Estudantes de Economia debatem exploração dos recursos naturais da América Latina

09/08/2013 13:51

Gilberto Cervinski (Movimento dos atingidos por barragens), Maicon Claudio (Eneco) e Mônica Bruckmann (UFRJ) participam da mesa sobre recursos naturais. Foto: Wagner Behr / Agecom / UFSC

A América Latina detém as principais reservas de recursos naturais do planeta, mas a região ainda não estabeleceu uma estratégia para a exploração desses recursos. Esta é a análise feita pela professora Mônica Bruckmann, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante o Encontro Nacional de Estudantes de Economia (Eneco). A professora participou da mesa “América Latina e seus recursos naturais: entre a maldição e o desenvolvimento”, realizada na manhã de quinta-feira, 8 de agosto, e que reuniu também o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Gilberto Carlos Cervinski.

A mesa teve início pela fala de Gilberto Cervinski, que analisou a questão dos recursos naturais a partir de sua perspectiva como militante há mais de 20 anos do movimento dos atingidos por hidrelétricas. Para ele, os problemas vivenciados pelo MAB têm sua origem nas privatizações na década de 1990 e cujo modelo baseia-se no capital financeiro, especulativo e na ação de empresas transnacionais que exploram os recursos locais com o objetivo do lucro. Gilberto apresentou vários exemplos, entre eles o da Bacia do Rio Uruguai, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “São sete hidrelétricas controladas por três empresas, Alcoa, Camargo Correa e Suez”, explica. Segundo ele, as empresas obtêm um faturamento de US$ 3,5 bilhões com a venda da energia, um valor muito mais elevado que a soma dos orçamentos dos 50 municípios que são atingidos pelas hidrelétricas, que é de US$ 700 milhões. “As sete hidrelétricas geram muito mais lucro do que o dinheiro de 50 municípios. Como pode haver desenvolvimento se as maiores riquezas geradas em uma região não ficam lá, vão para os cofres de outros países?” questiona.

Gilberto abordou também a crise que iniciou em 2008 e tende a se agravar. Ele explica que o controle dos recursos naturais é uma das formas que o capitalismo mundial encontra para sair da crise, junto com o rebaixamento do valor da força de trabalho, o investimento em tecnologia e a disputa pelo controle e o orçamento do Estado. “O Brasil tem sua matriz energética formada por mais de 80% em base hídrica, enquanto nos EUA 81% e na China 79% da matriz é de energia não renovável”, explica. Dada a pressão cada vez maior pelos recursos, Gilberto destaca a importância para os países da América Latina em controlar os melhores recursos naturais, como água petróleo, minério e a biodiversidade. “O Brasil vem recebendo US$ 60 bilhões por ano em investimento internacional direito, o que representa a desnacionalização da economia e afeta a soberania nacional”, alerta.

O tema “soberania nacional’ também foi abordado pela professora Mônica Bruckmann. Ao iniciar sua fala, destacou que o Eneco coloca em pauta um dos temas mais sensíveis para a América Latina e para o mundo, pela quantidade crescente de conflitos locais e regionais que a exploração dos recursos tem gerado, e pelas consequências ambientais e sociais. Mônica apresentou dados de sua pesquisa sobre o embasamento científico que direciona as estratégias econômica e militar dos Estados Unidos na disputa global pelos recursos naturais. Para ela, os países detentores dos recursos vêm desenvolvendo estratégias de afirmação da soberania, enquanto os interesses hegemônicos se reorganizam para desacelerar, impedir e problematizar as ações de integração da América Latina. “O nível de dependência dos EUA em relação a minerais estratégicos é altíssimo. A China e a América Latina são os maiores exportadores. Não é casual que o nível de conflito na AL tenha aumentado tanto”, afirma. Peru, Chile, Argentina e Brasil lideram o número de conflitos.

“Em dezembro de 2004, 15% do território da Amazônia peruana estava destinado à exploração de petróleo e gás por empresas transnacionais. Em janeiro de 2008 passou para 75% e a estimativa é que em 2012 tenha chegado a 90% do território”, explica Mônica. “Esse modelo promove uma dinâmica de expulsão das populações de seus territórios originais. Privar essas pessoas da possibilidade de reproduzir sua memória histórica é uma questão cultural e civilizatória que precisa ser respondida”, enfatiza. Para a professora, a América Latina precisa gerir o preço internacional dos ativos, contabilizar quanto tem, quanto vai produzir e qual é a necessidade da dinâmica do mercado mundial em relação às necessidades estratégicas. “A região possui 400 milhões de habitantes, dos quais quase 100 milhões são pobres. Os desafios sociais e ambientais são grandes, mas a grande diferença é a vontade dos países em defender a paz, e não o desenvolvimento a partir da lógica de guerra”, afirma.

Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC

Fotos: Wagner Behr / Agecom / UFSC