Divulgação da Ciência: mostra organizada por alunos da UFSC recebe cerca de 700 visitantes

27/03/2014 18:33

Exposição foi organizada por cinco alunos em apenas uma semana. Foto: Guilherme M.Gomes

Levar pesquisas e experiências sobre o cérebro humano para um shopping center. Esta foi a proposta de um grupo de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina, que encarou o desafio de organizar, em apenas sete dias, uma exposição para marcar a Semana do Cérebro.

A ideia partiu da doutoranda em Farmacologia, Ana Paula Ramos Costa, que passava pelo shopping Floripa e percebeu que havia uma loja desativada. Na mesma hora, ela teve a ideia de organizar ali uma exposição sobre o cérebro humano, como parte do evento comemorado mundialmente em março. A direção do shopping rapidamente abraçou a proposta, que contou também com a colaboração de lojistas, que empresaram TV, livros e móveis.

No local da exposição, onde antes havia roupas, foram afixados pôsteres, vídeos com palestras, computadores com jogos da memória. Os visitantes puderam conhecer o que acontece com o cérebro quando estamos apaixonados, com fome, envelhecemos, engravidamos, dormimos e assistimos filmes 3D. As estantes foram ocupadas por réplicas de cérebro em vários tamanhos, além de livros sobre o tema. Um cantinho da loja foi reservado para as crianças desenharem e pintarem. Nos provadores de roupas da antiga loja, foram montadas quatro diferentes experiências interativas que exploravam os sentidos de tato, visão, audição e olfato.

Banners, vídeos, jogos e experiências sensoriais foram algumas das atrações. Foto: Guilherme M. Gomes

Desde a ideia inicial até o encerramento, o evento foi uma verdadeira maratona. Além de cinco estudantes que atuaram na linha de frente, participaram também familiares, professores e colegas de curso. O resultado foi levar, dos dias 13 a 15 de março, o conhecimento científico mais próximo da população. Acompanhe na entrevista com a idealizadora, Ana Paula Ramos da Costa, quais foram os desafios de montar uma exposição em apenas uma semana e as lições aprendidas.

- Nos três dias de evento, quantas pessoas tiveram oportunidade de visitar a exposição? Como foi a reação?
Ana Paula Ramos da Costa - Tivemos cerca de 540 assinaturas em nosso livro de visitas, mas calculamos que pelo menos 700 pesoas estiveram lá, pois muitas não assinaram. Além disso, consideramos o número de pessoas atingidas ainda maior pois com certeza as pessoas chegaram em suas casa e comentaram a experiência que viveram lá.  A reação das pessoas foi o que mais nos surpreendeu, pois muitas não esperavam encontrar esse tipo de exposição científica num shopping. Tivemos visitas desde idosos até crianças, desde a moça da limpeza do shopping até turistas argentinos e uruguaios. Uma neurologista carioca, que na ocasião estava de férias na cidade, fez questão de conversar comigo para parabenizar a iniciativa, dizer que tirou fotos e vai mostrar para o seu chefe para quem sabe fazerem por lá a mesma coisa. Elogiou o conteúdo e a forma que foi colocado, de maneira bastante acessível ao público em geral.

- Quais foram as principais dificuldades enfrentadas nesta experiência?
Ana Paula - A maior dificuldade foi a falta de tempo. O início do ano é bastante atribulado, com prazos e defesas no departamento. Para contribuir o shopping aceitou nossa proposta um dia antes do carnaval. Tivemos exatamente uma semana para organizar e produzir todo o material.

Equipe já confirmou com o shopping a realização do evento no ano que vem. Foto: Guilherme M. Gomes

- Que tipo de apoio você encontrou na UFSC?
Ana Paula - O Programa de Pós-Graduação em Farmacologia custeou todo o evento, material gráfico, materiais expostos na loja e outros. A coordenadora, professora Thereza Christina Monteiro de Lima, nos deu liberdade para criarmos o evento. Além disso, contamos com o apoio dos professores do Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética (BEG), Evelise Maria Nazari, Yara Muller e Marcio Ferreira Dutra. Este último esteve conosco por um dia inteiro no evento. Entretanto, toda a organização e execução do evento foram feitas exclusivamente por alunos. Dos cinco organizadores, duas são alunas de graduação.

- Quais estudantes participaram na organização e execução?
- Ana Paula –  Os coordenadores da semana foram: Ana Paula Ramos Costa, Claudini Honório de Pieri (Iniciação Científica), Guilherme Monteiro Gomes, Júlia Dalla Corte Vaz (IC) e Karina Nicole Sobota. Os colaboradores com banner e seleção de palestras foram: Ana Gabriela do Carmo (BEG), Camila Zanella, Josiel Mack, Marília Giassi Gerhardt (BEG), Eliane Zeni (BEG) e Gerusa Dalmolin.
Os colaboradores de atendimento ao público foram todos os coordenadores, os colaboradores com banner e também os estudantes Ana Cristina Guerra de Souza, Andréia Cunha, Samantha Cristiane Lopes, Fernanda Gomes de Queiroz Barros, Vagner Fagnani Linartevichi, Renata Nunes Marchette, Evelyn Cristina Silva Santos, Priscila Scarpa (IC) e o professor Márcio Ferreira Dutra.

- Quais laboratórios/professores que ajudaram com os banners?
- Ana Paula –  Os banners foram confeccionados pelos alunos Ana Gabriela do Carmo (bolsista de extensão BEG), Camila Zanella (Mestranda Farmacologia), Josiel Mack (Doutorando Farmacologia), Marília Giassi Gerhardt (bolsista de extensão BEG), Eliane Zeni (Doutoranda BEG), Júlia Dalla Corte Vaz (IC Farmacologia), Karina Nicole Sobota (Doutoranda Farmacologia), Ana Paula Ramos Costa (Doutoranda Farmacologia) e Claudini Honório de Pieri (IC Farmacologia).

- Como os familiares se envolveram na organização do evento?
- Ana Paula –  A irmã da Júlia Dalla Corte Vaz, Eduarda Dalla Corte Vaz, de 15 anos, confeccionou boa parte da decoração utilizada na loja, dando ideias e fazendo os moldes dos móbiles que penduramos pela loja. O meu pai, Luiz Otávio Borrajo Costa, fez os cérebros em MDF com iluminação em LED que decorou a vitrine. Minha cunhada Marcela Dorigon Costa fez os cérebros e neurônios em papel de Scrapbook.

- A participação abriu alguma parceria, seja na UFSC ou fora da Universidade?
- Ana Paula –  Sim, várias pessoas vieram nos procurar querendo levar nossa exposição para outras cidades. Inclusive uma funcionária dos Correios pediu nosso contato para fazermos o mesmo na empresa. Fora isso, professores de outros departamentos e centros da própria universidade vieram conhecer nosso trabalho e propuseram colaboração para outros tipos de atividades.

- Vocês já estão planejando outros eventos semelhantes de divulgação científica?
- Ana Paula –  Em um dos dias da exposição recebemos a visita do professor Jamil Assreuy, pró-reitor de Pesquisa da UFSC, que é professor do departamento de Farmacologia. Ele disse que a TV UFSC agora está em rede aberta e está com ideias de fazer um programa de divulgação científica, mas que precisaria de parceiros. Esta ideia nos pareceu bastante interessante e com outros colegas do departamento que também fazem outros tipos de divulgação científica temos a ideia de no futuro fazermos algo neste sentido. Além disso, a parceria com o shopping para a Semana do Cérebro do ano que vem está confirmada! Vale deixar bem claro que nós seguimos a agenda e o incentivo para a realização da Semana do Cérebro da The DANA foundation através da Brain Awereness Week e que no Brasil temos o apoio da Sociedade Brasileira de Neurociências, a SBNec. Somos parceiros e temos nosso evento registrado nas duas organizações. Este já é nosso terceiro ano de participação, mas o primeiro com a ideia de levar para o shopping.

- Para concluir, o que você considera de lições aprendidas? Quais erros que não querem cometer nas próximas ou quais decisões deram certo?
- Ana Paula –  As lições que nós aprendemos foi que, quando se tem vontade e satisfação em algum projeto, ele pode dar certo e superar todas as expectativas, mesmo com falta de tempo, de apoio e de adeptos ao projeto. Não imaginávamos que o shopping compraria nossa ideia, não imaginávamos que teríamos lojas de dentro do shopping parceiras na realização do evento, como a Ri Hhappy, que cedeu boa parte do material para o espaço Kids, o Magazine Luiza, que emprestou a televisão para as palestras, e a livraria Nobel, que disponibilizou vários exemplares de literatura relacionada. Se tivéssemos tido mais tempo, tenho certeza de que conseguiríamos ainda mais parceiros e que o evento teria saído inteiramente sem custos, ainda que nosso custo tenha sido bastante baixo. Para as próximas edições vamos nos planejar com mais tempo para que tudo saia de uma maneira mais tranquila, para que possamos divulgar mais, atingindo mais gente, desde visitantes a participantes da organização.

- O que você recomendaria para outros estudantes que queiram fazer iniciativas semelhantes?
- Ana Paula –  Recentemente saiu em um blog os 10 motivos para você fazer divulgação científica. Eu compartilhei no meu facebook com os seguintes dizeres: Cerca de 10 dias atrás, eu e um grupo muito restrito de colegas (5 organizadores e mais 10 no apoio) de um programa de pós-graduação nível de Excelência na CAPES (com cerca de 60 alunos) arregaçamos as mangas e colocamos a ciência pra fora da universidade. Não só colocamos pra fora da universidade, local onde se acredita morar o conhecimento. Levamos para um dos maiores símbolos do consumismo: um shopping! Em três dias descobrimos que as pessoas gostam de consumir sim, foram mais de 600 pessoas que apareceram lá para consumir ciência, do idoso à criança, da moça que limpa as mesas do shopping ao turista argentino. Como cientista apaixonada pelo que faço tenho o prazer de dizer que participo ativamente da divulgação científica no meu país, aos colegas cientistas fica a dica: o currículo lattes abriu até uma nova aba para registrar as ações de divulgação científica.

Mais informações:

Ana Paula Ramos da Costa - anapaulacosta.bio@gmail.com

Veja também a galeria de fotos da exposição Semana do Cérebro 2014

Notícia relacionada: Ajustes na Plataforma Lattes estimulam a divulgação científica

Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC