Maffesoli fala na UFSC sobre modernidade e pós-modernidade

08/04/2014 15:59

Conferência A emergência de valores pós-modernos. Foto Wagner Behr/Agecom/ UFSC

Na segunda-feira, 7 de abril, o sociólogo francês Michel Maffesoli ministrou, no Auditório Garapuvu, do Centro de Cultura e Eventos  da UFSC, a conferência “A emergência dos valores pós-modernos”, em comemoração aos 20 anos do Nupequis-Fam-SC (Núcleo de Pesquisa e Estudos em Enfermagem, Quotidiano, Imaginário, Saúde e Família de Santa Catarina, LEIFAMS), que promoveu e organizou o evento, juntamente com o Projeto Ninho e o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC.

Maffesoli explicou quase todos os conceitos a partir da etimologia grega ou latina da palavra;  falou sobre duas épocas: a moderna – que se está fechando – e a pós-moderna – que se está abrindo, para ele de uma forma reemergente, em espiral, de modo que “o fim de um mundo não é o fim do mundo”.

Para contrapor as diferenças entre o moderno e o pós-moderno, o sociólogo caracterizou cada época com cinco palavras-chave, aplicáveis ao mundo ocidental.

 

 

 

Modernidade

1ª palavra-chave: emergência do individualismo epistemológico

Um exemplo desse pensamento é o “Je pense” (eu penso) de Descartes. Surgem o indivíduo religioso, decorrente da reforma protestante, que tem relação com seu próprio Deus; o indivíduo crítico, que pensa por si (como na  obra Émile, de Rousseau) e é capaz de elaborar o contrato social e que tem, portanto, autonomia – etimologicamente, “eu sou minha própria lei” – isto é: como indivíduo autônomo, eu posso estabelecer meu próprio contrato social, contrato econômico, contrato de casamento. O indivíduo é o pivô a partir do qual se estabelece o contrato social – é o indivíduo “maître de lui” (dono de si próprio).

2ª palavra-chave: o trabalho

O trabalho sempre existiu como valor, mas foi a partir do século XIX que passou a ser necessidade – antes era para escravos e serviçais. É o trabalho que vai permitir a realização individual e, portanto, a realização do mundo. Ser alguém é definido unicamente com base nesse grande valor, que, com o marxismo, ficou ainda mais importante – toda existência individual e coletiva começou a ser determinada pelo trabalho e pela prevalência da economia.

3ª palavra-chave: racionalização

A razão foi hegemônica no Ocidente até o final do século XIX, relegando o festivo, o lúdico e o onírico. Houve, disse Max Weber, uma racionalização da existência, que resultou em um “desencantamento”.  Um exemplo é a psicanálise freudiana – em que a sexualidade deve ser submetida à racionalidade. E essa racionalidade, que era um dos parâmetros da raça humana, tornou-se um racionalismo – isto é: houve uma sistematização desse parâmetro. A razão é a dimensão essencial da modernidade.

4ª palavra-chave: utilitarismo

Um conceito-chave que marca a modernidade é o de que algo somente possui valor se servir para alguma coisa. Daí que a natureza, os outros e o próprio indivíduo são considerados utensílios – como os de cozinha. A dominação do mundo pelo utilitarismo levou-o à devastação.

5ª palavra-chave: o futuro

Houve civilizações para as quais os grandes valores estavam depositados no passado. Para a modernidade, o tempo é o do futuro – o importante é o amanhã. O marxismo trabalhou com a ideia de que o importante ainda está por vir, e o freudianismo trouxe o conceito da sublimação – o prazer e o gozo adiados (adiados?) para o amanhã.

Para Maffesoli, o que está acontecendo é uma saturação, no sentido químico da palavra, isto é, uma desconstrução, ao mesmo tempo em que as mesmas moléculas vão se rearranjando para formar outro composto – há uma metamorfose. Esse movimento da modernidade para a pós-modernidade se faz em espiral, tomando elementos pré-modernos e os reinvestindo de novas roupagens.

Embora modernidade e pós-modernidade se misturem, muitos ainda vivem sob a égide dos valores da modernidade, assim como uma estrela que, apesar de estar “tecnicamente morta”, segue brilhando por um tempo, e os observadores terrenos continuam percebendo seu brilho como se ela ainda estivesse “viva”.

Pós-Modernidade

1ª palavra-chave: nós

Há uma passagem do “eu” para o “nós”: o tribalismo, o grupo, a comunidade.  Não há mais o indivíduo epistemológico; está-se deixando a época do “eu”. Não há mais autonomia, e sim heteronomia, isto é, o outro é que me diz o que é lei. O indivíduo só existe através do olhar do outro, que me cria. Não se pode mais permanecer numa compreensão individualista, e só se permite pensar os laços sociais pela alteridade. O outro permanece o outro. Não é mais o indivíduo – o indivisível; este se torna pessoa/persona que é massa.  Do contrato social (racional) passa-se ao pacto social – que é emocional e efêmero.

2ª palavra-chave: criatividade

O trabalho não é mais “o valor”.  Há um retorno da criatividade, a ideia de fazer da vida uma obra de arte. É uma preocupação mais visível nas gerações mais jovens. Retomam-se os parâmetros pré-modernos que haviam sido deixados de lado: o lúdico, o festivo, o onírico, o imaginário. Não na sociedade “oficial”, mas na sociedade “oficiosa”, que é a que Maffesoli diz estar tentando entender.

3ª palavra-chave: corporismo

A ferramenta para se atingir as metas na pós-modernidade não é mais o racionalismo, e sim o “corporismo” – o corpo no seu inteiro. Não há uma negação da razão, mas sim uma razão sensível que se utiliza de todos os sentidos. Há um corpo construído pela moda, pela dieta, pelo exercício físico; e esta exacerbação do corpo individual constrói o corpo coletivo, o corpo social – há um retorno da comunidade.

4ª palavra-chave: estetização do mundo

Não mais o utilitarismo, mas o retorno das emoções esportivas, musicais, religiosas: é a emoção do vibrar em conjunto – que leva ao conceito sociológico de sintonia.

Nesse período de uma suposta crise econômica,  ganha importância o “luxo” – que não é necessariamente funcional, como um membro luxado.

5ª palavra-chave: aqui e agora

Não mais uma eternidade a ser atingida, mas o instante eterno. A eternidade vivida aqui e agora.

Há um paradoxo pós-moderno, uma sinergia entre o arcaico (no sentido do que é fundamental, o que é primeiro, como as tribos) e o desenvolvimento tecnológico (como a internet).

Atualmente, 70% do tráfego de dados das redes giram em torno de discussões filosóficas, religiosas e eróticas – temas arcaicos que reemergem com o sentimento de pertencimento. Os laços sociais se tecem a partir das emoções coletivas.

Embora modernidade e pós-modernidade se misturem, muitos ainda vivem sob a égide dos valores da modernidade. O pesquisador usou a metáfora das estrelas mortas: uma estrela, apesar de já estar “tecnicamente morta”, segue brilhando por um tempo, e os observadores terrenos continuam percebendo seu brilho como se ela ainda tivesse vida.

Há uma dificuldade grande de passagem porque o “topos” – no sentido do espaço das relações do moderno – se dava pela verticalidade;  já no pós-moderno, pela horizontalidade.

Maffesoli encerrou citando um texto poético: “O que você procura já está lá, está vindo ao seu encontro – é preciso saber vê-lo”.

Michel Maffesoli é  professor da Sorbonne – Paris-V, Institut Universitaire de France, membro do Conselho Nacional de Pesquisa (CNRS), diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Quotidiano (CEAQ) e das revistas Societés e Cahiers Européens de l’Imaginaire.

O evento teve a parceria e o apoio do PPGSC – Programa de Pós-Graduação  em Saúde Coletiva, NUPEBISC – Núcleo de Pesquisa  em Bioética e Saúde Coletiva Residência  Multiprofissional  em  Saúde  da  Família  e  Residência  Integrada  Multiprofissional  em Saúde  – PRO-PET-SAUDE  -Ministério da Saúde, Centro de Ciências da Saúde – CCS  e PPGP  – Programa de Pós-Graduação em Psicologia  – CFH  

 Alita Diana/Jornalista da Agecom/DGC/UFSC

 

Claudio Borelli / Revisor de Textos da Agecom / Diretoria-Geral de Comunicação / UFSC
 

Fotos: Wagner Behr/Agecom/DGC/UFSC