural, capaz de exportar peixes para os locais ao redor”, afirma Anderson Batista, pesquisador junto ao Laboratório de Biogeografia e Macroecologia Marinha da UFSC. É o que já ocorre em outras partes do mundo, como o Corumbau, na Bahia, e Cabo Pulmo, no México. Esses dois locais, que são áreas de conservação e proíbem a pesca e o acesso, têm uma biomassa muito semelhante à da Ilha da Galé em 1960. Anderson alerta também para o risco de tolerar a pesca na Rebio. “Se houver liberação, a situação da reserva volta à estaca zero”, completa.

O coordenador da pesquisa e professor da UFSC, Sergio Floeter, destaca que a Rebio do Arvoredo representa um dos mais importantes laboratórios do mundo para a observação das mudanças climáticas. “É um local único no planeta, em que há o encontro de massas de água quente, da corrente do nordeste, com a água fria do sul, o que propicia a presença de uma grande diversidade de espécies”, explica. “A conclusão do estudo é que a Rebio Arvoredo, além de ser efetiva [na preservação de espécies], tem potencial para aumentar significativamente os estoques de garoupas, chernes, badejos e meros. Para isso, é preciso melhorar as políticas de fiscalização e manter a área como Reserva Biológica”, conclui.

Pescarias na Ilha de Santa Catarina realizadas nas décadas de 1950 e 60. Abundância de tubarões (‘Carcharias taurus’: cação mangona) e meros (‘Epinephelus Itajara’). Fonte: Souza CHS (2000) O Homem da Ilha e os Pioneiros da Caça Submarina. Dehon, Tubarão.

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Pescarias na Ilha de Santa Catarina realizadas nas décadas de 1950 e 60. Abundância de tubarões (‘Carcharias taurus’: cação mangona) e meros (‘Epinephelus Itajara’). Fonte: Souza CHS (2000) O Homem da Ilha e os Pioneiros da Caça Submarina. Dehon, Tubarão.


Sobre a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo

Criada em 12 de março de 1990, a Rebio Arvoredo possui 17.600 hectares, abriga as ilhas do Arvoredo, da Galé, a Ilha Deserta e o Calhau de São Pedro. O objetivo da reserva é preservar uma amostra representativa da biodiversidade presente no ambiente de costão rochoso característico de Santa Catarina. É uma das duas reservas biológicas marinhas do Brasil, a outra é o Atol das Rocas – juntas, representam 1% do território marítimo do país.


:: Em resumo

O quê: artigo publicado em revista internacional confirma a efetividade da Reserva Biológica do Arvoredo em proteger espécies de peixes ameaçadas pela pesca.

Como: estudo comparou a biomassa de oito locais do litoral catarinense e encontrou os maiores exemplares, as espécies mais raras e em maior quantidade na Reserva Biológica do Arvoredo.

Pontos em destaque:

  • é a primeira pesquisa científica publicada que faz esta avaliação da Rebio Arvoredo;
  • a reserva tem o potencial de se transformar em um berçário natural, capaz de exportar peixes para outros locais do litoral e, dessa forma, fortalecer a pesca artesanal e comercial;
  • apesar dessa notícia promissora, a pesquisa mostra também que o local já foi muito mais rico em quantidade e variedade de espécies em um passado não tão distante;
  • apesar de proibida a entrada na Rebio, a região é alvo de pesca ilegal.

Dados do artigo

  • Título: Recovery of grouper assemblages indicates effectiveness of a marine protected area in Southern Brazil.
  • Autores: Anderson AB, Bonaldo RM, Barneche DR, Hackradt CW, Félix-Hackradt FC, García-Charton JA, Floeter SR (2014).
  • Publicação: Mar Ecol Prog Ser 514:207-215.
  • Linkhttp://www.int-res.com/abstracts/meps/v514/p207-215/

Mais informações:

Laboratório de Biogeografia e Macroecologia Marinha/UFSC

Professor Sergio Floeter: ,

Pesquisador Anderson Batista:

 

Laura Tuyama/Jornalista/DGC/UFSC

Claudio Borrelli/Revisor de Textos da Agecom/DGC/UFSC