Le Breton e a antropologia da dor

14/03/2014 16:49

Antropólogo David Le Breton. Foto:CDS

O antropólogo francês David Le Breton (1953 – ), especialista em antropologia do corpo e temas relacionados às sociedades contemporâneas, veio à UFSC como examinador da banca de doutorado de Aniele Fischer Brand, orientanda da professora Suzana da Rosa Tolfo, do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Aproveitando a oportunidade, o pesquisador ministrou palestra com o tema “A Antropologia da dor”, no dia 11 de março, em mesa coordenada por Suzana. A palestra teve como base seu livro Antropologia da Dor (Fap-Unifesp – 2013). Destacam-se aqui os tópicos principais da palestra e alguns temas de perguntas da plateia.

Simpático, sorridente e se esforçando para falar em português, Le Breton iniciou dizendo que dor e morte são experiências humanas que levam à metamorfose. Para ele, a dor é significação, é sempre sentido, e o sofrimento está ligado a esta significação; não é um fato da anatomia ou da biologia. O sofrimento provém da mistura corpo e significação, passando pela subjetividade da pessoa num contexto particular, cultural e de história. Não é o corpo que sofre, é o indivíduo. De uma condição social e cultural para outra, o homem não reage da mesma forma a um ferimento, a uma infecção; e a anatomia e a fisiologia não dão conta de explicar essas diferenças. Um exemplo é como os profissionais de serviços de saúde sabem que uma palavra amiga, uma presença na cabeceira, um toque, são às vezes mais efetivos para a melhora do paciente que um medicamento.

 

Visões históricas da dor

Le Breton explicou que, para a tradição aristotélica, a dor é uma categoria da emoção; já para a visão mecanicista de Descartes – que via o corpo como uma máquina–, é consequência do uso excessivo dos sentidos. Freud, com a lógica do inconsciente e estudos da histeria, abriu espaço para pensar o homem não só como uma máquina. Atualmente, a dor não é vista mais somente como uma exasperação dos sentidos – é percepção, interpretação, e não apenas reações: cada dor tem um grau particular de sofrimento.

As dores destrutivas

O antropólogo explicou que a dor pode irromper como violência, destruição da pessoa – é o caso das doenças como o câncer, dos ferimentos e da tortura.  É uma dor que dilacera a presença do indivíduo, rompe a relação de unidade com o mundo, contamina sua relação com o próximo, diminui o gosto pela vida.  Mas há “técnicas” para se lidar com ela, como um relaxamento, pensamentos em outra direção (ele não quis usar o termo pensamentos “positivos”), a hipnose.

O pesquisador citou o exemplo do escritor uruguaio, com vários livros publicados na França, Carlos Liscano, (1949-), que foi preso político por 15 anos.  Nesse período, mesmo sob tortura, nunca delatou ninguém e resistiu à violência, sempre pensando no que chamou de “dignidade” – uma dignidade, relatou Liscano em livros, aprendida na infância, junto à família e na escola.  Esta dignidade, que deveria manter para se apresentar, à saída do cárcere, perante a esposa, a família ou quem quer que  ele prezasse, serviu-lhe  de escudo para resistir às torturas e aos longos anos de prisão.

As dores escolhidas e o sofrimento

Estudioso da sociedade contemporânea, Le Breton falou sobre a dor como experiência escolhida – o caso dos esportes, das tatuagens, das práticas de suspensão. A pessoa diz “posso aguentar” a dor; a pessoa procura esta dor. Por essas razões, a dor é modulada pelas circunstâncias, história, idade da pessoa. O que é intolerável na dor é o sofrimento, que pode ser terrível ou insignificante.

Existe também, relatou o pesquisador, um investimento na dor que a alarga, como é o caso extremo dos ultramaratonistas,  para os quais é importante gerar e sentir esta dor absoluta durante as corridas. Para esses esportistas, essa dor, a do esforço da corrida, é diferente de uma dor ciática, que não é voluntária, mas uma inimiga.

Para Le Breton, as escarificações e condutas de risco são, muitas vezes, dores provocadas por quem luta contra o sofrimento. A pessoa opõe uma dor que ela controla a um grande sofrimento, como uma técnica de sobrevivência, para combater dores sobre as quais não pode ter controle, como os abusos sexuais e os vários tipos de bullying. Citou também o exemplo de um desgosto de amor – que pode tornar uma pessoa tão infeliz, que ela se faz uma dor corporal mais forte para não ter que sentir a do coração.

O professor falou também sobre as situações em que a dor apaga-se, esvanece-se, fazendo com que se fique insensível ao sofrimento – como é o caso da maioria das pessoas que vive nas ruas.

Relatou ainda o caso em que as pessoas não conseguem mais se identificar com a dor do outro – os matadores profissionais, os matadores de colégio, o caso dos serial killers.

Cristianismo e o discurso do enfrentamento da dor

Indagado sobre a questão da relação do Cristianismo com o sofrimento, o antropólogo explicou que não foi o Cristianismo que inventou a redenção pela dor, ela já existia em outras culturas; mas o Cristianismo deu ao mundo este relato: de como enfrentar a dor. Identificando-se com o Cristo, a pessoa doente não sofria tanto – uma forma simbólica para se lidar com o sofrimento.  O papa João Paulo II, após ter sofrido o atentado (ocorrido em Fátima, Portugal, em 1981), conviveu com muitas dores, escreveu um livro sobre o tema e, embora fosse conservador, disse que um bom cristão deve viver em seu tempo e usar os recursos disponíveis para diminuir a dor.

O corpo como âncora

No mundo atual, está-se sempre vivenciando situações de ambivalência, de mudança constante com a internet e outras situações de incerteza, podendo parecer que o corpo não concerne mais à pessoa. Daí se observa, muitas vezes, uma preocupação obsessiva com o corpo, para que se possa sentir que há um controle sobre ele, sobre nossa vida.  Nosso corpo tornou-se nossa âncora, para continuar a vida com um mínimo de certeza.

 Sobre David Le Breton

É professor na Université Marc Bloch (Strasbourg II, França) e membro do Laboratório “Cultura e Sociedade na Europa”. Dentre diversos livros publicados, destacam-se La sociologie du risque (1995); La sociologie du corps (1997); Passions du risque (2000) e L’adieu au corps (2013), e, traduzidos para o português,  Compreender a dor (2007), A Sociologia do corpo (2008) e Antropologia da dor ( 2013).

Le Breton foi coorientador de Aniele Fischer Brand, durante seu doutorado sanduíche na França. Aniele defendeu, dia 12 de março, a tese “O  processo de formação identitária profissional e a incorporação, inculcação e encarnação do habitus militar: um estudo etnográfico na Política Militar de Santa Catarina”.

Alita Diana/Jornalista da Agecom/Diretoria-Geral de Comunicação/UFSC

Revisão: Claudio Borrelli / Revisor de Textos/Agecom/Diretoria-Geral de Comunicação/ UFSC
 

Imagem da capa: detalhe da capa do livro Antropologia da Dor